Entre o atalho fácil e o
desenvolvimento do pensamento crítico, o letramento em IA surge como peça-chave
para o futuro das próximas gerações
O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) já impacta empresas, governos e a rotina das famílias. No entanto, um debate ganha cada vez mais relevância: como preparar adolescentes para usar essa tecnologia de forma crítica e estratégica? Para Luciana Nogueira Minev e Suelen Scop, sócias da Singulari Consultoria, o letramento em IA é uma agenda urgente, não apenas educacional, mas social e econômica.
“Se a gente não conversa sobre o uso de IA, o uso vai acontecer de
forma inadequada, tanto nas empresas quanto com adolescentes”, afirma Luciana
Minev. “A IA deve amplificar o repertório e o raciocínio. O risco está em
terceirizar o pensamento crítico.”
Entre o atalho e o desenvolvimento cognitivo
A discussão não é sobre proibir ou liberar o uso, mas sobre
orientar. A adolescência é uma fase de construção de repertório, identidade e
capacidade analítica. Sem direcionamento, a IA pode se tornar um “atalho
confortável”, especialmente em atividades acadêmicas.
Um estudo conduzido por pesquisadores do MIT (Massachusetts
Institute of Technology) analisou diferentes formas de uso de IA na produção de
textos e indicou que participantes que delegavam integralmente a tarefa
cognitiva à ferramenta apresentavam menor engajamento mental. Já aqueles que
utilizavam a IA para revisar, refinar ou expandir ideias próprias não
apresentaram prejuízos cognitivos. A conclusão reforça que o impacto depende da
forma de uso.
“Quando o adolescente simplesmente pede para a IA escrever um
texto pronto, ele está terceirizando o raciocínio. Mas quando usa a tecnologia
para aprofundar, organizar ideias ou testar hipóteses, o ganho é real”, explica
Luciana, que também é psicóloga.
Ferramentas como o NotebookLM e funcionalidades de estudo em
plataformas de IA podem apoiar a criação de trilhas de aprendizagem, geração de
flashcards e organização de conteúdos, desde que haja mediação adequada.
Preparação para um mercado de trabalho moldado pela IA
O debate ganha ainda mais peso quando se observa o futuro do trabalho. De acordo com o relatório The Future of Jobs 2023, do Fórum Econômico Mundial, cerca de 44% das habilidades exigidas no mercado devem mudar até 2027, e competências relacionadas à tecnologia, pensamento analítico e aprendizagem ativa estarão entre as mais demandadas.
Já a PwC, no estudo Global Artificial Intelligence Study,
projeta que a IA pode contribuir com até US$ 15,7 trilhões para a economia
global até 2030. Isso significa que os adolescentes de hoje entrarão em um
mercado profundamente orientado por automação, dados e sistemas inteligentes.
“Se começarmos o letramento em IA ainda na adolescência, esses
jovens chegarão ao mercado já preparados para usar a tecnologia como aliada estratégica,
e não como muleta”, destaca Suelen Scop.
Segundo relatório da McKinsey (The State of AI 2023),
organizações que investem em capacitação em IA apresentam melhores índices de
inovação e produtividade. Para as sócias da Singulari, essa capacitação precisa
começar antes da vida profissional.
Uma responsabilidade coletiva: escola, família e sociedade
O letramento em IA não deve recair apenas sobre os jovens. Pelo
contrário, professores, gestores escolares e famílias também precisam
compreender a tecnologia, pois são atores importantes nesse processo com os jovens.
“Muitos professores ainda demonizam a IA, assim como aconteceu com
o Google no passado. Quando não há abertura para o uso orientado, o aluno tende
a usar escondido e da forma menos adequada”, observa Suelen.
Para ela, a proibição é menos eficaz do que o diálogo estruturado.
“Adolescentes já têm celular e acesso a aplicativos. A discussão precisa ser
coletiva: quais são os riscos? Como evitar desinformação? Como identificar
‘alucinações’ da IA? Como usar para estudar de forma ativa?”
A UNESCO, em seu guia sobre IA e educação (2023), também defende a
integração responsável da tecnologia aos currículos, com foco em ética,
pensamento crítico e desenvolvimento humano.
Não demonizar nem endeusar. Educar.
A Singulari Consultoria defende uma abordagem equilibrada. A
história mostra que toda nova tecnologia gera receios, como ocorreu com
mecanismos de busca na internet. A diferença agora é a potência e a velocidade
de transformação.
“Não faz sentido resistir à tecnologia. Mas também não faz sentido
usá-la sem consciência”, afirma Luciana. “O ponto central é orientação. A IA
pode ampliar o potencial humano, desde que o humano continue no comando.”
Para as especialistas, o letramento em IA na adolescência é um
investimento estrutural no futuro da sociedade. Jovens que aprendem a usar IA
com pensamento crítico tendem a se tornar profissionais mais inovadores,
cidadãos mais conscientes e líderes mais preparados para lidar com dilemas
éticos e tecnológicos.
Mais do que ensinar a usar ferramentas, trata-se de formar uma
geração capaz de pensar sobre elas.
Singulari Consultoria
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