Enquanto México, China e Chile impõem restrições a produtos avícolas brasileiros, organização alerta que a crise sanitária não pode ser discutida apenas em termos de prejuízos econômicos e defende maior responsabilidade das empresas com a saúde e o bem-estar animal.
A confirmação de um foco da doença de Newcastle em
uma granja comercial de perus em Nova Itaberaba, Santa Catarina, desencadeou
restrições internacionais às exportações brasileiras e reacendeu o debate sobre
a segurança sanitária da avicultura nacional.
Enquanto o setor produtivo calcula os possíveis
prejuízos comerciais, a Sinergia Animal chama a atenção para uma dimensão
frequentemente negligenciada nessas crises: o destino dos animais
envolvidos e a responsabilidade das empresas na prevenção de doenças e na
garantia de seu bem-estar.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária
(Mapa), o estabelecimento afetado abriga aproximadamente 6 mil perus,
que permaneceram na propriedade após a identificação do foco. As medidas
sanitárias anunciadas incluem a eliminação do foco por meio da depopulação das
aves, seguida de limpeza e desinfecção das instalações. O governo também
informou que aproximadamente 133 propriedades da região serão monitoradas pelas
autoridades veterinárias.
A repercussão ultrapassou as fronteiras
brasileiras. Até esta terça-feira (20), o México havia suspendido a importação
de determinados produtos avícolas de todo o Brasil, enquanto China e Chile
adotaram restrições específicas para produtos provenientes de Santa Catarina.
Para a Sinergia Animal, a situação evidencia a
necessidade de ampliar o debate sobre as consequências das emergências
sanitárias na produção animal, indo além das perdas financeiras e dos impactos
sobre o comércio internacional.
“Quando uma doença atinge a produção animal, os
prejuízos econômicos rapidamente se tornam notícia. Mas o que acontece com os
animais? Estamos falando de aproximadamente 6 mil perus em uma propriedade onde
as autoridades anunciaram medidas de depopulação. Não basta discutir como
proteger as exportações. É preciso questionar quais medidas estão sendo
adotadas para prevenir novos episódios e reduzir o sofrimento durante as ações
de controle. Biosseguridade e bem-estar animal precisam fazer parte de uma
mesma política de responsabilidade”, afirma Cristina Diniz, diretora-geral da
Sinergia Animal no Brasil.
Crises sanitárias também são
crises de bem-estar animal
A doença de Newcastle é uma enfermidade viral
altamente contagiosa que pode afetar aves domésticas e silvestres, com
manifestações respiratórias, digestivas e neurológicas, além de provocar
mortalidade elevada em determinadas circunstâncias.
Embora as autoridades sanitárias tenham
estabelecido protocolos para conter a disseminação do vírus, a Sinergia Animal
ressalta que a prevenção e o enfrentamento de doenças devem incorporar
critérios rigorosos de bem-estar animal, incluindo condições adequadas de
criação, monitoramento contínuo da saúde das aves e procedimentos que minimizem
o sofrimento durante intervenções sanitárias.
De acordo com informações publicadas pela Folha de
S.Paulo, a granja onde o foco foi identificado integra a cadeia de fornecimento
da MBRF, companhia formada pela combinação de operações da Marfrig e da BRF.
“Empresas que lucram com a produção animal também
precisam assumir responsabilidade pelas condições em que esses animais vivem e
pelas consequências das crises sanitárias. Transparência não pode ser uma
exigência apenas dos mercados importadores. Ela também é devida à sociedade e
aos animais que dependem dessas decisões”, reforça Cristina.
O verdadeiro custo de uma
emergência sanitária
O Brasil ocupa a posição de maior exportador
mundial de carne de frango, o que torna episódios sanitários particularmente
sensíveis para o setor. As restrições anunciadas por parceiros comerciais
demonstram como a ocorrência de doenças pode provocar repercussões econômicas
que ultrapassam a propriedade onde o foco foi identificado.
Entretanto, para a Sinergia Animal, medir o impacto
dessas crises exclusivamente pelo volume de exportações comprometidas ou pelas
perdas financeiras representa uma visão incompleta do problema.
Além dos riscos econômicos, emergências sanitárias
podem envolver o sofrimento de animais doentes, medidas de abate sanitário em
larga escala e desafios para a prevenção de novas ocorrências.
A organização defende o fortalecimento da
vigilância sanitária, da fiscalização das condições de criação e da
transparência empresarial, além da incorporação de indicadores verificáveis de
bem-estar animal às políticas de gestão de riscos das cadeias produtivas.

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