Há uma corrente de pensamento segundo a qual o sucesso
dos políticos mentirosos e descarados não é uma reflexão apenas sobre eles, mas
da sociedade que os tolera e os elege, e daquela parcela que se omite e se
orgulha de odiar a política. Essa ideia, popularizada pelo dramaturgo e teórico
alemão Bertolt Brecht (1898-1956), explica muito do Brasil.
Brecht já alertava: o pior analfabeto é o que
ignora que o preço do feijão, do remédio, do ônibus, do trem, do metrô, da
energia elétrica e do aluguel depende, e muito, da política. É justamente dele
que esses políticos demagogos precisam nos 45 dias de campanha eleitoral, no
caso brasileiro.
Nesse curto período de tempo, os candidatos à
presidência da República, com a ajuda dos marqueteiros contratados a peso de
ouro, inventam um Brasil dos sonhos, um país idealizado e sonhado por todos os
213,4 milhões de brasileiros. Um Brasil de crescimento econômico pujante,
potência mundial, com a menor taxa de desemprego da história. Um país no qual o
povo possui renda maior e mais dinheiro no bolso, onde vigora tributação com
maior justiça social. Uma nação que proporciona ensino e escolas de primeiro
mundo, saúde exemplar e disponível em todos os municípios, segurança total,
assegurando o direito de ir e vir, e moradia digna para todos.
Tudo isso constitui ufanismo mentiroso, repetido
exaustivamente na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão com um
único objetivo: a conquista de votos. A verdade é que existe um outro Brasil, o
país onde os cidadãos vivem – ou sobrevivem – 365 dias por ano. É o Brasil real,
marcado por enormes injustiças sociais onde mais de 90 milhões de pessoas (42%
da população) têm rende inferior a um salário-mínimo mensal. Nesse Brasil
verdadeiro, quase 10 milhões de brasileiros vivem na extrema pobreza, com renda
menor que R$ 280,00 por mês, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas. Nesse
país autêntico, em 27,5% dos domicílios as pessoas vivem sem nenhuma renda do
próprio trabalho, dependendo de aposentadoria de até um salário-mínimo, ou do
benefício do Bolsa Família. Nessa nação concreta, 38,8 milhões de trabalhadores
ainda se encontram na informalidade, sem carteira assinada, sem direitos a
férias e ao 13º salário, e outros quase 6 milhões estão desempregados.
Por que o Brasil dos 45 dias de campanha eleitoral
não tem nada, absolutamente nada, a ver com o Brasil real? Essa pergunta é
respondida, em parte, pelos dados do último PISA, o Programa Internacional de
Avaliação de Estudantes, estudo comparativo internacional sobre o desempenho
dos estudantes na faixa etária dos 15 anos, fase marcante da
aprendizagem.
Em 2000, o Brasil ocupava apenas o 32º lugar em
leitura, matemática e ciências. Agora, mais de 20 anos depois, nossa posição é
ainda mais desastrosa: 53º em leitura, 62º em matemática e 61º em ciências,
entre 80 países avaliados. Estamos muitos anos atrás da média dos 38 países da
OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Nem seria
preciso dizer que, sem educação de qualidade, o desenvolvimento de qualquer
país fica comprometido.
No Brasil real, a segurança pública e a corrupção
aparecerem entre as principais preocupações do cidadão em qualquer pesquisa de
opinião pública. São velhos problemas, nunca resolvidos, apenas agravados.
Ulysses Guimarães, o Sr. Diretas e um dos principais artífices da Constituição
Federal de 1988, já naquela época alertava: "A corrupção é o cupim da
República. A República suja pela corrupção impune tomba nas mãos dos políticos
demagogos que a pretexto de salvá-la, a tiranizam".
Muito triste constatar que o Brasil das últimas décadas
fez a opção por ignorar o alerta do Dr. Ulysses, autor também de outra frase
exemplar e igualmente ignorada e rejeitada pelos maus governantes: "Não
roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento
da moral pública." O caso Vorcaro - Banco Master nos mostra justamente o
inverso, ou seja, a sindicalização democrática do crime, envolvendo figuras dos
três poderes da República.
O cupim da corrupção citado por Ulysses Guimarães
continua corroendo, comendo tudo, simplesmente porque nos falta a melhor arma
para combatê-lo. A solução já foi dada pelo histórico líder sul-africano Nelson
Mandela (1918-2013), ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1993: "A educação
é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar as pessoas e o
mundo". Se tivermos de pensar em uma arma que seja essa”.
Não há qualquer possibilidade de a nação evoluir
enquanto a educação continuar sendo trocada pelo voto em candidatos com
histórico manchado pela corrupção e que, nos 45 dias de campanha eleitoral, são
capazes de qualquer coisa, sem qualquer compromisso com a verdade ou com a
ética. Utilizando da leniência dos órgãos de controle, aumentam o endividamento
do país e colocam o Tesouro Nacional à disposição, prometendo aos mais pobres e
aos mais endividados, pix de centenas de reais, pagamento parcial de suas
dívidas, redução na jornada de trabalho sem redução de salário, aumentando o
número de dias de folga para desfrute do saudável convívio com sua família,
além de transporte gratuito nos fins de semana. O que foi negado durante quatro
anos é oferecido às vésperas da votação, lembrando um antigo programa de TV,
“Tudo por dinheiro!”, agora na versão “tudo pelo voto!”. É o preço da
reeleição, pago com o dinheiro do próprio povo.
É o cupim avançando, abalando os alicerces enquanto
se ignora o aviso de que, se nada for feito, um dia essa praga poderá
comprometer a própria casa.
Impossível assistir ao que está acontecendo no
Brasil e não lembrar do que disse o primeiro-ministro inglês Winston Churchill:
"Não há nada que o governo possa lhe dar que ele já não tenha tirado de
vocês antes".
É preciso abrir os olhos para a velha e odiosa
prática de empobrecer a população para fazê-la totalmente dependente do
governo, ao mesmo tempo em que nega a ela ensino universalizado e de qualidade,
ou seja, conhecimento. Sem o rompimento desse círculo vicioso, grande parte da
população brasileira estará condenada à escravidão moderna, sem dinheiro, sem
educação e, como consequência, sem liberdade política e de expressão. Tudo o
que os 45 dias de campanha eleitoral escondem atrás da fachada de um país que
só existe na promessa e na propaganda.
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