Enquanto o diagnóstico tradicional costuma
esperar os primeiros sinais de perda de memória, especialistas apontam que a
doença já está em curso silencioso muito antes disso — e que parte relevante
dos casos está ligada a fatores de risco que podem ser identificados e
modificados
Por décadas, a investigação do Alzheimer começou no mesmo ponto:
quando a memória já falhava. Mas a ciência vem mostrando, com clareza
crescente, que a doença não nasce no dia do primeiro esquecimento. Segundo a
nutricionista Bruna Vidal Dias, mestre e doutora em Bioquímica Metabólica e
especialista em nutrição de precisão, as alterações biológicas associadas ao
Alzheimer — como o acúmulo da proteína beta-amiloide, mudanças na proteína tau
e processos de neuroinflamação — podem se desenvolver silenciosamente por até
15 a 20 anos antes de qualquer sintoma perceptível.
"O Alzheimer não começa no momento em que surgem os
esquecimentos. O grande desafio atual é deslocar a atenção do diagnóstico
tardio para a identificação precoce de alterações biológicas e de fatores de
risco potencialmente modificáveis", destaca Dra. Bruna Vidal Dias,
nutricionista especialista em nutrição de precisão da Ciera Genomics,
biotech brasileira especializada em ciências ômicas aplicadas à medicina e
nutrição de precisão.
Quase metade dos casos tem
relação com fatores modificáveis
O dado que sustenta essa mudança de olhar vem de uma das
publicações científicas mais respeitadas do mundo: um artigo de 2024 da revista
The Lancet estima que aproximadamente 45% dos casos de demência estejam
relacionados a 14 fatores de risco potencialmente modificáveis ao longo da vida
— entre eles hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade, tabagismo,
sedentarismo, perda auditiva não tratada, depressão, isolamento social e
distúrbios do sono.
“Isso não significa que todos os casos sejam evitáveis, mas mostra
que existe espaço real para prevenção ou adiamento em uma parcela relevante da
população”, pondera a especialista. Segundo ela, o objetivo realista da
investigação precoce não é prometer que a doença será impedida, mas reduzir o
risco, adiar o início dos sintomas e preservar a reserva cognitiva pelo maior
tempo possível.
Genética mostra o risco herdado;
metabolismo mostra o que está acontecendo agora
Na avaliação da especialista, dois tipos de informação biológica
se complementam nesse tipo de investigação. A análise genética revela
predisposições herdadas — o exemplo mais estudado é o gene APOE, cujo alelo E4
está associado a maior risco de Alzheimer de início tardio, podendo aumentar em
até 10 vezes a chance da doença quando herdado de ambos os pais. Já a análise
metabolômica mostra como o organismo está funcionando no presente, por meio de
marcadores como o metabolismo de aminoácidos e neurotransmissores, função
mitocondrial, processos inflamatórios e estresse oxidativo, entre outros.
"A genética representa a predisposição; a metabolômica mostra
como essa predisposição pode estar se expressando biologicamente no presente.
Pessoas com o mesmo risco genético podem apresentar trajetórias completamente
diferentes, conforme alimentação, sono, atividade física e outros fatores do
ambiente", acrescenta a especialista.
Cautela é parte do método
Apesar do entusiasmo em torno da medicina preditiva, a
especialista defende cautela na interpretação dos resultados. Segundo ela, não
é cientificamente correto afirmar que um exame consiga prever, com precisão
individual, quando uma pessoa desenvolverá a doença — o que é possível é
identificar alterações compatíveis com maior vulnerabilidade metabólica durante
a fase ainda assintomática.
“Um resultado de predisposição não pode ser apresentado como
destino. Uma interpretação inadequada pode causar ansiedade, estigma e
medicalização excessiva. A informação só é passada de forma ética quando vem
acompanhada de explicação, aconselhamento e um plano concreto de
acompanhamento”, alerta Dra. Bruna.
Mudança de paradigma sobre
envelhecimento
Para a especialista, o principal avanço trazido por essa abordagem
não é apenas descobrir o risco mais cedo, mas transformar esse conhecimento em
ação. “Historicamente, o Alzheimer foi tratado como consequência inevitável do
envelhecimento. Hoje sabemos que envelhecer não é sinônimo de desenvolver
demência. A saúde cerebral é construída ao longo de décadas — e coração,
metabolismo, sono, audição, atividade física, saúde mental e vida social
participam dessa trajetória”, afirma a nutricionista.
E conclui, que o Alzheimer é uma doença multifatorial, sem um
único gene, metabólito ou comportamento capaz de explicá-la isoladamente. “O
valor de uma investigação preventiva está em identificar vulnerabilidades sobre
as quais podemos agir, encaminhar adequadamente os achados que exigem avaliação
neurológica e construir estratégias para que cada pessoa preserve saúde
cerebral, autonomia e qualidade de vida pelo maior tempo possível”.
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