De Sabrina Sato e Letícia Sabatella a Simone Biles e Michael Phelps, personalidades que já falaram publicamente sobre TDAH ou autismo ajudam a quebrar um mito: neurodivergência não é sinônimo de incapacidade. Neurologista explica como compreender o próprio funcionamento pode mudar a relação com o trabalho, a produtividade e a autoestima.
Durante
muito tempo, TDAH e autismo foram associados principalmente à infância, às
dificuldades escolares ou à incapacidade de acompanhar uma rotina considerada
“normal”. Mas basta olhar para algumas das personalidades que já tornaram públicos
seus diagnósticos para perceber que essa narrativa está longe de contar a
história inteira.
Atrizes,
apresentadores, músicos, atletas e influenciadores construíram carreiras de
enorme visibilidade enquanto conviviam — muitas vezes sem saber — com características
relacionadas ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade ou ao
Transtorno do Espectro Autista.
Sabrina Sato
já falou publicamente sobre o TDAH. Virginia Fonseca também revelou o
diagnóstico. Ana Hickmann tornou pública a descoberta na vida adulta. Suzana
Alves contou que só recebeu o diagnóstico de TDAH depois de adulta. Já Letícia
Sabatella descobriu o autismo aos 52 anos e descreveu a experiência como
“libertadora”.
No cenário
internacional, atletas como Michael Phelps e Simone Biles também já falaram
abertamente sobre TDAH. Outros nomes conhecidos mundialmente também vêm contribuindo
para ampliar a discussão sobre neurodivergência e diagnóstico tardio.
Os exemplos
chamam atenção por um motivo: sucesso profissional não exclui neurodivergência.
Para o
neurologista Dr. Matheus Trilico, referência no tratamento de TDAH e autismo em
adultos, uma pessoa pode desenvolver uma carreira brilhante e, ainda assim,
conviver durante décadas com dificuldades que nunca conseguiu explicar.
“Quando
observamos alguém extremamente bem-sucedido, enxergamos o resultado final. Não
vemos necessariamente o esforço que aquela pessoa fez durante anos para se
organizar, cumprir prazos, controlar impulsos, lidar com estímulos, interagir
socialmente ou simplesmente acompanhar o ritmo esperado dela”, explica.
Segundo o
neurologista, é justamente por isso que muitos adultos só chegam ao diagnóstico
depois dos 30, 40 ou 50 anos.
“Existe uma
ideia equivocada de que, se a pessoa estudou, construiu uma carreira, teve
sucesso financeiro ou se tornou famosa, ela não poderia ter TDAH ou estar no
espectro autista. Uma coisa não exclui a outra.”
Quando o diagnóstico organiza uma
história inteira
Em muitos
casos, descobrir uma neurodivergência na vida adulta provoca uma releitura da
própria trajetória.
Situações
que antes eram interpretadas como desorganização, preguiça, distração,
dificuldade de relacionamento ou incapacidade de manter uma rotina podem ganhar
outro significado quando analisadas dentro de um contexto clínico adequado.
Foi
justamente essa sensação que Letícia Sabatella descreveu ao falar publicamente
sobre seu diagnóstico de autismo. A atriz afirmou que a descoberta foi
“libertadora” e permitiu uma compreensão diferente de experiências vividas
desde a infância.
Esse fenômeno
do diagnóstico tardio tem chamado cada vez mais atenção. Muitas manifestações
de TDAH e TEA em adultos não correspondem ao estereótipo construído a partir do
comportamento infantil e, por isso, podem passar despercebidas durante décadas.
“Às vezes, a
pessoa passou a vida inteira criando mecanismos próprios para funcionar. Ela
trabalha muito mais para entregar o mesmo resultado, desenvolve rotinas
rígidas, depende de alarmes, listas ou outras pessoas para se organizar e
acredita que aquilo é simplesmente uma falha pessoal”, afirma Dr. Matheus
Trilico.
Diagnóstico não cria talento — mas
pode mudar a maneira de usá-lo
Há outro
cuidado importante: não transformar TDAH ou autismo em uma espécie de fórmula
para genialidade.
Características
como hiperfoco, criatividade, capacidade intensa de aprofundamento e pensamento
diferente podem aparecer em algumas pessoas neurodivergentes, mas não devem ser
generalizadas.
“Não é
correto afirmar que alguém se tornou famoso ou bem-sucedido por causa do TDAH
ou do autismo. O sucesso é resultado de inúmeros fatores. Mas compreender o
próprio funcionamento pode permitir que uma pessoa utilize melhor seus pontos
fortes e encontre estratégias para aquilo que representa dificuldade.”
Essa
compreensão pode mudar a maneira como a pessoa trabalha, se organiza, toma
decisões e até se enxerga profissionalmente.
Em alguns
casos, o diagnóstico ajuda a entender por que determinadas tarefas sempre foram
mais difíceis, por que a concentração varia tanto ou por que situações
aparentemente simples geram enorme desgaste.
O perigo de transformar tudo em
“superpoder”
Ao mesmo
tempo em que a exposição de pessoas famosas contribui para diminuir o
preconceito, existe o risco de romantizar os diagnósticos.
Para Dr.
Matheus Trilico, esse é um ponto que merece atenção.
“Diagnóstico
não é troféu e não é sentença. Também não deve ser tratado como um superpoder.
Existem características que podem ser positivas em determinados contextos, mas
existem dificuldades reais que precisam ser reconhecidas, acolhidas e, quando
necessário, tratadas.”
Segundo o
neurologista, reduzir o TDAH à criatividade ou o autismo ao hiperfoco pode ser
tão equivocado quanto enxergar apenas as limitações.
“A pessoa
precisa ser compreendida de forma individual. Duas pessoas com o mesmo
diagnóstico podem ter necessidades, dificuldades e potencialidades completamente
diferentes.”
Quando famosos falam, o assunto
chega a quem nunca pensou em procurar ajuda
A fala
pública de celebridades também pode ter um papel importante na redução do preconceito.
Quando uma
pessoa conhecida conta que recebeu um diagnóstico, outras podem começar a
reconhecer comportamentos que passaram anos tentando esconder ou compensar.
“Muitas
pessoas chegam à vida adulta acreditando que são incapazes, preguiçosas, desorganizadas
ou simplesmente ‘diferentes’. Quando descobrem que pode existir uma explicação
para determinadas dificuldades, começam a olhar para a própria história de
outra maneira”, afirma Dr. Matheus.
Isso não
significa, porém, que se identificar com uma celebridade ou com conteúdos
publicados nas redes sociais seja suficiente para concluir um diagnóstico.
“Reconhecer
características pode despertar uma dúvida legítima, mas diagnóstico exige
avaliação clínica individualizada. O objetivo não é colocar um rótulo. É
compreender aquela pessoa, seu funcionamento e o impacto desses sintomas na
vida dela.”
Sucesso não exclui sofrimento
Talvez esse
seja um dos pontos mais importantes da discussão.
Uma pessoa
pode ser famosa, produtiva, reconhecida e financeiramente bem-sucedida e, ao
mesmo tempo, conviver com sofrimento, exaustão, sensação de inadequação ou
dificuldades que ninguém percebe.
“Alta
performance não significa ausência de dificuldade. Muitas vezes, existe um
custo enorme por trás daquela entrega. E esse custo pode aparecer como
ansiedade, esgotamento, problemas de relacionamento, sensação de fracasso ou
sobrecarga constante”, alerta o neurologista.
Por isso,
para Dr. Matheus Trilico, histórias de pessoas conhecidas ajudam a desconstruir
uma ideia antiga: a de que TDAH ou autismo definem até onde alguém pode chegar.
“Eles não
definem inteligência, competência, talento ou potencial. O diagnóstico pode não
mudar quem a pessoa é, mas pode mudar profundamente a maneira como ela entende
quem sempre foi.”
Alguns famosos que já falaram
publicamente sobre neurodivergência
Sabrina Sato,
Virginia Fonseca, Ana Hickmann e Suzana Alves estão entre os nomes brasileiros
que já falaram publicamente sobre TDAH. Letícia Sabatella revelou ter recebido
diagnóstico de autismo na vida adulta. No cenário internacional, Simone Biles e
Michael Phelps já relataram diagnóstico de TDAH.
A lista de personalidades que tornam essas experiências públicas cresce a cada ano e ajuda a colocar o tema no centro de uma discussão mais ampla: neurodivergência e sucesso podem, sim, coexistir.
Dr. Matheus Trilico – neurologista, referência nacional em TEA e TDAH em adultos. Mais informações e conteúdos
Blog: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário