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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Dia das Mulheres na Ciência reacende debate sobre desigualdade em financiamento e liderança


Cenário revela barreiras estruturais que limitam visibilidade, financiamento e progressão de carreira para mulheres 


O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, chama atenção para um paradoxo persistente no ambiente acadêmico e científico: embora as mulheres avancem em escolaridade e já representem a maioria entre doutores no Brasil, elas continuam sub-representadas em cargos de liderança, financiamento e reconhecimento científico. 

As mulheres conquistaram espaço na pós-graduação e hoje lideram em titulação e desempenho acadêmico. Mesmo assim, seguem distantes das posições de comando e dos principais mecanismos de fomento à pesquisa. Segundo levantamento da Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil (AMCR), apenas 5% dos cargos de liderança acadêmica no país são ocupados por mulheres, que também permanecem minoria em publicações de alto impacto, autoria principal e concessões de bolsas e prêmios. 

Dados recentes da UNESCO mostram que, globalmente, existe uma mulher cientista para cada três homens. Na pesquisa médica, a proporção é ainda mais desigual: uma mulher para cada quatro homens empregados em áreas científicas. Apesar da evolução observada nas últimas décadas, as disparidades em financiamento e visibilidade acadêmica permanecem. De acordo com o CNPq, em 2022 houve R$ 10 milhões a mais em bolsas concedidas a homens do que a mulheres, mesmo entre pesquisadoras de nível equivalente. 

“Existe uma ilusão de igualdade que não corresponde à realidade dos números. As mulheres continuam subfinanciadas, subvalorizadas e menos citadas em publicações de alto impacto. A desigualdade não está mais no acesso à formação, mas no acesso ao poder e ao reconhecimento”, afirma a Profa. Dra. Marise Samama, presidente da AMCR e doutora em Reprodução Humana pela Université de Paris. 

Um estudo publicado na revista Nature Human Behaviour confirma a desigualdade estrutural: cientistas mulheres são 40% menos propensas a serem mencionadas como autoras principais em trabalhos científicos e 30% menos citadas do que seus colegas homens, mesmo quando têm o mesmo nível de contribuição. Na prática médica, a diferença também se reflete em salários 30% a 40% menores e sub-representação em cargos de decisão. 

Para a Dra. Samama, o problema é sistêmico. “O preconceito de gênero na ciência não é explícito, mas está embutido na cultura das instituições. Homens são mais indicados para liderar projetos, são mais lembrados para palestras e ocupam mais espaços em conselhos e bancas. Isso cria um ciclo de invisibilidade feminina que se retroalimenta”, destaca. 

Outro aspecto preocupante é o ambiente de trabalho. De acordo com o artigo elaborado por um grupo de médicas latino-americanas, do qual a presidente da AMCR faz parte, 85% das mulheres em cargos de liderança na medicina relataram episódios de assédio moral ou sexual ao longo da carreira. O estudo aponta que a falta de políticas de prevenção e canais de denúncia eficazes é um dos principais motivos da evasão feminina de áreas científicas de alta competitividade. 

A desigualdade também afeta a inovação. Um relatório da Royal Society destaca que a diversidade de gênero aumenta a produtividade e a criatividade científica, especialmente em campos de pesquisa ligados à saúde e comportamento humano. “Quando apenas um gênero domina a produção de conhecimento, a ciência perde profundidade. Precisamos de olhares diferentes para entender problemas complexos, como a infertilidade, a saúde hormonal e as doenças reprodutivas”, reforça Samama. 

Mesmo na área de reprodução assistida, historicamente marcada pela presença feminina, os cargos de liderança e gestão continuam sendo predominantemente masculinos. A AMCR alerta que esse desequilíbrio impacta o tipo de pesquisa conduzida, o modo como o paciente é atendido e até a formulação de políticas públicas de saúde reprodutiva. 

“Hoje há um número expressivo de mulheres com certificação em reprodução humana no Brasil, mas poucas em posições estratégicas. Essa desigualdade é silenciosa, porém profunda, e precisa ser enfrentada com políticas afirmativas, mentorias e visibilidade institucional”, observa Samama. 

A presidente da AMCR reforça que, além de equidade, o tema envolve qualidade científica. “Diversidade de gênero é um indicador de excelência, não apenas de justiça. Incluir mulheres nas decisões científicas melhora os resultados, amplia a ética do cuidado e torna a ciência mais humana e eficiente”, conclui.



AMCR – Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil
Para mais informações, acesse o site.


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