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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Escapes de urina após a gestação também podem ocorrer em quem fez cesárea

Relato de Virginia Fonseca traz atenção às perdas urinárias após a gravidez; fisioterapeuta explica por que a avaliação do assoalho pélvico deve orientar o cuidado e quais são os limites das evidências sobre o laser.

 

Uma pequena perda ao espirrar, um escape durante o treino ou a necessidade de usar um protetor para sair de casa. Depois da gestação, essas situações podem ser tratadas como consequências inevitáveis da maternidade. Mas perder urina merece investigação, inclusive entre mulheres que tiveram cesárea, porque a própria gravidez modifica as demandas sobre o sistema responsável pela continência.

Segundo a fisioterapeuta pélvica Flaviana Teixeira, o crescimento do útero, o peso sustentado durante a gravidez e as mudanças hormonais e nos tecidos podem influenciar esse funcionamento. O parto vaginal pode acrescentar estiramentos e lesões musculares ou nervosas, mas a cesárea não elimina a possibilidade de desenvolver incontinência.

“Ter feito cesárea não significa que o assoalho pélvico não tenha sido exigido durante a gestação. Da mesma forma, estar no pós-parto não significa, automaticamente, ter uma musculatura fraca. Precisamos avaliar a função”, explica.

O assoalho pélvico é um conjunto de músculos que participa da sustentação dos órgãos pélvicos e ajuda no fechamento da uretra, por onde a urina sai. Ao tossir, espirrar, correr ou levantar um peso, essa musculatura precisa responder de forma adequada para ajudar a evitar os escapes. O controle urinário, porém, também depende da bexiga, da uretra, dos tecidos de sustentação e do sistema nervoso.

“Na fisioterapia pélvica, avaliamos a capacidade de contrair, relaxar e coordenar os músculos nas situações do dia a dia. O cuidado precisa corresponder à necessidade de cada mulher”, afirma Flaviana.

O momento do escape ajuda a orientar a investigação

A avaliação começa por entender quando a perda acontece. Escapes ao rir ou fazer esforço, por exemplo, são diferentes daqueles acompanhados de uma vontade súbita e difícil de controlar. Algumas mulheres apresentam as duas situações, o que também precisa ser considerado no planejamento do cuidado.

A frequência, a quantidade perdida e o impacto na rotina entram nessa análise, assim como o histórico de gestações e partos, os hábitos urinários e intestinais e sintomas associados. Perdas anteriores à gravidez, constipação, excesso de peso e tosse crônica são outros fatores que podem contribuir para o quadro.

“Quando uma mulher relata perda de urina, mesmo em pequena quantidade, precisamos entender quando isso acontece e como o sistema de continência está funcionando. Essa avaliação orienta a escolha do tratamento”, destaca.

Na avaliação funcional, são observadas força, resistência, relaxamento e coordenação do assoalho pélvico. Conforme os sintomas, podem ser necessários diário miccional, exame de urina e avaliação médica. Exames mais complexos não são obrigatórios para todas as pacientes.


Tratamento envolve mais do que contrair a musculatura

Para mulheres com incontinência urinária de esforço ou mista, o instituto britânico NICE recomenda o treinamento supervisionado do assoalho pélvico como primeira linha de tratamento, por pelo menos três meses. Esse período não representa uma garantia de resolução nem um prazo único para todas as pacientes.

O treinamento pode envolver aprender a contrair corretamente, desenvolver força e resistência e coordenar a resposta muscular durante os esforços. Dificuldades de relaxamento também precisam ser consideradas. Conforme o caso, o plano inclui orientações sobre hábitos urinários, treinamento da bexiga e retorno gradual às atividades.

“O objetivo é que a mulher consiga voltar a rir, correr, treinar e viver com mais segurança. Para isso, o tratamento precisa fazer sentido para o corpo e para a rotina dela”, explica Flaviana.


O que saber sobre o laser vaginal

O assunto ganhou repercussão após Virginia Fonseca contar nas redes sociais que realizou um procedimento chamado de “laser íntimo” e mencionar escapes de urina após três gestações. O relato abre espaço para discutir as opções de cuidado, mas as informações divulgadas não permitem avaliar a indicação individual da influenciadora.

Flaviana ressalta que existem diferentes equipamentos, protocolos e indicações. Resultados apresentados para ressecamento vaginal, por exemplo, não podem ser automaticamente aplicados ao tratamento das perdas urinárias.

Para a incontinência urinária de esforço, a Associação Europeia de Urologia recomenda que o laser vaginal não seja oferecido fora de pesquisas clínicas bem regulamentadas e acompanhadas. As evidências ainda não sustentam sua adoção como tratamento de rotina para essa finalidade.

Estimular alterações no colágeno dos tecidos também não equivale a recuperar força, coordenação ou controle muscular. Antes de decidir, a paciente precisa compreender qual problema a proposta pretende tratar, quais evidências a sustentam e quais são seus riscos, limites e alternativas.

“A visibilidade de uma famosa pode ajudar outras mulheres a procurar atendimento. O tratamento, porém, precisa ser escolhido a partir da avaliação de cada paciente”, ressalta.

Algumas mulheres apresentam melhora durante a recuperação pós-parto, mas não precisam esperar que os escapes se tornem intensos para buscar orientação. Os resultados dependem do tipo de incontinência, das condições individuais e da adesão ao tratamento, com acompanhamento integrado ao ginecologista ou ao urologista quando necessário. 



Fonte: Flaviana Teixeira — fisioterapeuta pélvica e palestrante.
@flavianateixeirafisiopelvica | flavianafisiopelvica.com.br


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