Produtividade é o único caminho provado de evolução do bem-estar social para permitir geração e distribuição de riqueza. Esse tema precisa ser analisado numa perspectiva mais abrangente e estratégica, sem qualquer partidarismo político e ideológico e considerando o que é importante para a Nação.
O debate sobre jornada nesta altura do jogo ignora,
com claro objetivo eleitoreiro, a variável central do quanto o Brasil e a
população ganhariam se melhorássemos a produtividade antes de reduzir dias e
horas trabalhados.
E os números mostram o quanto é míope a visão de
que se possa reduzir jornadas e horas trabalhadas antes de produzir e
distribuir.
A produtividade média no Brasil é das mais baixas
quando comparada aos países da OCDE e, até mesmo, em relação a alguns países da
América do Sul.
Discutir jornada neste momento é inoportuno, míope
e eleitoreiro. E traz consequências diretas e indesejáveis para o varejo e
serviços.
Fatos e números
A forma usual de medir produtividade para países é
a produção total medida pelo PIB e considerando o volume de trabalho em termos
médios por horas ou pessoas empregadas.
Para comparar diferentes economias, usa-se o PIB por
hora trabalhada em US$ ajustado por PPP – Paridade de Poder de Compra.
O PIB brasileiro está na ordem de R$ 10 trilhões.
Com cerca de 100 milhões de pessoas ocupadas e, usando esses critérios, em
média, o trabalhador brasileiro produz cerca de US$ 21,2 por hora trabalhada,
segundo dados da Organização Internacional do Trabalho.
Esse dado coloca o Brasil, uma das 10 maiores
economias do mundo, na 94ª posição entre os 184 países avaliados e até abaixo
de outros da América do Sul.
Na média dos países da OCDE, a produtividade por
hora, dentro dos mesmos critérios, está em torno de US$ 70. Na Irlanda, esse
valor é de US$ 149,3; na Noruega, de US$ 132,3; nos EUA, de US$ 97; na
Alemanha, de US$ 93,8; na Holanda, de US$ 94,4; e, na Suécia, de US$ 89,2.
Na América do Sul, pelo mesmo critério e fonte, o
Uruguai atinge US$ 38, o Chile, US$ 34,4; e a Argentina, US$ 33,8.
Diagnóstico objetivo
Reduzir horas não gera mais riqueza e nem bem-estar
social de forma automática, pois a pergunta essencial não é feita: já produzimos
o suficiente para sustentar essa redução?
Produtividade é função de capital investido por
trabalhador, tecnologia incorporada, competência na gestão de negócios, escalas
alcançadas e, principalmente, qualificação profissional.
Em termos muito práticos e diretos, reduzir horas
sem esses elementos significa aumentar custo unitário dos produtos, pressionar
despesas, forçar aumento de preços, gerar inflação, além de reduzir
competitividade e, de quebra, estimular a informalidade.
E temos a questão que envolve a discrepância entre
setores econômicos em termos de eficiência, desempenho, resultados e
produtividade. Ela deveria desestimular, por absoluto bom senso, qualquer forma
de imposição generalista de normais desprezando as diferenças setoriais e
regionais.
Retrato setorial brasileiro
Usando dados comparativos das Contas Nacionais e
tomando como parâmetro a produtividade como a relação entre o Valor Adicionado
Bruto e o número de horas trabalhadas daquele setor, e considerando o Brasil
como índice 100, temos comparações setoriais que mostram sensíveis diferenças.
O setor de Petróleo & Gás tem produtividade na
faixa 350–500; o Sistema Financeiro, de 250 a 300; Energia, 220 a 260;
Indústria de Transformação, 120 a 150; Agropecuária, 110 a 140; Comércio e Varejo,
60 a 80; e Serviços Pessoais, 40 a 60.
Na prática, a constatação é que setores intensivos
em capital e tecnologia são mais eficientes e atividades dependentes de mão de
obra derrubam a média.
E é exatamente nos setores do comércio, varejo e
serviços pessoais que a redução de jornada teria maior impacto de custos,
desequilíbrio e estímulo à informalidade.
Bem-estar não nasce da redução de horas
trabalhadas. O fator fundamental é a capacidade de gerar renda
sustentável.
Países que reduziram jornada ao longo da história o
fizeram depois de ganhos relevantes de produtividade e não atropelaram o
processo. Exemplos de Alemanha, Estados Unidos, Dinamarca, Holanda e Coréia do
Sul mostram de forma clara esse processo.
Tentar inverter essa ordem, seja com que pretexto
for, vai produzir desequilíbrio e distorções, pressionar a inflação e estimular
a informalidade, em especial no setor trabalhista. Sem considerar o aumento do
Custo Brasil e a perda da competitividade no cenário internacional. E sem falar
no aumento inevitável na litigância trabalhista.
Importante lembrar que vivemos um momento de apagão
de mão de obra com um dos menores índices de desemprego da série histórica e
ainda com a distorção gerada pelos programas assistenciais, em especial o Bolsa
Família, que atende perto de 20 milhões de famílias envolvendo pouco mais de 50
milhões de pessoas.
Programas como Bolsa Família são fundamentais para
reduzir problemas sociais, mas como está configurado reduz o estímulo ao
trabalho e o desenvolvimento profissional e traz indesejável distorção, pois
inibe o emprego formal, aumenta a informalidade e reduz a contribuição
previdenciária, incubando uma situação que se tornará explosiva à frente.
Reduzir horas e jornadas, proposta cativante e
atraente usada com objetivos eleitoreiros, deveria ser de forma objetiva e
estratégica uma consequência do aumento da produtividade e da prosperidade. E
não o inverso.
O Brasil não precisa trabalhar menos. Precisa
produzir mais, com mais tecnologia, capacitação, investimentos e eficiência.
Elementos que são críticos no setor privado, mas que na absoluta maioria das
vezes são minimizados no setor público.
A redução da jornada, da forma como está proposta
neste momento, tem como maior mérito deslocar a discussão de temas sensíveis
para algo que demanda análise muito mais profunda, estrutural e estratégica, e
sem inversão de premissas.
De forma abrangente e pensando na Nação, sem
produtividade a redução de jornada é custo e distorção. Com eficiência,
capacitação, tecnologia e produtividade, será consequência natural.
Marcos Gouvêa de Souza - fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem
Gouvêa Ecosystem
https://gouveaecosystem.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário