Existe uma contradição cada vez mais evidente na forma como as empresas estão lidando com a inteligência artificial. Enquanto os profissionais já incorporam a tecnologia à rotina, muitas organizações ainda tratam a IA como mais uma ferramenta para acelerar processos que já existiam. Um levantamento divulgado pela SAP mostra justamente esse descompasso: 72% dos executivos afirmam que empresas que dizem estar transformando o trabalho com IA estão, na prática, apenas automatizando processos existentes. Ao mesmo tempo, 88% consideram que redesenhar funções e formas de trabalhar pode gerar valor significativo para o negócio.
O dado chama atenção porque talvez o maior risco da inteligência artificial para as empresas não seja utilizá-la pouco, mas utilizá-la apenas para fazer mais rápido aquilo que já deveria estar sendo repensado. A tecnologia pode reduzir o tempo necessário para executar uma tarefa, mas isso não significa necessariamente que a empresa tenha mudado a forma como trabalha. Se um profissional passa a produzir um relatório em dez minutos, em vez de uma hora, o ganho é evidente. A pergunta mais importante, porém, é o que a empresa fará com os cinquenta minutos que foram liberados.
O
profissional já mudou. A empresa, nem sempre
A transformação também não está esperando as organizações definirem todas as suas regras para acontecer. Uma pesquisa realizada pelo Instituto QualiBest para o iFood com 1.406 profissionais mostra que 63% já utilizam ferramentas de IA pelo menos uma vez ao dia, enquanto 86% acreditam que a tecnologia abre novas formas de trabalhar.
O levantamento também revela uma contradição importante: 28% afirmam que suas empresas incentivam o uso de IA sem fornecer as ferramentas necessárias, e, enquanto 69% dos profissionais se consideram preparados para utilizar a tecnologia, apenas 60% avaliam suas empresas como preparadas.
Isso mostra que a discussão deixou de ser sobre se os funcionários vão utilizar IA. Eles já estão utilizando. A questão agora é se as empresas vão participar ativamente dessa transformação ou simplesmente deixar que ela aconteça de maneira informal, individual e, em alguns casos, sem qualquer orientação.
O chamado “shadow AI”, quando profissionais recorrem a ferramentas por conta própria, é um sintoma disso: existe uma demanda real por produtividade e novas formas de trabalhar, mas nem sempre existe uma estratégia corporativa acompanhando esse movimento.
Por isso, a pergunta que um gestor deveria fazer neste momento não é apenas “qual ferramenta de IA minha equipe deve usar?”, mas “se a tecnologia pode assumir parte dessas tarefas, por que ainda estamos organizando o trabalho dessa maneira?” Essa mudança de perspectiva é fundamental.
Se um vendedor consegue automatizar parte da prospecção, por exemplo, o ganho não deveria ser simplesmente exigir que ele faça mais contatos. A empresa pode aproveitar o tempo liberado para que esse profissional se dedique mais à negociação, ao relacionamento e à construção de oportunidades. Da mesma forma, se um analista consegue produzir relatórios em poucos minutos, o valor não está necessariamente em produzir cinco vezes mais relatórios, mas em usar o tempo economizado para interpretar os dados, identificar oportunidades e apoiar decisões mais qualificadas.
É nesse ponto que
a automação começa a se transformar em estratégia. A empresa deixa de usar IA
apenas para acelerar tarefas e passa a questionar processos, responsabilidades,
competências e até a estrutura de suas equipes.
Quando
a IA começa a redesenhar a empresa
Essa mudança coloca o RH diante de uma oportunidade que vai muito além da implementação de novas ferramentas. Se a inteligência artificial está alterando tarefas, competências e formas de organização, a área de pessoas passa a participar diretamente de uma discussão que durante muito tempo foi tratada como responsabilidade exclusiva da tecnologia.
O desafio será entender quais atividades tendem a perder relevância, quais competências passam a ser mais importantes e como preparar profissionais para trabalhar em conjunto com sistemas de IA. Mas existe uma questão ainda mais estratégica: como transformar o tempo liberado pela tecnologia em valor para o negócio?
Essa resposta não será encontrada em um treinamento de duas horas sobre como escrever bons prompts. Será construída na própria gestão. Uma empresa pode adotar IA para exigir que uma equipe produza o dobro no mesmo período. Outra pode utilizar a mesma tecnologia para permitir que aquela equipe resolva problemas que antes não tinha tempo para enfrentar. As duas terão ganho de produtividade, mas somente a segunda estará realmente redesenhando o trabalho.
É por isso que acredito que a próxima fase da inteligência artificial nas empresas será menos sobre adoção e mais sobre reorganização. As organizações já estão testando ferramentas, automatizando atividades e descobrindo ganhos rápidos. O diferencial estará em quem conseguir dar o passo seguinte: olhar para os processos e perguntar o que deve continuar sendo feito, o que pode ser automatizado e, principalmente, o que as pessoas podem fazer quando deixam de gastar boa parte do seu tempo executando tarefas repetitivas.
A vantagem competitiva não estará necessariamente na empresa que tiver mais ferramentas de IA, mas naquela que souber reorganizar melhor o trabalho a partir delas. Afinal, fazer mais do mesmo, apenas mais rápido, é eficiência. Descobrir uma forma melhor de trabalhar é transformação.
E essa
transformação não começa na tecnologia, mas quando a liderança tem disposição
para questionar se a maneira como a empresa trabalha hoje ainda faz sentido.
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