Pesquisar no Blog

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Em 20 anos, a taxa de mortalidade por câncer de pulmão entre mulheres mais que dobrou no Brasil

O tabagismo responde por 85% dos casos de câncer de pulmão.
A incorporação mais tardia desse hábito pelas mulheres em
 relação aos homens explica o aumento da mortalidade
Mulheres e pessoas idosas, especialmente aquelas com 75 anos ou mais, apresentaram crescimento expressivo de mortalidade por câncer de pulmão no país, alerta o médico Lucianno Santos, oncologista especializado em câncer de pulmão da Oncologia D’Or do Distrito Federal.

 

O câncer de pulmão é uma das principais causas de mortes por câncer no Brasil, ficando atrás apenas dos tumores de próstata e mama. Dados mais recentes do Ministério da Saúde revelam que, em 2024, foram registrados 32.555 óbitos por câncer de traqueia, brônquios e pulmão, sendo 17.202 homens e 15.353 mulheres. Entre 2004 e 2023, a taxa de mortes por 100 mil habitantes cresceu mais de 50%, saltando de 9,5 para 14,7 no território nacional. O maior crescimento proporcional da taxa bruta de mortalidade foi observado entre as mulheres. A taxa bruta mais que dobrou: aumentou 118%, passando de 6,1 para 13,3 mortes por 100 mil habitantes. 

“Esse padrão reflete a incorporação mais tardia do tabagismo pelas mulheres em relação aos homens, que, historicamente, foram mais expostos ao cigarro”, afirma o médico Lucianno Santos, oncologista especializado em câncer pulmão da Oncologia D’Or do Distrito Federal. O tabagismo responde por aproximadamente 85% dos casos de câncer de pulmão. Os outros fatores de risco são a poluição atmosférica, a exposição à fumaça de fogão a lenha e a agentes carcinogênicos — como o radônio, o amianto e a sílica —, antecedentes familiares e alterações genéticas. 

Paralelamente, a mortalidade cresceu de forma expressiva nos idosos, com destaque para os maiores de 75 anos. Entre 2004 e 2023, os brasileiros com 80 anos ou mais apresentaram uma das maiores elevações absolutas, passando de 91,9 para 138,1 mortes por 100 mil habitantes. “O envelhecimento acelerado da população no nosso país ampliou o número de pessoas nas faixas de maior risco”, observou o médico.

Em contrapartida, a taxa bruta de mortalidade nos homens sinalizou estabilização e até redução em alguns grupos, principalmente nas gerações mais novas. “Graças às políticas de controle de tabaco, houve uma queda no contingente de fumantes, formado inicialmente por homens”, declara o especialista. Na população masculina, a taxa bruta cresceu 23%, passando de 13 para 16,1 óbitos por 100 mil habitantes — bem abaixo do ocorrido entre as mulheres.


 Contramão

Embora a campanha brasileira antitabagismo seja um case internacional de sucesso, os números demonstram que há um longo caminho a percorrer para a diminuição da mortalidade do câncer de pulmão no país. Nos Estados Unidos, a taxa bruta de mortalidade por essa neoplasia caiu 40,7% entre 2004 e 2021, passando de 53,3 para 31,7 óbitos. A exemplo do Brasil, a redução começou mais cedo nos homens. 

Os norte-americanos foram os pioneiros na implantação de políticas de controle do tabaco, como maior tributação, restrições ao fumo em espaços públicos, campanhas educativas e programas de cessação do hábito de fumar. Essas medidas produziram uma redução progressiva da incidência anual do câncer de pulmão. Entre 2013 e 2022, o número de casos diminuiu em média 3% ao ano entre os homens e 1,3% ao ano entre as mulheres. Recentemente, as mortes passaram a cair mais rapidamente que os novos casos, sugerindo benefício adicional dos tratamentos.
 

Rastreamento

O câncer de pulmão causa um elevado número de mortes por não apresentar sintomas na fase inicial. Geralmente os sinais e sintomas são confundidos com outras doenças. Quando presentes, podem incluir tosse persistente, falta de ar, dor no tórax, cansaço, presença de sangue no escarro e perda de peso sem causa aparente. 

O rastreamento pela tomografia anual de tórax de baixa dose
radiação auxilia no diagnóstico precoce e na cura da doença

“Então, você junta a ausência de diagnóstico no início da doença a um tumor agressivo, obtendo assim uma fórmula mortal”, pondera Lucianno Santos. Muitos pacientes apenas procuram assistência quando surgem sintomas mais intensos, o que pode ocorrer em fases mais avançadas da doença. 

Desde 2024, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem recomendam a realização anual de tomografia computadorizada de tórax de baixa dose por pessoas entre 50 e 80 anos, fumantes ou ex-fumantes (que deixaram há menos de 15 anos) e com carga tabágica igual ou superior a 20 anos-maço. O cálculo da carga equivale à multiplicação do número de maços fumados por dia pelo número de anos de tabagismo. Por exemplo, se uma pessoa fumou 40 cigarros por dia (dois maços) durante 20 anos, a carga tabágica é de 40 anos-maço (2 x 20). 

Segundo o oncologista Lucianno Santos, esse tipo de rastreamento é muito eficiente. “Durante a pandemia, muitos fumantes e não fumantes descobriram casos iniciais de câncer, porque fizeram tomografia de urgência em razão da COVID-19”, lembra o especialista. Apesar disso, esse protocolo não é totalmente aplicado por vários motivos: falta de informação correta, resistência do paciente em fazer o exame e ausência de infraestrutura do sistema de saúde, principalmente na rede pública, para atender a todo o público-alvo. 

Em abril de 2026, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) anunciou que realizará um estudo para implantar um programa de rastreamento de câncer de pulmão no Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é avaliar a viabilidade do rastreamento na rede pública e produzir evidências para a elaboração de uma futura diretriz nacional.
 

Tratamento e prevenção

O tratamento do câncer de pulmão está entre as terapias que mais evoluíram na Oncologia. O avanço do estudo da biologia molecular dos tumores permitiu identificar diversos subtipos moleculares desta neoplasia. As alterações genéticas podem orientar tratamentos personalizados. O câncer de pulmão de não pequenas células representa 85% dos casos. Seus subtipos são o adenocarcinoma, o carcinoma de células escamosas e o carcinoma de grandes células. 

O médico define a terapia considerando o estágio da doença e as características celulares do tumor. As opções mais tradicionais são cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Nas últimas décadas, foram incorporadas terapias mais seletivas para determinados perfis moleculares, como a imunoterapia, a terapia-alvo molecular e os anticorpos conjugados a fármacos. 

Lucianno Santos considera o tratamento de câncer avançado muito oneroso. “Por isso temos de concentrar esforços para prevenir a iniciação ao tabagismo. Em um mundo sem tabaco, haveria uma redução muito expressiva dos casos de câncer de pulmão, além da diminuição importante da incidência de tumores de cabeça e pescoço, bexiga e diversas outras neoplasias relacionadas ao tabagismo”, ressalta. 

Ele entende que essa iniciativa deve ser abraçada por toda a sociedade civil, incluindo as empresas, as escolas e as famílias. A meta seria combater o tabaco e os cigarros eletrônicos. Hoje fumar vapes se tornou moda entre os jovens, que se sentem atraídos pelo design moderno, essências adocicadas de frutas e pesadas estratégias de marketing digital. 

Por trás deste mercado sedutor, estão aparelhos nada inofensivos: causam dependência, expõem os usuários a substâncias tóxicas e estão associados a lesões pulmonares e outros danos respiratórios e cardiovasculares.

Como os cigarros eletrônicos são relativamente recentes, seus efeitos carcinogênicos de longo prazo ainda estão sendo estudados. “Mas em alguns lugares do país, o vape está levando ao tabagismo”, aponta o oncologista. Na sua opinião, em breve poderá ocorrer um aumento expressivo de doenças pulmonares relacionadas ao uso de cigarros eletrônicos.

 

Oncologia D'Or opera

 Referências

1. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Atlas On-line de Mortalidade por Câncer.

2. Instituto Nacional de Câncer. Câncer de pulmão: versão para a população. Atualização de 2026.

3. Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM.

4. Malta DC, Abreu DMX, Moura L, et al. Tendência de mortalidade por câncer de pulmão em diferentes contextos urbanos do Brasil, 2000-2015. Epidemiol Serv Saúde. 2019;28(3).

5. Malta DC, Moura L, Souza MFM, et al. Lung cancer, cancer of the trachea, and bronchial cancer: mortality trends in Brazil, 1980-2003. J Bras Pneumol. 2007;33(5):536-543.

6. Souza MC, Vasconcelos AGG, Cruz OG. Trends in lung cancer mortality in Brazil from the age-period-cohort perspective. Cad Saúde Pública.

7. Araújo LH, Baldotto C, Castro G Jr, et al. Lung cancer in Brazil. J Bras Pneumol. 2018;44(1):55-64.

8. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Projeções da população brasileira.

9. Resumo apresentado no Journal of Clinical Oncology sobre mortalidade brasileira por câncer de pulmão, 2004-2023.

10. Centers for Disease Control and Prevention. United States Cancer Statistics: 2004 Incidence and Mortality. Atlanta: CDC; 2007.

11. American Lung Association. Lung Cancer Deaths and Rates by Race, Sex and Year. Chicago: ALA; atualização de 2023.

12. American Cancer Society. Cancer Facts & Figures 2026. Atlanta: American Cancer Society; 2026.

13. Howlader N, Forjaz G, Mooradian MJ, et al. The effect of advances in lung-cancer treatment on population mortality. N Engl J Med. 2020;383: 640-649. doi:10.1056/NEJMoa1916623.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados