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A unificação dos dados de saúde dos brasileiros será um dos
desafios do próximo presidente da República, independente de quem vencer o
segundo turno das eleições. Tanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto Flávio
Bolsonaro (PL) incluem em seus planos de governo propostas para ampliar a
integração dos prontuários eletrônicos. O debate, porém, vai além da
digitalização dos serviços: como garantir que informações produzidas em diferentes
hospitais, clínicas, laboratórios e consultórios estejam acessíveis ao próprio
paciente ao longo de toda a vida?
Para a MYME, healthtech brasileira que desenvolveu uma plataforma
gratuita de centralização do histórico médico, esse é um dos principais
desafios da saúde digital no país. A discussão ganha relevância diante de um levantamento
do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), que analisou 95 propostas para a
saúde presentes nos planos de seis candidatos à Presidência. Segundo o estudo,
56% dessas medidas já existem, total ou parcialmente, como políticas ou
programas do Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, 95% exigem recursos
adicionais e 83% dependem de articulação entre União, estados e municípios.
Entre os pontos de convergência identificados estão justamente o prontuário
eletrônico único e a ampliação da telessaúde.
Para Lucas Santiago, cofundador da MYME, a integração dos sistemas
é fundamental, mas não resolve, sozinha, a fragmentação das informações de
saúde. “O desafio é garantir que os registros acompanhem o paciente,
independentemente de onde ele seja atendido, e possam ser acessados e
compartilhados com segurança”, comenta.
Nos programas apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE),
Lula propõe acelerar a consolidação do prontuário único do cidadão por meio da
Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), enquanto Flávio Bolsonaro defende um
prontuário eletrônico vinculado ao CPF e integrado ao Gov.br, com
interoperabilidade entre as redes pública e privada. Embora apresentem caminhos
distintos, as duas propostas reconhecem a necessidade de conectar informações
que hoje estão distribuídas entre diferentes sistemas.
Atualmente, o Brasil já conta com uma infraestrutura nacional para
essa integração. Criada em 2020, a RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) permite a troca padronizada de
informações entre sistemas de saúde. Pelo aplicativo Meu SUS Digital, os
cidadãos podem consultar registros disponíveis de vacinação, exames,
medicamentos e atendimentos, conforme os dados enviados pelas instituições
conectadas à rede. Segundo o Ministério da Saúde, a RNDS já reunia mais de 5
bilhões de registros em agosto de 2026. Em setembro, o governo concluiu a etapa
estadual de uma estratégia de ampliação do acesso e uso dos dados, com
participação das 27 unidades da Federação, e iniciou a preparação para levar
essa estrutura de forma mais ampla aos municípios.
Apesar disso, a integração ainda enfrenta obstáculos. “A
conexão entre os sistemas públicos e privados não é universal, há diferenças na
infraestrutura tecnológica disponível em cada região e nem todas as informações
produzidas durante a trajetória de saúde de uma pessoa são incorporadas aos
registros institucionais”, diz Lucas.
Do prontuário eletrônico ao histórico completo do paciente
Para Lucas, é importante diferenciar dois conceitos: a
interoperabilidade, que permite a troca de informações entre sistemas, e a
gestão do histórico de saúde pelo próprio paciente. Enquanto a primeira conecta
instituições, a segunda busca garantir que o cidadão tenha acesso a um conjunto
completo de informações, incluindo registros que não necessariamente fazem
parte dos prontuários de hospitais e clínicas.
“Esse conjunto pode incluir exames antigos, prescrições,
sintomas registrados em casa, medicamentos utilizados sem acompanhamento
contínuo, informações sobre o sono e dados de tratamentos multidisciplinares,
como fisioterapia, psicologia e terapia ocupacional. São registros que ajudam a
contextualizar a evolução da saúde de uma pessoa, especialmente em casos de
doenças crônicas ou tratamentos de longa duração”.
Lucas acredita que o desafio para os próximos anos não será apenas
ampliar a digitalização dos prontuários, mas fazer com que as informações
possam circular de forma segura entre instituições e permaneçam acessíveis ao
cidadão. “A consolidação desse modelo exige investimentos em infraestrutura,
padronização, proteção de dados e mecanismos que garantam autonomia ao
paciente, independentemente de quem esteja à frente do governo federal”, finaliza.
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