Campanha eleitoral. Visitas em casas. Bato numa porta, uma senhora, que logo soube ser a doméstica da casa, recebe-me. Eu fora, ela dentro, a atenção dela para o interior. Insiro-me no recinto por contra própria. Ninguém me dá a menor atenção. A cena segue. Tudo girava em torno de um telefonema e todos estavam compenetrados na fala branda de um homem.
Nem pensei em
interrompê-lo. Logo interessei-me em ouvi-lo. Dizia que a menina estava bem
cuidada, que não carecia de haver preocupação, que igualmente a amavam, mas que
ela devia ser levada, o que lhe causaria muita dor no coração, causaria, aliás,
dor no coração de toda a família, dado que era coisa de todos e de cada um a
afeição que se criara.
Continuei quieto,
administrando o meu constrangimento. Depressa, contudo, dei jeito em mim e
armei meu interesse. Pedir voto obriga preparo, candidato está “sempre alerta”.
Ademais, entrar em tantos e tantos lares leva a ver tantas e tantas situações.
Muitos casos de tristeza, algum tanto de alegria, e às vezes coisas intrigantes
acontecem. Foi bem esse a ocasião.
Observei que a
doméstica meneava a cabeça em reprovação, desgostosa com o clima de amor geral
que trespassava o ambiente. A senhora do lar mantinha-se ereta, face
consternada, mãos cruzadas no peito, ou resignada, ou confiante nas palavras do
marido. A moça, com seus lá trinta anos, em refeição. A expressão que
sustentava dizia que já ouvira aquela conversa.
Encerrou-se o
telefonema. O pai encerrara seus dizeres. Armei um sorriso que não teve
oportunidade de uso. O telefone tornou a chamar. O pai o atendeu. Escutou
calado, então dirigiu-se à moça que jantara e já tomava um chá: “Ele quer falar
contigo”. A moça, que entendi ser filha, refletiu, fez careta, franziu o cenho
e disse não com um decidido meneio da cabeça.
O pai, tranquilo,
mas com autoridade, redarguiu: “Tudo bem, mas vai tu dizer que não”. O
telefone, depositado sobre um móvel, gritava. Escutava-se repetir a palavra
“ingrata”; o mais saía confuso. A empregada, ainda sugerindo censura em cada
gesto, encarregou-se do aparelho: “Ela não vem”. Persistiram; compenetrada,
contestou: “Não adianta insistir”. Então, desligou.
Agora me
perceberiam? Nada. A filha escandiu: “E-le não vai le-vá-la”. O pai silabou:
“En-tão, tu cui-das”. A mãe consternada, resignada, confiante. A empregada
mirava o teto. Pensei: “Pobre criança”. A filha: “Eu já vou. Amanhã vejo o que
faço”. A empregada interveio: “Dá a menina”. Ajuizei: “É triste, mas
resolvente, a decisão”. Finalmente, a voz da mãe: “Eu vou sentir falta”.
Volta o telefone,
atende-o a empregada: “Não digo... Não chamo... Não insistas”. Desligou. Supus
um pai aflito; era dramática a situação da filha. A empregada dirige-se à moça:
“Tens que ser prática”. A moça: “Foi tudo o que restou”. Pensei que restar não
era uma boa situação para a criança. A moça emendou: “Eu tenho amor por ela”.
Fiquei tocado.
Longo silêncio. A
moça tomou a palavra: “Olha, vocês não têm qualquer obrigação, mas vocês também
a amam. Eu, por mim, a daria, mas ela já envolveu a todos nós. Confesso, há
recordações. E quando eu quis dá-la, vocês disseram que cuidariam dela”. O pai,
com paciência carinhosa: “Cuidaríamos até que decidisses: ou levarias, ou
darias. Pois falta a decisão”.
Tensão. A moça, mãos
na cabeça: “Está bem, não sou generosa para levá-la comigo. Também sou egoísta,
não vou dá-la. Moro em apartamento, não há a menor condição”. O pai, gentil,
mas com sorriso mordaz: “Apartamento nunca foi obstáculo; a questão é o tempo,
são os cuidados. Tuas conveniências”. Pausou, emendou: “E por conveniência
moral tu a manténs. Mas, aqui”.
A empregada suspirou fundo e interferiu
incisiva: “É só dar a menina. Se doer, não vai ser em ti, vai doer nela”. A
moça redarguiu: “Vai doer no resto da relação”. O pai, enternecido: “Filha, o
resto da relação, apenas, está insepulto. É falecido. Morreu. A filha: “Mas há
afeto, há amor”. Imaginei testemunhar desinteligências de uma relação amorosa.
Imaginação confirmada.
A empregada: “Olha, é saudade do que não aconteceu, do que querias que fosse,
mas que não foi. Acabou. E esse cara foi esperto: levou a menina para o
apartamento quando o romance estava definhado. Foi só para te envolver, te
fisgar à recordação dele mesmo. Para isso serve a cadela: para te amarrar à
recordação dele”.
Tomei um espanto: “Ca-de-la!?” Havia uma cadeira mais afastada. Sentei-me. Eu já não estava candidato, mas espectador. Lá vem o telefone. Agora a moça foi, e foi determinada: “Vem buscar a menina, leva essa cadela... Hoje... Pois vais querer... Não! Hoje! Ah!, é? Eu sumo com ela. Não quero amanhecer com a tua cadela de troia enfiada nas minhas emoções”.
Veio fala
mansa. Não convenceu. Resolutória, voz armada, a moça: “Não vou ficar com esse
bicho me obrigando a lembrar de ti... Não, ela não vai ficar com meus pais...
Odiamos essa cachorra... Vem buscá-la agora, ou ela morre”. Por cautela, era
hora. Saí quieto. Fui embora sem votos, temendo pela segurança da cadela
menina. E não sei, nunca soube como o caso acabou.
Léo Rosa de Andrade
Doutor em
Direito pela UFSC.
Psicanalista e
Jornalista.
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