Após assumir a
gestão, mulheres ainda podem enfrentar questionamentos recorrentes sobre autoridade
e capacidade técnica. Especialista orienta como reconhecer esse padrão e
construir relações de trabalho que respeitem as responsabilidades do cargo.
Ter o julgamento questionado na própria área de conhecimento
foi uma experiência relatada por 38% das mulheres participantes do relatório Women
in the Workplace 2024, produzido pela McKinsey e pela LeanIn.Org no
contexto corporativo norte-americano. O dado ajuda a discutir uma barreira que
pode permanecer depois da promoção: ocupar uma posição de liderança sem receber
o mesmo reconhecimento de competência concedido aos colegas.
Para Alê Freitas, mentora em liderança para mulheres e CEO
da Anima Impacto Consultoria, essa dinâmica aparece em situações que,
isoladamente, podem parecer pequenas. Uma decisão precisa ser confirmada por um
colega, uma orientação é ignorada até que outro gestor a repita ou uma proposta
recebe cobranças de comprovação que não são feitas aos demais. “A profissional
foi promovida, mas continua sendo tratada como se estivesse em avaliação
permanente. Em vez de discutir apenas a decisão, ela precisa demonstrar
novamente que tem condições de estar naquele lugar”, afirma.
Questionar uma proposta faz parte do trabalho e pode
melhorar os resultados. O sinal de alerta, segundo a mentora, está na repetição
e na diferença de tratamento. É importante observar se as perguntas seguem
critérios técnicos, se todos precisam apresentar justificativas semelhantes e
se os esclarecimentos encerram a discussão. Quando a dúvida sobre a capacidade
da gestora permanece independentemente das respostas, o problema pode estar no
reconhecimento de sua autoridade.
“Uma pergunta sobre prazo, custo ou risco ajuda a construir
uma decisão melhor. Já pedir a confirmação de outro profissional toda vez que
aquela mulher se posiciona pode esvaziar sua liderança. Precisamos olhar para o
padrão, para o contexto e para quem recebe esse tratamento”, explica Alê.
Na tentativa de evitar novas contestações, a líder pode
passar a preparar justificativas excessivas, adiar posicionamentos ou buscar
aprovação mesmo para decisões que fazem parte de sua responsabilidade. Para a
consultora, orientar a mulher apenas a ser mais confiante deixa de fora o papel
do ambiente. “Desenvolver a comunicação é importante, mas nenhuma profissional deveria
precisar compensar sozinha uma relação de trabalho que coloca sua competência
em dúvida de forma recorrente”, ressalta.
Um caminho é registrar situações concretas e seus impactos,
diferenciando uma divergência pontual de um comportamento repetido. Em uma
conversa com a liderança, a profissional pode apresentar exemplos, esclarecer
suas responsabilidades e combinar como as decisões serão encaminhadas. Retomar
a autoria de uma proposta e pedir que objeções sejam formuladas com critérios
objetivos também ajuda a dar clareza às interações.
A organização, por sua vez, precisa sustentar as
responsabilidades que atribuiu à gestora. Isso inclui reconhecer sua posição
nas reuniões, direcionar a ela os assuntos de sua área e intervir quando houver
desautorização. Critérios consistentes de avaliação e canais para relatar
situações de discriminação também fazem parte desse compromisso.
Para Alê, a promoção precisa vir acompanhada de legitimidade
nas relações cotidianas. “A liderança deve ter espaço para apresentar
argumentos, receber contribuições e responder pelas escolhas, como qualquer
outro gestor. Quando a empresa reconhece esse lugar na prática, a profissional
consegue dedicar sua energia ao trabalho, sem precisar disputar o direito de
exercê-lo a cada reunião”, conclui.
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