O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na
Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, chama atenção para um paradoxo
persistente no ambiente acadêmico e científico: embora as mulheres avancem em
escolaridade e já representem a maioria entre doutores no Brasil, elas
continuam sub-representadas em cargos de liderança, financiamento e
reconhecimento científico.
As mulheres conquistaram espaço na pós-graduação e hoje lideram em
titulação e desempenho acadêmico. Mesmo assim, seguem distantes das posições de
comando e dos principais mecanismos de fomento à pesquisa. Segundo levantamento
da Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil (AMCR), apenas 5%
dos cargos de liderança acadêmica no país são ocupados por mulheres, que também
permanecem minoria em publicações de alto impacto, autoria principal e
concessões de bolsas e prêmios.
Dados recentes da UNESCO mostram que, globalmente, existe uma
mulher cientista para cada três homens. Na pesquisa médica, a proporção é ainda
mais desigual: uma mulher para cada quatro homens empregados em áreas
científicas. Apesar da evolução observada nas últimas décadas, as disparidades
em financiamento e visibilidade acadêmica permanecem. De acordo com o CNPq, em
2022 houve R$ 10 milhões a mais em bolsas concedidas a homens do que a
mulheres, mesmo entre pesquisadoras de nível equivalente.
“Existe uma ilusão de igualdade que não corresponde à realidade
dos números. As mulheres continuam subfinanciadas, subvalorizadas e menos
citadas em publicações de alto impacto. A desigualdade não está mais no acesso
à formação, mas no acesso ao poder e ao reconhecimento”, afirma a Profa. Dra.
Marise Samama, presidente da AMCR e doutora em Reprodução Humana pela
Université de Paris.
Um estudo publicado na revista Nature Human Behaviour
confirma a desigualdade estrutural: cientistas mulheres são 40% menos propensas
a serem mencionadas como autoras principais em trabalhos científicos e 30%
menos citadas do que seus colegas homens, mesmo quando têm o mesmo nível de
contribuição. Na prática médica, a diferença também se reflete em salários 30%
a 40% menores e sub-representação em cargos de decisão.
Para a Dra. Samama, o problema é sistêmico. “O preconceito de
gênero na ciência não é explícito, mas está embutido na cultura das
instituições. Homens são mais indicados para liderar projetos, são mais
lembrados para palestras e ocupam mais espaços em conselhos e bancas. Isso cria
um ciclo de invisibilidade feminina que se retroalimenta”, destaca.
Outro aspecto preocupante é o ambiente de trabalho. De acordo com
o artigo elaborado por um grupo de médicas latino-americanas, do qual a
presidente da AMCR faz parte, 85% das mulheres em cargos de liderança na
medicina relataram episódios de assédio moral ou sexual ao longo da carreira. O
estudo aponta que a falta de políticas de prevenção e canais de denúncia
eficazes é um dos principais motivos da evasão feminina de áreas científicas de
alta competitividade.
A desigualdade também afeta a inovação. Um relatório da Royal
Society destaca que a diversidade de gênero aumenta a produtividade e a
criatividade científica, especialmente em campos de pesquisa ligados à saúde e
comportamento humano. “Quando apenas um gênero domina a produção de
conhecimento, a ciência perde profundidade. Precisamos de olhares diferentes
para entender problemas complexos, como a infertilidade, a saúde hormonal e as
doenças reprodutivas”, reforça Samama.
Mesmo na área de reprodução assistida, historicamente marcada pela
presença feminina, os cargos de liderança e gestão continuam sendo
predominantemente masculinos. A AMCR alerta que esse desequilíbrio impacta o
tipo de pesquisa conduzida, o modo como o paciente é atendido e até a
formulação de políticas públicas de saúde reprodutiva.
“Hoje há um número expressivo de mulheres com certificação em
reprodução humana no Brasil, mas poucas em posições estratégicas. Essa
desigualdade é silenciosa, porém profunda, e precisa ser enfrentada com
políticas afirmativas, mentorias e visibilidade institucional”, observa Samama.
A presidente da AMCR reforça que, além de equidade, o tema envolve qualidade científica. “Diversidade de gênero é um indicador de excelência, não apenas de justiça. Incluir mulheres nas decisões científicas melhora os resultados, amplia a ética do cuidado e torna a ciência mais humana e eficiente”, conclui.
AMCR – Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil
Para mais informações, acesse o site.

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