Relato de Virginia Fonseca traz atenção às perdas urinárias após a gravidez; fisioterapeuta explica por que a avaliação do assoalho pélvico deve orientar o cuidado e quais são os limites das evidências sobre o laser.
Uma pequena perda ao espirrar, um escape durante o treino ou
a necessidade de usar um protetor para sair de casa. Depois da gestação, essas
situações podem ser tratadas como consequências inevitáveis da maternidade. Mas
perder urina merece investigação, inclusive entre mulheres que tiveram cesárea,
porque a própria gravidez modifica as demandas sobre o sistema responsável pela
continência.
Segundo a fisioterapeuta pélvica Flaviana Teixeira, o
crescimento do útero, o peso sustentado durante a gravidez e as mudanças
hormonais e nos tecidos podem influenciar esse funcionamento. O parto vaginal
pode acrescentar estiramentos e lesões musculares ou nervosas, mas a cesárea
não elimina a possibilidade de desenvolver incontinência.
“Ter feito cesárea não significa que o assoalho pélvico não
tenha sido exigido durante a gestação. Da mesma forma, estar no pós-parto não
significa, automaticamente, ter uma musculatura fraca. Precisamos avaliar a
função”, explica.
O assoalho pélvico é um conjunto de músculos que participa
da sustentação dos órgãos pélvicos e ajuda no fechamento da uretra, por onde a
urina sai. Ao tossir, espirrar, correr ou levantar um peso, essa musculatura
precisa responder de forma adequada para ajudar a evitar os escapes. O controle
urinário, porém, também depende da bexiga, da uretra, dos tecidos de
sustentação e do sistema nervoso.
“Na fisioterapia pélvica, avaliamos a capacidade de
contrair, relaxar e coordenar os músculos nas situações do dia a dia. O cuidado
precisa corresponder à necessidade de cada mulher”, afirma Flaviana.
O momento do escape ajuda a orientar a
investigação
A avaliação começa por entender quando a perda acontece.
Escapes ao rir ou fazer esforço, por exemplo, são diferentes daqueles
acompanhados de uma vontade súbita e difícil de controlar. Algumas mulheres
apresentam as duas situações, o que também precisa ser considerado no planejamento
do cuidado.
A frequência, a quantidade perdida e o impacto na rotina
entram nessa análise, assim como o histórico de gestações e partos, os hábitos
urinários e intestinais e sintomas associados. Perdas anteriores à gravidez,
constipação, excesso de peso e tosse crônica são outros fatores que podem
contribuir para o quadro.
“Quando uma mulher relata perda de urina, mesmo em pequena
quantidade, precisamos entender quando isso acontece e como o sistema de
continência está funcionando. Essa avaliação orienta a escolha do tratamento”,
destaca.
Na avaliação funcional, são observadas força, resistência,
relaxamento e coordenação do assoalho pélvico. Conforme os sintomas, podem ser
necessários diário miccional, exame de urina e avaliação médica. Exames mais complexos
não são obrigatórios para todas as pacientes.
Tratamento envolve mais do que contrair
a musculatura
Para mulheres com incontinência urinária de esforço ou
mista, o instituto britânico NICE recomenda o treinamento supervisionado do
assoalho pélvico como primeira linha de tratamento, por pelo menos três meses.
Esse período não representa uma garantia de resolução nem um prazo único para
todas as pacientes.
O treinamento pode envolver aprender a contrair
corretamente, desenvolver força e resistência e coordenar a resposta muscular
durante os esforços. Dificuldades de relaxamento também precisam ser
consideradas. Conforme o caso, o plano inclui orientações sobre hábitos
urinários, treinamento da bexiga e retorno gradual às atividades.
“O objetivo é que a mulher consiga voltar a rir, correr,
treinar e viver com mais segurança. Para isso, o tratamento precisa fazer
sentido para o corpo e para a rotina dela”, explica Flaviana.
O que saber sobre o laser vaginal
O assunto ganhou repercussão após Virginia Fonseca contar
nas redes sociais que realizou um procedimento chamado de “laser íntimo” e
mencionar escapes de urina após três gestações. O relato abre espaço para
discutir as opções de cuidado, mas as informações divulgadas não permitem
avaliar a indicação individual da influenciadora.
Flaviana ressalta que existem diferentes equipamentos,
protocolos e indicações. Resultados apresentados para ressecamento vaginal, por
exemplo, não podem ser automaticamente aplicados ao tratamento das perdas urinárias.
Para a incontinência urinária de esforço, a Associação
Europeia de Urologia recomenda que o laser vaginal não seja oferecido fora de
pesquisas clínicas bem regulamentadas e acompanhadas. As evidências ainda não
sustentam sua adoção como tratamento de rotina para essa finalidade.
Estimular alterações no colágeno dos tecidos também não
equivale a recuperar força, coordenação ou controle muscular. Antes de decidir,
a paciente precisa compreender qual problema a proposta pretende tratar, quais
evidências a sustentam e quais são seus riscos, limites e alternativas.
“A visibilidade de uma famosa pode ajudar outras mulheres a
procurar atendimento. O tratamento, porém, precisa ser escolhido a partir da
avaliação de cada paciente”, ressalta.
Algumas mulheres apresentam melhora durante a recuperação pós-parto, mas não precisam esperar que os escapes se tornem intensos para buscar orientação. Os resultados dependem do tipo de incontinência, das condições individuais e da adesão ao tratamento, com acompanhamento integrado ao ginecologista ou ao urologista quando necessário.
Fonte: Flaviana Teixeira — fisioterapeuta pélvica e palestrante.
@flavianateixeirafisiopelvica | flavianafisiopelvica.com.br
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