Levantamento aponta que quase 9 em cada 10 mães apresentam algum nível de esgotamento.
Especialista explica quais sinais merecem atenção e
porque rotina, rede de apoio e descanso também precisam fazer parte dessa
conversa.
Dar
conta dos filhos, da casa, do trabalho, das demandas da escola e de uma lista
de tarefas que parece nunca terminar. Para muitas mães, o cansaço faz parte da
rotina. Mas o que acontece quando a exaustão deixa de aparecer apenas nos dias
mais difíceis e passa a ser uma sensação constante?
Um
levantamento realizado em 2024 pela B2Mamy e pela Kiddle Pass, com 1.868
mulheres, mostrou que 44,2% das entrevistadas apresentavam sinais de
esgotamento moderado, 33,99% leve e 9,37% grave. Apenas 9,42% tinham poucos ou
nenhum sinal. A falta de apoio também chama atenção: 30% não contavam com uma
rede fora do período escolar e, nesse grupo, o esgotamento moderado a grave foi
59% maior.
Os
dados ajudam a mostrar que existe uma diferença entre o cansaço esperado da
parentalidade e um estado persistente de esgotamento.
Quando o cansaço merece atenção
A
Organização Mundial da Saúde (OMS) define burnout como um fenômeno relacionado
especificamente ao contexto ocupacional. Já o termo burnout parental é
utilizado na literatura científica para descrever um estado de esgotamento
associado ao estresse crônico da parentalidade.
Estar
cansada, portanto, não significa necessariamente viver um burnout parental. O
sinal de atenção aparece quando a exaustão se torna persistente e pode vir
acompanhada de distanciamento emocional dos filhos, sensação de não se reconhecer
mais como antes e perda do prazer ou da realização na parentalidade.
Burnout
parental também não é sinônimo de depressão. São fenômenos diferentes, embora
possam coexistir. Quando o esgotamento começa a comprometer a saúde, os
relacionamentos e a vida cotidiana, é importante buscar ajuda profissional.
Sabrina
Carneiro, especialista em parentalidade e fundadora da Parenting Solutions,
chama atenção para um aspecto que nem sempre é percebido: uma mãe pode
continuar cumprindo todas as suas responsabilidades mesmo estando profundamente
esgotada.
“Ela
pode trabalhar, levar os filhos à escola, organizar a casa e continuar fazendo
tudo o que precisa ser feito. Para quem olha de fora, parece que está dando
conta. Por dentro, pode estar pensando todos os dias que não aguenta mais”,
explica.
Nesse
momento, também podem aparecer culpa e questionamentos como “Será que eu sou
uma mãe ruim?” ou “Será que meu filho é difícil demais?”. Para Sabrina, muitas
vezes a questão está na quantidade de demandas que esse adulto tenta sustentar
com poucos recursos e pouco apoio.
“A
exaustão pode fazer parte de alguns momentos da parentalidade. O que não
devemos normalizar é a exaustão crônica”, afirma.
Rotina também é uma forma de reduzir a sobrecarga
A
rotina familiar não serve apenas para organizar o dia da criança. Ela também
pode diminuir a quantidade de decisões que o adulto precisa tomar o tempo todo.
Quem
decide diariamente quem busca a criança, o que ela vai comer, quando começa a
lição, quem prepara a mochila e como será a noite acumula não apenas tarefas,
mas também carga mental.
“Uma
rotina possível é diferente de uma rotina perfeita. Precisamos olhar para as
prioridades reais daquela família e distribuir responsabilidades de uma maneira
que funcione para ela”, diz Sabrina.
Na
prática, isso pode significar rever horários, antecipar decisões, dividir
tarefas e envolver outros adultos responsáveis pela criança. A especialista
também alerta que a autorregulação, embora importante, não pode se transformar
em mais uma exigência para uma mãe esgotada.
“Uma
mãe emocionalmente habilidosa também pode chegar ao burnout quando passa tempo
demais exposta a demandas que ultrapassam seus recursos. Antes de perguntar
como ela pode reagir melhor, precisamos olhar para o que pode ser retirado,
dividido ou simplificado”, explica.
Descanso também faz parte do cuidado
O
sono é outro ponto que merece atenção. Depois que os filhos dormem, muitas mães
aproveitam para terminar o trabalho, organizar a casa ou simplesmente ter algum
tempo sem precisar cuidar de ninguém. Quando esse período acontece
constantemente às custas do descanso, porém, a exaustão pode aumentar.
“Em
alguns casos, a mãe sente que só volta a ser ela mesma quando todos dormem. Mas
a falta de sono de qualidade aumenta a exaustão e dificulta ainda mais a saída
desse ciclo”, afirma Sabrina.
Por
isso, olhar para quem cuida também precisa fazer parte da organização familiar.
Isso inclui descanso, divisão de responsabilidades e uma rede de apoio
possível.
Uma
mãe pode amar profundamente seus filhos e, ao mesmo tempo, estar cansada de
cuidar. Para Sabrina, reconhecer essa realidade ajuda a diminuir a culpa e abre
espaço para uma discussão mais concreta sobre suporte.
“A
criança não precisa de um adulto que nunca se desregula. Precisa de um adulto
que tenha recursos para cuidar. E esse adulto também precisa ser cuidado”, diz.
Maternidade não é performance
A
pressão para conciliar filhos, trabalho, casa, relacionamento, saúde e vida
pessoal pode criar a sensação de que a maternidade é uma prova constante de
competência.
Para
Sabrina, a pergunta precisa mudar. Em vez de “como eu faço para dar conta de
tudo?”, vale pensar: “O que precisa mudar para que eu não precise dar conta de
tudo sozinha?”.
“Antes
de fazer, precisamos ser. Para cuidar de uma criança, precisamos olhar também
para quem está cuidando. Liderança na maternidade não é performance. É
fortalecer o adulto para fortalecer o lar”, conclui.
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