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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Do 14-bis às rotas que conectam o país, 120 anos transformaram a relação do Brasil com as distâncias

 

Em 23 de outubro de 1906, Alberto Santos-Dumont percorreu cerca de 60 metros a bordo do 14-bis, no Campo de Bagatelle, em Paris, em uma demonstração pública que se tornou um dos grandes marcos da história da aviação. Cento e vinte anos depois, o contraste ajuda a dimensionar a velocidade dessa transformação: em 2026, somente nos cinco primeiros meses do ano, a aviação brasileira movimentou 54,9 milhões de passageiros em voos domésticos e internacionais, alta de 6,7% sobre o mesmo período de 2025 e recorde para o intervalo na série histórica da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). 

Entre o voo experimental do início do século XX e a atual rede de aeroportos e rotas comerciais, a aviação passou por sucessivos avanços em capacidade das aeronaves, navegação, segurança, infraestrutura e eficiência operacional. No Brasil, essa evolução assumiu uma dimensão particular. Em um território continental, o avião permitiu reduzir para poucas horas deslocamentos que antes poderiam exigir dias de viagem e ampliou as conexões entre capitais, cidades do interior e regiões com limitações de acesso terrestre. 

De acordo com a Fundação Memória do Transporte (FuMTran), a trajetória da aviação mostra como uma inovação inicialmente experimental passou a interferir diretamente na integração econômica e territorial do país. Regiões da Amazônia e do interior são exemplos de localidades onde as grandes distâncias e as características geográficas deram ao transporte aéreo uma função especialmente relevante. 

“Em 1906, o desafio era demonstrar que uma aeronave poderia levantar voo e percorrer uma distância de forma controlada. Hoje, discutimos como transportar milhões de pessoas com segurança, eficiência e regularidade entre regiões separadas por milhares de quilômetros. Em apenas 120 anos, a aviação mudou completamente a nossa relação com o tempo e com as distâncias”, afirma Antonio Luiz Leite, presidente da FuMTran. 

Apesar desse avanço, a conectividade aérea ainda apresenta diferenças significativas pelo território. A próxima etapa passa principalmente pelo fortalecimento da aviação regional e pela modernização de aeroportos capazes de atender cidades afastadas dos grandes centros. Para o ciclo de 2026 e 2027, o Ministério de Portos e Aeroportos estruturou uma carteira de aproximadamente R$ 1,8 bilhão para 31 aeroportos em 16 estados. Desse montante, cerca de R$ 250 milhões estão direcionados a empreendimentos em regiões remotas e na Amazônia Legal. 

A Região Norte concentra parte desse desafio. O planejamento federal prevê aproximadamente R$ 672,4 milhões em investimentos aeroportuários na região no ciclo 2026/2027, contemplando terminais situados em áreas nas quais o transporte aéreo exerce papel estratégico para a circulação de pessoas, serviços e atividades econômicas. 

Para Leite, ampliar essa rede será tão importante quanto acompanhar as novas transformações tecnológicas do setor. “A história da aviação sempre esteve ligada à capacidade de superar limites. Agora, o desafio é fazer com que infraestrutura, tecnologia e novos modelos de operação contribuam para conectar mais cidades, especialmente onde outros meios de transporte encontram maiores dificuldades. A evolução precisa continuar aproximando regiões e ampliando oportunidades de desenvolvimento”, destaca. 

Os próximos capítulos dessa história também deverão ser marcados pela digitalização, por aeronaves mais eficientes e pela busca por redução das emissões. Para a FuMTran, assim como os avanços do século passado transformaram uma experiência pioneira em um sistema de transporte de alcance global, as tecnologias desenvolvidas atualmente poderão determinar como a aviação conciliará crescimento, conectividade e sustentabilidade nas próximas décadas.

A FuMTran – Fundação Memória do Transporte nasceu em março de 1996, instituída pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), com a missão de preservar e divulgar a memória, a história e a cultura do transporte brasileiro em todas as modalidades. Seus objetivos envolvem organizar, preservar e tornar acessíveis os registros históricos da atividade dos transportes. A entidade tem, ainda, a missão de contribuir para a manutenção do patrimônio histórico-cultural do Brasil por meio da conservação da memória e da cultura do transporte brasileiro em todos os modais – rodoviário, ferroviário, aquaviário e aeroviário –, seja de carga ou de passageiros, mais a infraestrutura e a logística, tornando-os acessíveis à população. O projeto de memória, acervo e portal é perene, um processo contínuo, um trabalho sem fim.


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