Doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde ainda é confundida com excesso de peso corporal; conheça exames que apoiam a avaliação médica e o acompanhamento do tratamento
Pernas e quadris que aumentam
dos dois lados, doem ao toque e ficam roxos com facilidade podem ser sinal de
lipedema, doença crônica pouco conhecida e muitas vezes tratada como simples
gordura localizada.
O lipedema é um acúmulo de
gordura simétrico e desproporcional, concentrado principalmente em quadris,
coxas, pernas e braços. Desde a 11ª revisão da Classificação Internacional de
Doenças (CID-11), a Organização Mundial da Saúde dá à condição um código
próprio, o EF02.2¹. No Brasil, um estudo publicado no Jornal Vascular
Brasileiro estimou que 12,3% das mulheres apresentam sintomas compatíveis com
alta probabilidade de lipedema².
"Apesar da prevalência
elevada, o lipedema ainda é pouco reconhecido e acaba confundido com obesidade,
linfedema (inchaço causado pelo acúmulo da linfa, o líquido que circula pelos
vasos linfáticos, quando esse sistema está danificado ou obstruído) ou outras
alterações na distribuição da gordura. Quanto antes a mulher procura avaliação,
mais cedo começa o cuidado adequado", diz o Dr. Wagner Iared, radiologista
do Delboni e coordenador do serviço de Ultrassonografia da Dasa, líder em
medicina diagnóstica no Brasil.
O lipedema atinge
principalmente mulheres. Em homens, é raro: uma revisão publicada em 2025 no
Jornal Vascular Brasileiro contabilizou menos de dez casos descritos na
literatura médica⁴. Segundo o Consenso Brasileiro de Lipedema, publicado em
2025 pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, a doença
tem relação com as variações hormonais e pode surgir ou piorar na puberdade, na
gravidez e na menopausa³. Por ser uma condição crônica que pode avançar com o
tempo, procurar avaliação cedo ajuda a evitar a progressão³.
O mesmo consenso reforça que
lipedema e obesidade são condições distintas, com mecanismos próprios³. Alguns
sinais ajudam a perceber a diferença e a buscar orientação médica.
1. Aumento parecido dos
dois lados
No lipedema, a gordura sob a
pele costuma aumentar de forma simétrica, nas duas pernas ou nos dois braços ao
mesmo tempo.
2. Desproporção entre a
parte de cima e a de baixo do corpo
A cintura e o tronco podem se
manter mais finos, enquanto quadris, coxas e pernas ficam mais volumosos.
Muitas mulheres percebem isso ao comprar roupas, quando a numeração da calça é
bem maior que a da blusa.
3. Dor e sensibilidade
ao toque
A região afetada pode doer sem
motivo aparente ou quando pressionada, o que não costuma acontecer com a
gordura comum.
4. Roxos com facilidade
Pequenas batidas deixam
hematomas. A facilidade para formar manchas roxas aparece entre as características
citadas pelo consenso brasileiro³.
5. Mãos e pés
preservados
O acúmulo de gordura
geralmente para na altura dos tornozelos e dos punhos, e os pés e as mãos
mantêm o tamanho habitual³. Outro detalhe observado pelos especialistas: elevar
as pernas costuma não diminuir o tamanho delas³.
6. Pouca resposta a
dieta e exercício físico
A gordura do lipedema tende a
responder pouco às mudanças de alimentação e à atividade física⁴. Isso explica
por que algumas mulheres emagrecem no rosto e no tronco sem ver diferença nas
pernas. Alimentação equilibrada e movimento seguem importantes para a saúde e
fazem parte do cuidado.
Esses sinais servem de alerta,
e a confirmação depende de consulta médica.
Como o ultrassom ajuda
O diagnóstico do lipedema é
clínico, feito pelo médico a partir do histórico e do exame físico³. Os exames
de imagem complementam essa avaliação, ajudam a diferenciar o lipedema de
outras condições e permitem acompanhar a evolução do quadro.
O Delboni, marca da Dasa em
São Paulo, realiza a ultrassonografia de alta frequência para investigação do
lipedema. O exame usa um protocolo padronizado, com medidas sempre nos mesmos
pontos do corpo, e avalia a espessura da camada de gordura sob a pele
(hipoderme), a textura desse tecido, sinais de fibrose e de inchaço.
Pesquisadores brasileiros já propuseram medidas de espessura nesses pontos como
critério de apoio ao diagnóstico⁵. O exame não usa radiação nem contraste.
"Como as medidas são
feitas nos mesmos pontos e registradas em imagem, o médico consegue comparar um
exame com o outro e acompanhar como o tecido responde ao tratamento",
explica o Dr. Wagner Iared. "O ultrassom também contribui para diferenciar
o lipedema do linfedema. Esses achados são sempre interpretados junto com a
avaliação clínica."
O exame é feito com pedido
médico e pode ser indicado quando há suspeita da doença, para diferenciar
lipedema de linfedema, para acompanhar a evolução e a resposta ao tratamento e
no planejamento de uma eventual cirurgia.
No pedido, o médico pode
indicar a Ultrassonografia para Avaliação de Lipedema de Membros Inferiores
e/ou de Membros Superiores, de acordo com a região a ser investigada. Se também
quiser avaliar a circulação nas veias das pernas, o Doppler Venoso de Membros
Inferiores é outro exame e deve ser solicitado separadamente.
Referências
1. Organização Mundial da
Saúde. Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão (CID-11). EF02.2
Lipoedema.
2. Amato ACM, Amato FCM, Amato
JLS, Benitti DA. Prevalência e fatores de risco para lipedema no Brasil. J Vasc
Bras. 2022;21:e20210198. doi:10.1590/1677-5449.202101981
3. Amato ACM, Peclat APRM,
Kikuchi R, et al. Consenso Brasileiro de Lipedema pela metodologia Delphi. J
Vasc Bras. 2025;24:e20230183. doi:10.1590/1677-5449.202301832
4. Kamamoto F, Baiocchi JMT,
Batista BN, et al. Lipedema: exploring pathophysiology and treatment
strategies, state of the art. J Vasc Bras. 2025;23.
doi:10.1590/1677-5449.202400252
5. Amato ACM, Saucedo DZ, Santos
KS, Benitti DA. Ultrasound criteria for lipedema diagnosis. Phlebology.
2021;36(8):651-658. doi:10.1177/02683555211002340
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