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| Fonte: Imagem gerada por inteligência artificial (IA). |
O Hospital do GRAACC desenvolveu metodologia inédita para rastrear material genético do retinoblastoma no sangue e outros fluidos corporais de crianças em tratamento. A pesquisa é a primeira a estabelecer um modelo completo e de alta precisão baseado em RNA para o monitoramento dinâmico deste tumor, que é o câncer de olho mais comum na infância. Os cientistas usaram tecnologia diagnóstica ultrassensível para encontrar resíduos tão mínimos da doença que não são visíveis em exames convencionais realizados com microscópio. Com estas informações, é possível acompanhar com mais agilidade a atividade do câncer, detectar se houve disseminação para outras partes do corpo e, até mesmo, antever recidivas (o retorno da doença). Isso abre caminho para intervenções e ajustes terapêuticos cada vez mais precoces, em busca de mais qualidade de vida e maiores chances de cura. Os resultados promissores da pesquisa foram publicados de forma inédita no periódico científico Internacional Journal of Molecular Sciences.
Para identificar os vestígios genéticos da doença, os cientistas analisaram 433 amostras de 50 crianças com retinoblastoma, obtidas por meio de biópsia líquida. Trata-se de um exame que se vale da coleta de fluidos - no caso, sangue, líquor e medula óssea - para um monitoramento minimamente invasivo de tumores sólidos por meio de seu DNA, RNA ou células em circulação, sem a necessidade de cortes no local para retirada de tecidos, como ocorre na biópsia tradicional. “O uso da técnica é fundamental porque a biópsia direta do tumor no olho é contraindicada, devido ao risco de espalhar as células cancerígenas para fora do globo ocular, o que pode levar ao desenvolvimento de tumores em outros órgãos”, explica dra. Carla Macedo, oncologista pediátrica do Hospital do GRAACC e uma das autoras do estudo.
O material coletado foi processado por meio do PCR digital, teste molecular de alta sensibilidade, em busca de fragmentos de RNA derivados do tumor. “Procuramos pelo RNA que é produzido por dois genes da retina: CRX e RBP3. Como o retinoblastoma nasce na retina, as células tumorais mantêm essa identidade e, portanto, liberam o mesmo RNA”, conta dra. Carla. Em crianças saudáveis, esse material genético específico só existe dentro do olho. Fora dele, funciona como uma impressão digital do câncer. “Essa abordagem é um grande diferencial, já que a literatura científica sobre biópsia líquida relacionada a retinoblastoma costuma focar em alterações de DNA. Escolhemos estudar o RNA porque ele permite observar de forma muito mais precisa como o câncer está se comportando e respondendo ao tratamento naquele exato momento”, frisa a oncopediatra.
Com a biópsia líquida, os pesquisadores conseguiram detectar sinais moleculares do tumor em pelo menos 32 das 50 crianças participantes. O estudo também destaca a precisão do teste na medula óssea, onde foram identificados rastros do câncer em 27 amostras que o exame de microscópio (mielograma) havia considerado normais, provando que a técnica molecular é muito mais sensível.
O modelo estabelece um novo padrão de vigilância do tumor. “Ao
sermos capazes de identificar traços genéticos do retinoblastoma nos fluidos
corporais dos pacientes, podemos tomar decisões terapêuticas mais
personalizadas e precoces”, afirma dra. Carla. A especialista destaca que a
presença do RNA tumoral circulante no corpo das crianças indica diferentes
condições, a depender do estágio do tratamento. “No início, pode ajudar a saber
se o câncer já saiu do olho e se disseminou. Durante a quimioterapia, mostra
que ainda há resíduos da doença, sendo necessário continuar ou intensificar as
sessões. Em testes de acompanhamento após o organismo se mostrar livre do
tumor, são um sinal de alerta de que ele pode retornar. Neste caso, aumentamos
a frequência dos exames periódicos com a finalidade de detectar o quanto antes
uma possível recidiva e reiniciar o tratamento imediatamente”.

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