Último dia do VII Simpósio de Dermatologia Pediátrica destacou avanços no tratamento de hemangiomas, riscos do uso inadequado de cosméticos e desafios para identificar doenças raras na infância
O diagnóstico precoce de doenças da pele em
crianças e adolescentes e a importância de diferenciar manifestações cutâneas
semelhantes estiveram entre os destaques da programação científica deste sábado
(17/10), em Porto Alegre. O último dia do VII Simpósio de Dermatologia
Pediátrica, promovido pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), reuniu
especialistas para discutir desde condições frequentes nos consultórios até
doenças raras que exigem investigação especializada. A programação também contemplou
cuidados dermatológicos na infância e adolescência, urticária crônica, reações
a medicamentos, doenças genéticas e casos clínicos desafiadores.
Realizado em conjunto com a 33ª Jornada
Sul-Brasileira de Dermatologia e a 51ª Jornada Gaúcha de Dermatologia, o
simpósio integrou três importantes encontros científicos em uma mesma
programação. A iniciativa contou com a participação da Sociedade Brasileira de
Dermatologia – Secção do Rio Grande do Sul (SBD-RS) e das regionais de Santa
Catarina e Paraná.
Hemangiomas e anomalias
vasculares exigem diagnóstico preciso
O diagnóstico e o tratamento dos hemangiomas
infantis estiveram entre os destaques. A médica dermatologista e integrante do
Ambulatório de Dermatologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Dra. Zilda Najjar Prado de
Oliveira, abordou o uso de betabloqueadores tópicos e sistêmicos, considerando
a localização das lesões e os riscos de ulceração, comprometimento funcional e
deformidades permanentes. Também enfatizou a importância do acompanhamento
médico e da orientação às famílias.
“A escolha do tratamento depende das
características do hemangioma e dos riscos para a criança. Lesões superficiais,
fora de áreas de risco, podem receber tratamento tópico. Já os casos com
possibilidade de complicações exigem outra abordagem”, explicou.
A médica dermatologista Dra. Maria Cecília da Matta
Rivitti Machado ressaltou que nem toda lesão vascular é um hemangioma e
recomendou a consulta à classificação da Sociedade Internacional para o Estudo
das Anomalias Vasculares (ISSVA), que considera aspectos clínicos, exames de
imagem e a evolução das alterações.
“Quem atende crianças precisa conhecer essa
classificação. O diagnóstico depende da avaliação clínica, dos exames
complementares e também da evolução da lesão”, destacou.
Vasculites na infância e
genodermatoses
As vasculites, doenças caracterizadas pela
inflamação dos vasos sanguíneos, também estiveram em debate. A professora de Dermatologia
da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Dra. Ana
Elisa Kiszewski Bau, apresentou exemplos como a arterite de Takayasu, que afeta
grandes vasos, e a doença de Kawasaki, que compromete principalmente artérias
de médio calibre.
“Na infância, as vasculites podem comprometer vasos
de diferentes tamanhos. A classificação ajuda a orientar a avaliação e a
compreender as particularidades de cada doença”, explicou.
As genodermatoses, condições de origem genética que
podem afetar a pele e outras estruturas do organismo, também integraram a
programação. A médica dermatologista Dra. Ana Clara Maia Palhano abordou a
neurofibromatose tipo 1 (NF1), que exige acompanhamento além das manifestações
cutâneas, incluindo avaliações da visão, do crescimento, dos ossos e da
aprendizagem. A especialista alertou ainda para sinais que merecem
investigação, como dor, endurecimento ou crescimento rápido das lesões.
Cuidados com a pele desde os
primeiros anos de vida
Os cuidados dermatológicos na infância e os riscos
das rotinas cosméticas divulgadas nas redes sociais foram abordados pela médica
dermatologista e pediatra Dra. Juliany Lima Estefan. A especialista apresentou
o estudo “Pediatric Skin Care Regimens on TikTok”, que identificou práticas de
custo elevado, com pouca presença de protetor solar e exposição a ingredientes
associados à irritação, dermatite de contato alérgica e maior sensibilidade ao
sol, oferecendo pouco ou nenhum benefício ao público pediátrico. Também
destacou a importância de ensinar hábitos de proteção solar desde cedo, que
podem influenciar o comportamento na vida adulta e os cuidados adotados pelos
próprios pais.
A apresentação incluiu orientações sobre batons,
brilhos labiais e desodorantes infantis, com atenção à composição, à segurança
e à faixa etária indicada nos rótulos.
“Batons e brilhos labiais não são recomendados para
o uso diário na infância. Devem ter ingredientes seguros, comprovação de
ausência de irritação e sensibilização da pele, além de orientações de segurança
e indicação da faixa etária no rótulo. Já os desodorantes infantis são
destinados a crianças a partir de 8 anos, não podem conter antitranspirantes e
precisam comprovar que não causam reações alérgicas nem irritação”, destacou a
médica.
Urticária crônica
Caracterizada pelo aparecimento recorrente de
lesões avermelhadas e elevadas na pele, a urticária crônica pode interferir no
sono, nas atividades escolares e na qualidade de vida das crianças. A médica
dermatologista Dra. Júlia Kanaan Recuero destacou a importância de diferenciá-la
de outras condições com manifestações semelhantes. Entre os recursos citados
para uma investigação mais aprofundada estavam o hemograma, a avaliação da
tireoide com pesquisa de anticorpos e exames relacionados à resposta imunológica.
“Na população infantil, a investigação diagnóstica
da urticária crônica espontânea deve ser realizada com os mesmos objetivos que
em adultos”, afirmou a dermatologista, ressaltando que ainda existem
controvérsias na literatura científica sobre os exames indicados para esses
pacientes.
Exantemas infecciosos e
reações medicamentosas
A diferenciação entre exantemas, erupções cutâneas
provocadas por infecções, e manifestações relacionadas ao uso de medicamentos
foi apresentada pela médica dermatologista Dra. Carolina Gonçalves Contin
Proença. A especialista ressaltou a importância da história clínica,
especialmente da relação temporal entre o aparecimento das lesões, os sintomas
infecciosos e a utilização de medicamentos.
Dermatite na área das fraldas
e doenças frequentes no consultório
A dermatite na área das fraldas, uma das alterações
cutâneas mais comuns nos primeiros anos de vida, também recebeu atenção. De
acordo com a médica dermatologista Dra. Zilda Najjar Prado de Oliveira, a
condição pode estar relacionada à umidade, ao atrito e ao contato prolongado da
pele com substâncias irritantes, além de apresentar outras causas que precisam
ser diferenciadas.
“A forma mais comum é a dermatite irritativa
provocada pelo contato com fezes e urina. Também podem ocorrer reações
relacionadas ao material da fralda, cremes, sabonetes e lenços umedecidos, além
de manifestações de doenças como dermatite atópica, psoríase e dermatite
seborreica”, explicou.
A apresentação apontou que a dermatite na área das
fraldas é a doença de pele mais frequente antes dos 2 anos, com pico de
ocorrência entre o sexto e o décimo segundo mês de vida. Seu desenvolvimento
envolve diferentes fatores, incluindo as condições do ambiente dentro da fralda
e a ação de agentes físicos, químicos, enzimáticos e microbiológicos.
Mastocitose e manifestações
cutâneas
A mastocitose, condição associada ao acúmulo
anormal de mastócitos, células do sistema imunológico, em determinados tecidos,
também integrou a programação, com apresentação da médica Dra. Ana Maria Mosca
de Cerqueira. O simpósio contou ainda com a discussão de casos clínicos, com
participação das médicas dermatologistas Dra. Elisa Fontenelle de Oliveira e
Dra. Magda Blessmann Weber.
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