Mudanças de tipificação, subnotificação e ausência
de microdados públicos tornam o fenômeno estatístico instável e comprometem
estratégias de redução da violência contra mulheres no Brasil
O Brasil avançou ao reconhecer o feminicídio como
categoria legal e indicador público, mas ainda enfrenta um obstáculo central
para o enfrentamento da violência contra mulheres: a fragilidade estrutural dos
dados oficiais, que não acompanham de forma transparente e padronizada a
dinâmica real dos crimes. A avaliação é do Movimento Mulheres Cuidando de
Mulheres, idealizado por Danda Coelho.
“O Estado conta casos, mas não produz inteligência. Sem
dados estáveis, completos e auditáveis, qualquer política nasce incompleta”,
afirma Danda.
Quando o dado muda, a política erra
Os principais relatórios nacionais sobre feminicídio cumprem
um papel fundamental ao medir magnitude e evolução do problema. No entanto,
eles próprios reconhecem que os números são dinâmicos, sujeitos a revisões
conforme investigações avançam, inquéritos são reclassificados e processos
judiciais evoluem.
Na prática, isso significa que o feminicídio nem sempre
‘nasce’ feminicídio no sistema. Casos inicialmente registrados como homicídio,
lesão corporal seguida de morte ou até suicídio podem ser reclassificados
apenas meses — ou anos — depois. Nesse intervalo, o dado público já circulou,
já foi usado em relatórios, discursos e planejamentos.
“O dado que muda depois não corrige a política que já foi
desenhada com base nele”, resume Danda.
Tipificação tardia e subnotificação estrutural
Um dos pontos mais críticos é a tipificação tardia. Em
ocorrências domésticas complexas, especialmente quando há morte seguida de
suicídio do agressor ou ausência de flagrante, a categorização inicial tende a
simplificar o evento. O resultado é a invisibilização da vítima enquanto caso de
violência de gênero.
Esse fenômeno impacta diretamente a capacidade do Estado
de:
· identificar padrões
recorrentes;
· mapear contextos de
risco;
· antecipar ciclos de
violência;
· avaliar a efetividade
de medidas protetivas.
Quando a notícia vira dado — e não o contrário
Outra fragilidade apontada é a dependência indireta da
imprensa e de iniciativas de monitoramento externo para revelar aspectos que os
dados oficiais não mostram. Em muitos casos, é a repercussão jornalística que
dá visibilidade ao padrão, e não o sistema estatístico público.
Isso cria um paradoxo perigoso:
o que vira notícia passa a existir como dado; o
que não vira notícia permanece invisível.
“Política pública não pode depender de manchete. Dado
confiável precisa anteceder a notícia, não nascer dela”, afirma Danda.
O que falta para o dado virar estratégia
Para que o enfrentamento ao feminicídio seja baseado em
evidência — e não apenas em contagem — o movimento defende avanços mínimos na
transparência e padronização dos registros públicos, como:
· histórico de
reclassificação dos casos (tipificação inicial x final);
· status processual
atualizado e rastreável;
· integração entre
registros policiais, judiciais e de saúde;
· microdados
anonimizados para pesquisa e auditoria independente;
· critérios nacionais
claros para consolidação estatística.
Sem esses elementos, alertam especialistas, o país seguirá reagindo aos números, e não prevenindo os fatos.
Em casos de violência, mulheres podem buscar ajuda pelo Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), pelo 190 em situações de emergência, pelas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e pela rede de proteção social e de saúde. bacharel em Direito, professora, doutora, jornalista, palestrante, dedicada a estudar vínculos, emoções, estruturas sociais que atravessam os relacionamentos e caminhos de superação, inclusive após rupturas afetivas. Seu projeto @mulherescuidandodemulheres surgiu da necessidade de criar um espaço seguro onde mulheres pudessem dividir suas dores sem julgamento e, a partir disso, receber orientação baseada em pesquisa, prática e empatia. Em casos de violência, mulheres podem buscar ajuda pelo Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), pelo 190 em situações de emergência, pelas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e pela rede de proteção social e de saúde.
Danda Coelho
– bacharel em Direito, professora, doutora, jornalista, palestrante, dedicada a
estudar vínculos, emoções, estruturas sociais que atravessam os relacionamentos
e caminhos de superação, inclusive após rupturas afetivas. Seu projeto @mulherescuidandodemulheres surgiu da necessidade de criar um
espaço seguro onde mulheres pudessem dividir suas dores sem julgamento e, a
partir disso, receber orientação baseada em pesquisa, prática e empatia.
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