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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O Alzheimer começa a se formar até 20 anos antes do primeiro esquecimento


Enquanto o diagnóstico tradicional costuma esperar os primeiros sinais de perda de memória, especialistas apontam que a doença já está em curso silencioso muito antes disso — e que parte relevante dos casos está ligada a fatores de risco que podem ser identificados e modificados

 

Por décadas, a investigação do Alzheimer começou no mesmo ponto: quando a memória já falhava. Mas a ciência vem mostrando, com clareza crescente, que a doença não nasce no dia do primeiro esquecimento. Segundo a nutricionista Bruna Vidal Dias, mestre e doutora em Bioquímica Metabólica e especialista em nutrição de precisão, as alterações biológicas associadas ao Alzheimer — como o acúmulo da proteína beta-amiloide, mudanças na proteína tau e processos de neuroinflamação — podem se desenvolver silenciosamente por até 15 a 20 anos antes de qualquer sintoma perceptível.

"O Alzheimer não começa no momento em que surgem os esquecimentos. O grande desafio atual é deslocar a atenção do diagnóstico tardio para a identificação precoce de alterações biológicas e de fatores de risco potencialmente modificáveis", destaca Dra. Bruna Vidal Dias, nutricionista especialista em nutrição de precisão da Ciera Genomics, biotech brasileira especializada em ciências ômicas aplicadas à medicina e nutrição de precisão.

Quase metade dos casos tem relação com fatores modificáveis

O dado que sustenta essa mudança de olhar vem de uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo: um artigo de 2024 da revista The Lancet estima que aproximadamente 45% dos casos de demência estejam relacionados a 14 fatores de risco potencialmente modificáveis ao longo da vida — entre eles hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade, tabagismo, sedentarismo, perda auditiva não tratada, depressão, isolamento social e distúrbios do sono.

“Isso não significa que todos os casos sejam evitáveis, mas mostra que existe espaço real para prevenção ou adiamento em uma parcela relevante da população”, pondera a especialista. Segundo ela, o objetivo realista da investigação precoce não é prometer que a doença será impedida, mas reduzir o risco, adiar o início dos sintomas e preservar a reserva cognitiva pelo maior tempo possível.


Genética mostra o risco herdado; metabolismo mostra o que está acontecendo agora

Na avaliação da especialista, dois tipos de informação biológica se complementam nesse tipo de investigação. A análise genética revela predisposições herdadas — o exemplo mais estudado é o gene APOE, cujo alelo E4 está associado a maior risco de Alzheimer de início tardio, podendo aumentar em até 10 vezes a chance da doença quando herdado de ambos os pais. Já a análise metabolômica mostra como o organismo está funcionando no presente, por meio de marcadores como o metabolismo de aminoácidos e neurotransmissores, função mitocondrial, processos inflamatórios e estresse oxidativo, entre outros.

"A genética representa a predisposição; a metabolômica mostra como essa predisposição pode estar se expressando biologicamente no presente. Pessoas com o mesmo risco genético podem apresentar trajetórias completamente diferentes, conforme alimentação, sono, atividade física e outros fatores do ambiente", acrescenta a especialista.


Cautela é parte do método

Apesar do entusiasmo em torno da medicina preditiva, a especialista defende cautela na interpretação dos resultados. Segundo ela, não é cientificamente correto afirmar que um exame consiga prever, com precisão individual, quando uma pessoa desenvolverá a doença — o que é possível é identificar alterações compatíveis com maior vulnerabilidade metabólica durante a fase ainda assintomática.

“Um resultado de predisposição não pode ser apresentado como destino. Uma interpretação inadequada pode causar ansiedade, estigma e medicalização excessiva. A informação só é passada de forma ética quando vem acompanhada de explicação, aconselhamento e um plano concreto de acompanhamento”, alerta Dra. Bruna.


Mudança de paradigma sobre envelhecimento

Para a especialista, o principal avanço trazido por essa abordagem não é apenas descobrir o risco mais cedo, mas transformar esse conhecimento em ação. “Historicamente, o Alzheimer foi tratado como consequência inevitável do envelhecimento. Hoje sabemos que envelhecer não é sinônimo de desenvolver demência. A saúde cerebral é construída ao longo de décadas — e coração, metabolismo, sono, audição, atividade física, saúde mental e vida social participam dessa trajetória”, afirma a nutricionista.

E conclui, que o Alzheimer é uma doença multifatorial, sem um único gene, metabólito ou comportamento capaz de explicá-la isoladamente. “O valor de uma investigação preventiva está em identificar vulnerabilidades sobre as quais podemos agir, encaminhar adequadamente os achados que exigem avaliação neurológica e construir estratégias para que cada pessoa preserve saúde cerebral, autonomia e qualidade de vida pelo maior tempo possível”.


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