Mudanças na alimentação e na rotina podem intensificar a azia e a regurgitação; estudos investigam associações com fatores ambientais, mas não comprovam que a temperatura, isoladamente, agrave a doença.
Azia, queimação e regurgitação estão
entre os sintomas da Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) que podem
comprometer a qualidade de vida. Estimativas do Colégio Brasileiro de Cirurgia
Digestiva (CBCD) apontam que cerca de 25 milhões de brasileiros convivem com a
condição, caracterizada pelo retorno do conteúdo do estômago para o esôfago.
Mas será que as mudanças térmicas, seja nos dias de calor intenso ou de frio,
podem agravar o problema?
Um estudo publicado recentemente no
periódico World Journal of Gastroenterology investigou a relação entre
fatores meteorológicos, poluição atmosférica e procura por serviços de saúde
por pessoas com DRGE na Coreia do Sul. A pesquisa identificou associações entre
variáveis ambientais, incluindo a temperatura média, e a busca por atendimento
médico relacionado à doença. Esses resultados, no entanto, não comprovam que as
variações de clima, isoladamente, provoquem ou intensifiquem as condições do
refluxo.
Segundo a Dra. Lívia Zardo Trindade,
médica e professora de Gastroenterologia da Afya Educação Médica Vitória, ainda
não há evidências científicas consistentes de que a condição térmica do
ambiente, por si só, cause ou agrave diretamente o refluxo. A influência pode
estar, na verdade, nas mudanças de comportamento que acompanham as diferentes
estações do ano, como alterações na alimentação, nos horários das refeições e
em outros hábitos cotidianos. “Em períodos de muito calor ou frio, as pessoas
modificam a alimentação, os horários das refeições e alguns hábitos cotidianos.
Essas mudanças podem contribuir para o aparecimento ou a intensificação dos
sintomas, como azia e regurgitação”, explica a médica.
Mudanças de hábitos
podem explicar a piora do refluxo
A piora dos sintomas em determinadas
épocas do ano pode estar relacionada às mudanças na rotina, e não diretamente à
temperatura. Nos dias quentes, por exemplo, o consumo de refrigerantes e
bebidas alcoólicas pode aumentar, assim como a frequência de refeições fora de
casa. No frio, algumas pessoas tendem a consumir pratos mais volumosos e
gordurosos ou a permanecer deitadas por mais tempo após comer. Esses hábitos
podem favorecer o refluxo por diferentes mecanismos, como alterações no
funcionamento do esfíncter esofágico inferior, estrutura muscular que ajuda a
impedir o retorno do conteúdo do estômago para o esôfago, além de efeitos sobre
a pressão abdominal e o esvaziamento gástrico.
Também é importante diferenciar o
aumento da procura por atendimento médico do agravamento da doença. Mais
consultas em determinada estação não significam, necessariamente, que as
pessoas estejam apresentando mais episódios de refluxo ou manifestações mais
intensas.
Bebidas quentes ou
geladas podem provocar desconforto?
Café gelado, água muito fria e bebidas
quentes também despertam dúvidas entre pessoas que convivem com o refluxo. Em
algumas delas, condições térmicas extremas podem provocar desconforto,
especialmente quando há maior sensibilidade do esôfago. Segundo a Dra. Livia, a
temperatura das bebidas pode modificar temporariamente os movimentos musculares
do esôfago. Essas alterações, porém, não significam necessariamente que os
episódios de refluxo aumentem. “A distinção é importante: o refluxo é o retorno
do conteúdo gástrico para o esôfago, enquanto o desconforto pode ocorrer por
estímulos locais, mesmo sem um episódio de refluxo”, esclarece a
gastroenterologista.
Por isso, não há recomendação geral
para evitar bebidas quentes ou geladas. O mais indicado é observar a própria
tolerância e reduzir o consumo daqueles itens que desencadeiam os desconfortos
Alimentação e estilo de vida ajudam a
controlar os sintomas
Além dos hábitos cotidianos, alguns
alimentos e bebidas podem agravar os as queixas em determinadas pessoas. Entre
eles estão refeições muito gordurosas, café, bebidas alcoólicas, refrigerantes,
chocolate, hortelã, alimentos cítricos e preparações muito condimentadas. A
resposta, porém, varia de pessoa para pessoa, e não é necessário excluir todos
esses itens da alimentação indiscriminadamente.
Outros fatores também merecem atenção,
como refeições volumosas, deitar-se logo após comer, tabagismo e excesso de
peso. Algumas medidas podem ajudar a controlar os desconfortos
- Evitar refeições volumosas, especialmente à noite;
- Aguardar de duas a três horas após comer antes de se deitar;
- Manter um peso saudável, sobretudo em casos de sobrepeso ou
obesidade;
- Identificar e reduzir o consumo de alimentos e bebidas associados às complicações
individuais;
- Evitar o tabagismo;
- Elevar a cabeceira da cama em caso de incômodos noturnos;
- Considerar dormir sobre o lado esquerdo, medida que pode ajudar a
reduzir o refluxo durante o sono.
Quando procurar um médico?
Azia e regurgitação frequentes, que
prejudicam o sono ou a qualidade de vida, exigem avaliação médica. Dificuldade
ou dor ao engolir, perda de peso involuntária, vômitos persistentes, anemia ou
sangue no vômito ou nas fezes também são sinais de alerta. Já a dor no peito,
especialmente se for nova ou intensa e vier acompanhada de falta de ar,
sudorese ou mal-estar, exige atendimento de urgência para descartar causas
cardíacas. Quando os sintomas persistem, a avaliação médica permite identificar
a causa e definir o tratamento adequado, evitando a automedicação e atrasos no
diagnóstico. Embora mudanças de hábitos associadas às estações possam
contribuir para o desconforto, não há evidências consistentes de que a
condições térmicas do ambiente agrave diretamente o refluxo. Por isso, observar
os próprios gatilhos e adotar hábitos adequados são medidas importantes para
controlar os desconfortos.

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