Mudanças na tributação vão exigir maior controle sobre custos, preços e créditos; associativismo pode ajudar pequenos varejistas a enfrentar a transição
A Reforma Tributária exigirá mudanças na forma como as farmácias administram seus negócios. Mais do que acompanhar novas alíquotas e cumprir obrigações fiscais, os empresários precisarão compreender como a tributação afeta a formação de preços, a escolha de fornecedores, os custos operacionais e as margens. Para as farmácias independentes, que nem sempre dispõem de equipes especializadas e estruturas próprias de tecnologia, o desafio poderá ser ainda maior.
A integração de informações tributárias aos sistemas de gestão será um dos pontos centrais dessa adaptação. Nesse cenário, o acesso a ferramentas, conhecimento e suporte especializado ganha importância, e o associativismo pode representar um caminho para ampliar a capacidade de resposta dos pequenos e médios varejistas.
Em 2026, IBS e CBS estão em fase de teste, dentro de um cronograma que prevê a implantação gradual do novo modelo. A partir de 2027, a CBS substituirá PIS e Cofins. A transição de ICMS e ISS para o IBS ocorrerá progressivamente entre 2029 e 2032, com a implementação integral do novo sistema prevista para 2033.
Para Edison Tamascia, presidente da Febrafar (Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias) e da Farmarcas, a principal mudança será a necessidade de aproximar o empresário das decisões tributárias. Historicamente concentrado nas áreas contábil e fiscal, o tema passará a ter influência ainda maior nas escolhas comerciais e operacionais das farmácias.
“Durante muitos anos, a tributação foi tratada
como um assunto predominantemente técnico, concentrado nas mãos dos contadores.
Agora, cada vez mais, o empresário precisará entender como os impostos
interferem na operação, na formação de preços, nas margens e nas decisões de
compra. O contador continuará sendo fundamental, mas o empresário também
precisará participar mais dessa discussão”, afirma Tamascia.
Escolha de fornecedores e regime
tributário exigirão análise
A mudança na lógica de apuração dos tributos sobre o consumo e as regras de apropriação de créditos de IBS e CBS tornam necessário avaliar as operações de forma integrada. Aquisições de mercadorias, serviços, aluguel e outras despesas podem produzir efeitos tributários distintos, conforme a natureza da operação, o regime de apuração e as condições previstas na legislação.
No varejo farmacêutico, essa análise ganha complexidade pela diversidade de produtos comercializados, que podem estar sujeitos a tratamentos tributários diferentes. Medicamentos, itens de higiene, produtos de saúde e outras categorias exigem atenção aos respectivos enquadramentos e às regras aplicáveis.
A legislação prevê redução de 60% das alíquotas do IBS e da CBS para medicamentos registrados na Anvisa ou produzidos por farmácias de manipulação, observadas as condições legais e ressalvadas as hipóteses de alíquota zero. A alíquota zero contempla situações específicas, incluindo determinados medicamentos destinados a doenças previstas na legislação e ao Programa Farmácia Popular do Brasil, conforme os critérios e as listas aplicáveis.
Por isso, não basta comparar percentuais de impostos para estimar os efeitos da Reforma sobre uma farmácia. É necessário considerar a composição das vendas, os custos, o regime tributário e as características das operações de compra e venda.
“O empresário precisará entender o que gera crédito, o que gera débito e como essas informações interferem na operação. Serviços, aluguel, fornecedores e outras despesas poderão ter impacto diferente na formação dos créditos, dependendo de quem presta o serviço e de como essa relação estiver estruturada. Não basta saber qual é a alíquota. Será necessário compreender a cadeia tributária e seus efeitos sobre o negócio”, explica Tamascia.
Outro ponto de atenção é o Simples Nacional. As empresas optantes pelo regime poderão manter IBS e CBS no recolhimento unificado ou optar pela apuração desses tributos pelo regime regular, observadas as condições e os prazos legais. A escolha pode influenciar o aproveitamento de créditos nas operações entre empresas e as relações comerciais com fornecedores e clientes.
Para o primeiro semestre de 2027, o prazo de opção terminou em setembro de 2026. A regulamentação prevê nova oportunidade de escolha em março de 2027, com efeitos para o segundo semestre. Por isso, as decisões precisam considerar não apenas a carga tributária nominal, mas também o perfil das operações, a estrutura de custos e os efeitos sobre a cadeia comercial.
“Se uma empresa vende para outra empresa, por
exemplo, a possibilidade de geração e transferência de créditos pode
influenciar a relação comercial. Por isso, não acredito que exista uma decisão
que possa ser tomada de maneira automática ou apenas olhando para o percentual
de imposto. Cada empresa precisará analisar sua realidade, sua operação, seus
fornecedores, seus clientes e sua estrutura de custos”, afirma o presidente da
Febrafar e da Farmarcas.
Farmácias independentes podem precisar de
mais apoio
A necessidade de acompanhar a legislação, revisar cadastros, avaliar fornecedores e interpretar informações tributárias pode representar um desafio adicional para farmácias independentes que não contam com equipes internas dedicadas às áreas fiscal, financeira e tecnológica.
Isso não significa que todas essas empresas terão necessariamente uma carga tributária maior ou perderão competitividade. Os efeitos dependerão das características de cada negócio, do regime adotado, do perfil das operações e da capacidade de aproveitar os créditos previstos na legislação. O risco está em tomar decisões sem informações suficientes ou sem conseguir traduzir as mudanças tributárias em medidas práticas de gestão.
Nesse contexto, o associativismo pode contribuir para ampliar o acesso a conhecimento, tecnologia, negociação conjunta e ferramentas de acompanhamento do negócio. Ao compartilhar estruturas e recursos, farmácias independentes podem encontrar melhores condições para interpretar as mudanças e organizar sua preparação.
Na avaliação de Tamascia, a informação precisa
chegar ao empresário de forma útil, integrada à rotina da farmácia e capaz de
apoiar decisões concretas. O desafio não é apenas disponibilizar dados
tributários, mas permitir que eles sejam compreendidos e utilizados na administração.
Sistemas de gestão devem transformar dados
em decisões
A preparação para a Reforma também envolve a revisão dos sistemas utilizados pelas farmácias. Cadastros de produtos, parametrizações fiscais e informações sobre custos e margens precisarão acompanhar as novas regras, permitindo que o empresário compreenda os efeitos tributários sobre o resultado do negócio.
Para Stepherson Seleber, presidente da Alpha7 Software, tratar a Reforma apenas como uma atualização fiscal pode limitar a capacidade das empresas de se preparar para as mudanças. “A Reforma Tributária não é apenas uma mudança de alíquota. Ela altera a estrutura de cálculo, a lógica dos créditos e a forma como as empresas vão se relacionar com o Fisco. Por isso, a preparação precisa começar antes da entrada definitiva do novo modelo, principalmente na parte tecnológica”, afirma Seleber.
Durante a transição, os sistemas precisarão acompanhar a convivência entre regras antigas e novas, além de assegurar a consistência das informações fiscais. A qualidade dos cadastros e a correta parametrização dos produtos serão importantes para reduzir erros no cálculo dos tributos e na emissão de documentos fiscais.
“A tecnologia passa a ter um papel estratégico
porque a farmácia precisará transformar informação tributária em informação de
gestão. Um erro de parametrização pode afetar a apuração, a formação de preços
e, consequentemente, a margem. O sistema precisa ajudar o empresário a
identificar esses impactos e não apenas cumprir uma obrigação fiscal”, diz
Seleber.
Transição exige acompanhamento contínuo
Embora a implantação completa do novo sistema esteja prevista para 2033, as decisões precisam começar antes. A transição exigirá acompanhamento das mudanças legais, testes de processos, revisão de cadastros e avaliação dos impactos sobre compras, preços e margens.
Em 2026, a fase de teste possui regras próprias de cumprimento das obrigações e tratamento dos valores apurados. A partir de 2027, a substituição de PIS e Cofins pela CBS e o início da cobrança efetiva dos novos tributos ampliarão a necessidade de adaptação. Nos anos seguintes, a substituição gradual de ICMS e ISS pelo IBS exigirá novos ajustes.
A convivência entre diferentes regras também exigirá capacidade de rever estratégias conforme os resultados observados. Os efeitos da Reforma não serão necessariamente iguais para todas as farmácias e dependerão, entre outros fatores, do perfil das operações, do tratamento tributário dos produtos e das condições para aproveitamento de créditos.
Para Tamascia, o desafio vai além da adaptação à legislação e está diretamente relacionado à profissionalização da gestão do varejo farmacêutico. “Quanto mais longa a transição, maior será a necessidade de acompanhar as mudanças e revisar as decisões ao longo do caminho. O empresário não pode esperar o sistema estar completamente implantado para começar a entender como ele funciona. Será necessário testar cenários, acompanhar os impactos e mudar de estratégia quando os dados mostrarem que é preciso mudar. O grande desafio, portanto, não será apenas entender a legislação. Será transformar a legislação em decisão empresarial”, conclui.
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