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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Catálogo reúne cerca de 1.300 espécies de plantas do Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange e amplia conhecimento sobre a flora do litoral do Paraná

Gabriela dos Santos Batista Ribeiro
Levantamento confirmou 854 espécies para a plataforma do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e revelou, pela primeira vez no Paraná e na Região Sul, a ocorrência da orquídea Bulbophyllum campos-portoi

 

O Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange (PNSHL), no litoral do Paraná, passou a integrar o Catálogo de Plantas das Unidades de Conservação do Brasil, plataforma do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), com o registro de 1.295 espécies de plantas. A publicação representa um dos mais completos levantamentos já realizados sobre a flora da Unidade de Conservação (UC) e fortalece a pesquisa, o manejo e a conservação da Mata Atlântica.

Uma parcela expressiva desse conhecimento vem de pesquisas recentes realizadas pelo projeto Estudos da Restauração - Pesquisa, Estruturação e Planejamento, financiado pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP), que investiu cerca de R$ 750 mil para fortalecer a UC e a cadeia da restauração no litoral do Paraná, fornecendo informações técnico-científicas para subsidiar ações de manejo e conservação de espécies arbóreas raras e ameaçadas.

Executado pelo Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais, o projeto contribuiu para a consolidação do catálogo. Das 1.295 espécies registradas no Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange, 854 — cerca de 66% do total — tiveram seus registros confirmados a partir das coletas realizadas pela equipe de pesquisadores durante os trabalhos de campo.

“O levantamento florístico para o catálogo foi realizado pelo projeto e a solicitação formal para inclusão da lista no catálogo foi realizada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que é o gestor do Parque”, detalha o coordenador do projeto Estudos da Restauração, Daniel Miller. O trabalho de campo foi coordenado pelo botânico Marcelo Leandro Brotto, responsável pelos estudos de flora do projeto por meio do Museu Botânico Municipal de Curitiba (MBM), e envolveu uma ampla rede de pesquisadores e instituições parceiras.

“A sensação de estar gerando conhecimento para a humanidade é bem gratificante. Quando eu olho para a Serra da Prata sempre me pergunto: ‘Afinal, quantas plantas existem aí?’ Então, agora eu sinto que estamos no caminho de responder essa questão. E isso me deixa bem realizado como profissional!”, comenta Marcelo. 


Mais de mil amostras botânicas coletadas

Ao longo de, aproximadamente, um ano e meio, a equipe percorreu diferentes áreas do Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange, coletando 1.123 amostras botânicas, que passaram a integrar coleções científicas de herbários paranaenses e de outros estados. O material foi depositado no Herbário Escola de Florestas Curitiba (EFC), com duplicatas encaminhadas aos herbários de quatro instituições de ensino e pesquisa: Herbário da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (HCF),  Herbário do Museu Botânico Municipal de Curitiba (MBM), Herbário Dimitri Sucre Benjamin — Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (RB) e Herbário da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNOP).

O trabalho também revisou registros históricos preservados em coleções botânicas, especialmente nos herbários EFC e MBM, reunindo informações produzidas ao longo de 115 anos de pesquisas sobre a flora da Serra da Prata. O registro mais antigo incorporado ao levantamento é de 1911: um exemplar da orquídea Acianthera pubescens, coletado pelo botânico sueco Per Karl Hjalmar Dusén. 


Uma flora marcada pela diversidade

Entre as angiospermas, a família com maior riqueza registrada no PNSHL é Orchidaceae, com 127 táxons, seguida por Myrtaceae (75), Fabaceae (49), Melastomataceae (46), Rubiaceae (45), Asteraceae (43) e Lauraceae (36).

Entre as pteridófitas, destacam-se Polypodiaceae, com 33 táxons, Dryopteridaceae, com 27, e Hymenophyllaceae, com 26. Já entre as briófitas, as famílias mais representativas são Lejeuneaceae, com 16 táxons, Dicranaceae, com dez, e Pilotrichaceae, com nove.

A diversidade registrada acompanha a grande variação ambiental existente dentro do Parque. Com aproximadamente 24,3 mil hectares, o PNSHL protege parte da Serra da Prata e abrange áreas dos municípios paranaenses de Guaratuba, Matinhos, Morretes e Paranaguá.

Em pouco mais de 36 quilômetros de extensão no sentido norte-sul, a paisagem vai de áreas próximas ao nível do mar até quase 1.500 metros de altitude, na Torre da Prata. Essa variação está associada a diferentes formações do domínio da Mata Atlântica, incluindo Floresta Ombrófila Densa Submontana, Montana e Altomontana, além de campos de altitude e vegetação rupestre.


Pesquisa amplia o conhecimento sobre a biodiversidade

O projeto também já proporcionou descobertas inéditas. Em maio de 2025, pesquisadores registraram pela primeira vez no Paraná e na Região Sul a orquídea Bulbophyllum campos-portoi, ampliando o conhecimento sobre a distribuição geográfica da espécie. O exemplar foi localizado nas proximidades do Salto do Tigre, em Matinhos (PR) e se destaca por possuir flores verdes e labelo castanho com pontuações púrpuras, características que permitem diferenciá-la de outras espécies do mesmo gênero, como B. glutinosum e B. atropurpureum.

Finalizado em 2026, o Estudos da Restauração teve como objetivo fortalecer as UCs e a cadeia da restauração ecológica no litoral do Paraná. As ações incluíram levantamentos florísticos, pesquisas sobre a autoecologia de espécies raras e ameaçadas, estudos de frugivoria, fortalecimento de viveiros florestais, coleta e distribuição de sementes, além da elaboração de planos de recuperação ambiental e estratégias para enriquecimento de áreas degradadas.

O resultado evidencia a importância da cooperação entre instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil e órgãos gestores. O levantamento foi desenvolvido a partir da atuação conjunta do Mater Natura, Herbário EFC, Museu Botânico Municipal de Curitiba, Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Paraná (UFPR) e ICMBio, além da contribuição de pesquisadores de diferentes instituições.

“A continuidade do projeto permitirá consolidar e ampliar os resultados obtidos na primeira etapa, fortalecendo a conservação da biodiversidade e a restauração ecológica da Mata Atlântica no litoral do Paraná. Esperamos aprofundar o conhecimento sobre os ciclos fenológicos das espécies nativas e as interações entre flora e fauna, aprimorar protocolos de germinação e produção de mudas de espécies ameaçadas, como a bocuva (Virola bicuhyba) e a guaricana (Geonoma spp.), e avaliar o estabelecimento e a sobrevivência dos plantios realizados no entorno de UCs, possibilitando intervenções corretivas quando necessário. A continuidade também favorecerá a produção e divulgação de conhecimento científico, a estruturação de um banco de áreas prioritárias para restauração ecológica, o fortalecimento de parcerias institucionais e da rede de produção de sementes e mudas, além do engajamento de proprietários rurais e comunidades locais em ações de conservação. Dessa forma, espera-se ampliar a efetividade das iniciativas de restauração, subsidiar o manejo e a conservação da biodiversidade e estabelecer bases técnicas para a continuidade e expansão das ações no território”, complementa Daniel Miller, coordenador do projeto.

Acesse o catálogo aqui: https://catalogo-ucs-brasil.jbrj.gov.br/areas/PNSHL


Sobre o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná

Criado em 2021, o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná promove a conservação, a pesquisa e o uso responsável dos recursos naturais, fortalecendo Unidades de Conservação e impulsionando o desenvolvimento sustentável do litoral paranaense. Financiado pelo Termo de Acordo Judicial (TAJ) firmado após o vazamento de óleo ocorrido em 2001, o Programa transformou um passivo ambiental em investimento histórico em conservação: serão mais de R$ 110 milhões destinados a iniciativas estratégicas até o ano de 2031. 

A governança do Programa é compartilhada entre organizações da sociedade civil, instituições de ensino superior e órgãos governamentais. A gestão financeira e operacional do Programa é realizada pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Para saber mais, acesse www.biodiversidadelitoralpr.com.br.


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