Até o final do ano, o Instituto Nacional do Câncer
(Inca) estima o surgimento de 19.310 casos no território nacional, a maioria em
mulheres dos 30 aos 50 anos.
A Organização Mundial da Saúde
(OMS) quer eliminar o câncer de colo de útero — ou câncer cervical — como um
problema de saúde pública até 20301. Para atingir este objetivo,
estabeleceu várias metas, entre elas a vacinação de 90% das meninas de até 15
anos contra o HPV, o Papilomavírus Humano, responsável pela quase totalidade da
doença. Mesmo disponível na rede pública para meninos e meninas de 9 a 14 anos,
a vacinação não alcança essa meta no País, em parte pela desinformação e
preconceito de pais e adolescentes.
“No Brasil, ainda é assustador
o número de casos do câncer de colo do útero, uma doença que já não deveria
existir, porque tem como um causa um vírus que pode ser prevenido por vacina”,
afirma a oncologista clínica Candice Lima, da Oncologia D’Or.
Sem considerar o câncer de
pele não melanoma, o câncer cervical é o terceiro tumor mais incidente nas
brasileiras. No Norte e Nordeste, é o segundo mais frequente na população
feminina. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que até o final do ano deverão
ser diagnosticados 19.310 casos2 no território nacional, a maioria
em mulheres dos 30 aos 50 anos. Em 2023, a doença representou 5,94% do
total de óbitos por câncer nas mulheres do País.
A Campanha Setembro em Flor é
um momento oportuno para a disseminação de informações sobre os cânceres
ginecológicos, dos quais o de colo do útero ocupa lugar de destaque devido à
alta incidência. Outras neoplasias que afetam o aparelho reprodutor feminino
são os cânceres do endométrio (o tecido que recobre o interior do útero), de
ovário, de vulva e de vagina.
Notícias falsas e
desinformação
O Brasil ainda enfrenta
desafios para atingir a meta da OMS, embora venha apresentando uma boa evolução
nas taxas de imunização. Por exemplo, em 2025, a cobertura vacinal contra o HPV
alcançou 86,22% das meninas e 74,55% dos meninos, de 9 a 14 anos3.
Um estudo4 realizado em escolas públicas e privadas na região
Nordeste revelou que 45,54% dos alunos pesquisados desconheciam a vacina,
principalmente aqueles que já haviam começado a atividade sexual. O trabalho
envolveu 17.805 estudantes de 13 a 17 anos.
Para a médica Candice Lima, a
falta de adesão à imunização reflete ainda os danos causados por notícias
falsas que circulam em torno da vacina, como supostos efeitos colaterais. Além
disso, como o HPV é uma infecção sexualmente transmissível, muitos pais temem
que a imunização seria um meio de incentivar a sexualidade precoce de seus
filhos.
O problema não se restringe ao
Brasil. Na França, a cobertura vacinal em 2023 atingiu 54,6% das meninas e
15,8% dos meninos. Um estudo da Universidade de Lorraine5 apontou a
desinformação dos pais como um entrave à imunização. Dos pais entrevistados,
1/3 nunca havia ouvido falar do HPV. Alguns viam o contágio pelo vírus como
algo distante dada a pouca idade dos filhos e consideravam o câncer de colo do útero
uma ameaça remota. Outros receavam que a vacinação poderia estimular seus
filhos a iniciar a vida sexual mais cedo. Já os adolescentes diziam ter medo de
efeitos colaterais, não gostar de falar sobre sexo e não querer tomar
injeção.
Com o objetivo de ampliar o
conhecimento e a conscientização da população sobre a importância da imunização
contra o HPV, países como a Austrália, o México e o Peru6 criaram
campanhas educativas, que resultaram numa taxa de cobertura superior a 80%.
Ambientes online e campanhas nas mídias sociais se mostraram muito úteis para
aumentar o engajamento à vacinação, principalmente entre os jovens, que são o
principal público dessas plataformas6.
O impacto do câncer
ginecológico
De acordo com o Observatório
Global de Câncer (Globocan), os cânceres ginecológicos representaram 15,25% de
todos os casos de câncer na população feminina no mundo em 2022, tendo sido
diagnosticados em 1.473.427 mulheres7. Os cânceres de colo do útero,
de endométrio e de ovário corresponderam a mais de 1/3 dos casos
diagnosticados.
Os principais tratamentos
incluem cirurgia, quimioterapia e radioterapia, sendo usados em geral
associados para aumentar a sobrevida das pacientes. Porém, os efeitos
colaterais físicos e psicológicos têm reflexos profundos nas mulheres com
câncer ginecológico. Ao atingir os órgãos reprodutivos, essas doenças afetam a
identidade sexual, os relacionamentos íntimos e a imagem corporal da mulher,
resultando em maior sofrimento psicológico8.
Um estudo9
dinamarquês mostrou que mulheres tratadas para câncer ginecológico são mais
propensas a usar antidepressivos do que aquelas sem essa condição. Ao
acompanhar 16.833 pacientes por 19 anos, os pesquisadores constataram que, um
ano após o diagnóstico, o risco foi quatro vezes maior em mulheres com câncer
de ovário e três vezes maior para as pacientes com câncer cervical em relação
às mulheres saudáveis. O risco para pacientes com câncer de endométrio pouco
mais que dobrou.
Outros tipos de
câncer
Além de atingir o colo do
útero, o câncer pode acometer o endométrio, o tecido que recobre a parte
interna desse órgão e descama a cada ciclo menstrual, causando o sangramento
cíclico nas mulheres em fase reprodutiva. Sexto tumor mais incidente na
população feminina mundial, é associado à obesidade, diabete e hipertensão
arterial. Em 2020, foram 417.000 novos casos10.
O câncer de ovário é uma
doença silenciosa, que só dá sinais em estágios avançados, quando pode provocar
uma pressão, dor ou aumento de volume no abdômen, alterações urinárias e
intestinais. Sua causa exata é desconhecida, mas suspeita-se que esteja
associada a fatores genéticos, envelhecimento, obesidade e o fato de não ter
tido filhos. A doença ocupou a oitava posição entre os tumores mais
frequentes em mulheres, com 324.398 novos casos em 202211.
Os cânceres de vagina e vulva
são raros, correspondendo a 1% da incidência mundial de cânceres na população
feminina12. A maioria dos tumores de vagina e uma menor proporção
dos cânceres de vulva também estão associados ao HPV.
Rastreamento
Durante anos, o rastreamento
do câncer cervical baseou-se no exame citopatológico — conhecido como
Papanicolau. Em 2024, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS o teste de
DNA-HPV oncogênico. Em 2025, as diretrizes passaram a recomendá-lo como método
primário, com implementação progressiva13. A coleta é semelhante à
do Papanicolau, mas o teste procura diretamente o material genético do vírus
HPV. Na transição, a citologia segue em uso.
A coleta não substitui o exame
ginecológico, que é realizado para verificar a existência de lesões no colo do
útero, na vagina e na vulva. Em caso positivo, uma biópsia pode ser realizada
para ajudar a identificar a origem do problema.
Os números mostram que, no
Brasil, a vacinação contra o HPV e o rastreamento estão surtindo efeito. Dados
coletados de 382.932 mulheres com câncer ginecológico por pesquisadores do Inca14
apontaram que, entre 2000 e 2015, a incidência dos cânceres cervical, de
ovário e de vulva está em queda, enquanto a taxa dos tumores de endométrio e
vagina está estável.
“Precisamos continuar a
divulgar a vacinação contra o HPV e desfazer as fake news sobre a
vacina. A população deve entender que a vacina não previne só o câncer de
útero, mas outros tumores, como aqueles que surgem na região da orofaringe, do
canal anal e do pênis”, conclui a oncologista Candice Lima.
Oncologia D'Or
Referências
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World Health Organization.
Global strategy to accelerate the elimination of cervical cancer as a public
health problem. Geneva:
2020. Disponível em https://www.who.int/publications/i/item/9789240014107.
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da Saúde. Vacinação contra o HPV para jovens de 15 a 19 anos é prorrogada até
dezembro. Disponível em https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/noticias/2026/defeso-eleitoral/vacinacao-contra-o-hpv-para-jovens-de-15-a-19-anos-e-prorrogada-ate-dezembro.
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Disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/r/rastreamento-cancer-do-colo-do-utero/view.
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