Pesquisar no Blog

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Burnout materno: quando o cansaço deixa de ser apenas parte da rotina

Levantamento aponta que quase 9 em cada 10 mães apresentam algum nível de esgotamento.

Especialista explica quais sinais merecem atenção e porque rotina, rede de apoio e descanso também precisam fazer parte dessa conversa.

 

Dar conta dos filhos, da casa, do trabalho, das demandas da escola e de uma lista de tarefas que parece nunca terminar. Para muitas mães, o cansaço faz parte da rotina. Mas o que acontece quando a exaustão deixa de aparecer apenas nos dias mais difíceis e passa a ser uma sensação constante?

Um levantamento realizado em 2024 pela B2Mamy e pela Kiddle Pass, com 1.868 mulheres, mostrou que 44,2% das entrevistadas apresentavam sinais de esgotamento moderado, 33,99% leve e 9,37% grave. Apenas 9,42% tinham poucos ou nenhum sinal. A falta de apoio também chama atenção: 30% não contavam com uma rede fora do período escolar e, nesse grupo, o esgotamento moderado a grave foi 59% maior.

Os dados ajudam a mostrar que existe uma diferença entre o cansaço esperado da parentalidade e um estado persistente de esgotamento.


Quando o cansaço merece atenção

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define burnout como um fenômeno relacionado especificamente ao contexto ocupacional. Já o termo burnout parental é utilizado na literatura científica para descrever um estado de esgotamento associado ao estresse crônico da parentalidade.

Estar cansada, portanto, não significa necessariamente viver um burnout parental. O sinal de atenção aparece quando a exaustão se torna persistente e pode vir acompanhada de distanciamento emocional dos filhos, sensação de não se reconhecer mais como antes e perda do prazer ou da realização na parentalidade.

Burnout parental também não é sinônimo de depressão. São fenômenos diferentes, embora possam coexistir. Quando o esgotamento começa a comprometer a saúde, os relacionamentos e a vida cotidiana, é importante buscar ajuda profissional.

Sabrina Carneiro, especialista em parentalidade e fundadora da Parenting Solutions, chama atenção para um aspecto que nem sempre é percebido: uma mãe pode continuar cumprindo todas as suas responsabilidades mesmo estando profundamente esgotada.

“Ela pode trabalhar, levar os filhos à escola, organizar a casa e continuar fazendo tudo o que precisa ser feito. Para quem olha de fora, parece que está dando conta. Por dentro, pode estar pensando todos os dias que não aguenta mais”, explica.

Nesse momento, também podem aparecer culpa e questionamentos como “Será que eu sou uma mãe ruim?” ou “Será que meu filho é difícil demais?”. Para Sabrina, muitas vezes a questão está na quantidade de demandas que esse adulto tenta sustentar com poucos recursos e pouco apoio.

“A exaustão pode fazer parte de alguns momentos da parentalidade. O que não devemos normalizar é a exaustão crônica”, afirma.

Rotina também é uma forma de reduzir a sobrecarga

A rotina familiar não serve apenas para organizar o dia da criança. Ela também pode diminuir a quantidade de decisões que o adulto precisa tomar o tempo todo.

Quem decide diariamente quem busca a criança, o que ela vai comer, quando começa a lição, quem prepara a mochila e como será a noite acumula não apenas tarefas, mas também carga mental.

“Uma rotina possível é diferente de uma rotina perfeita. Precisamos olhar para as prioridades reais daquela família e distribuir responsabilidades de uma maneira que funcione para ela”, diz Sabrina.

Na prática, isso pode significar rever horários, antecipar decisões, dividir tarefas e envolver outros adultos responsáveis pela criança. A especialista também alerta que a autorregulação, embora importante, não pode se transformar em mais uma exigência para uma mãe esgotada.

“Uma mãe emocionalmente habilidosa também pode chegar ao burnout quando passa tempo demais exposta a demandas que ultrapassam seus recursos. Antes de perguntar como ela pode reagir melhor, precisamos olhar para o que pode ser retirado, dividido ou simplificado”, explica.


Descanso também faz parte do cuidado

O sono é outro ponto que merece atenção. Depois que os filhos dormem, muitas mães aproveitam para terminar o trabalho, organizar a casa ou simplesmente ter algum tempo sem precisar cuidar de ninguém. Quando esse período acontece constantemente às custas do descanso, porém, a exaustão pode aumentar.

“Em alguns casos, a mãe sente que só volta a ser ela mesma quando todos dormem. Mas a falta de sono de qualidade aumenta a exaustão e dificulta ainda mais a saída desse ciclo”, afirma Sabrina.

Por isso, olhar para quem cuida também precisa fazer parte da organização familiar. Isso inclui descanso, divisão de responsabilidades e uma rede de apoio possível.

Uma mãe pode amar profundamente seus filhos e, ao mesmo tempo, estar cansada de cuidar. Para Sabrina, reconhecer essa realidade ajuda a diminuir a culpa e abre espaço para uma discussão mais concreta sobre suporte.

“A criança não precisa de um adulto que nunca se desregula. Precisa de um adulto que tenha recursos para cuidar. E esse adulto também precisa ser cuidado”, diz.


Maternidade não é performance

A pressão para conciliar filhos, trabalho, casa, relacionamento, saúde e vida pessoal pode criar a sensação de que a maternidade é uma prova constante de competência.

Para Sabrina, a pergunta precisa mudar. Em vez de “como eu faço para dar conta de tudo?”, vale pensar: “O que precisa mudar para que eu não precise dar conta de tudo sozinha?”.

“Antes de fazer, precisamos ser. Para cuidar de uma criança, precisamos olhar também para quem está cuidando. Liderança na maternidade não é performance. É fortalecer o adulto para fortalecer o lar”, conclui.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados