Perda de controle e prejuízos na rotina estão entre os principais sinais que indicam necessidade de acompanhamento profissional
As apostas on-line ganharam espaço na rotina de milhões de brasileiros e, para algumas pessoas, o comportamento pode deixar de ser ocasional e passar a provocar prejuízos financeiros, emocionais e familiares. A ludopatia, ou transtorno do jogo, é caracterizada pela dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de consequências negativas.
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde ajudam a dimensionar o problema. Em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam realizado algum tipo de aposta nos 12 meses anteriores à pesquisa, e 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático. Para Ricardo Patitucci, psiquiatra e diretor técnico da ViV Saúde Mental e Emocional, a atenção não deve estar apenas na quantidade de dinheiro envolvida, mas principalmente na perda de controle sobre o comportamento.
“Um
dos sinais importantes é quando a pessoa começa a apostar mais do que
pretendia, tenta parar e não consegue ou passa a organizar parte da rotina em
função das apostas. O prejuízo financeiro costuma chamar mais atenção, mas
alterações no humor, ansiedade, irritabilidade, culpa e conflitos familiares
também fazem parte de um quadro que merece atenção”, explica Patitucci.
Por que pode
ser difícil parar
A dinâmica das apostas ajuda a explicar por que algumas pessoas têm dificuldade para interromper o hábito. Os resultados imprevisíveis e as recompensas intermitentes podem estimular a continuidade do jogo. No ambiente digital, recursos como apostas em tempo real, notificações, bônus e estímulos sucessivos favorecem a repetição desse comportamento.
Outro
sinal de alerta é tentar recuperar o dinheiro perdido com novas apostas. Essa
estratégia pode alimentar um ciclo de perdas, levando a pessoa a arriscar cada
vez mais na expectativa de reverter o prejuízo.
“Depois
de perder, a pessoa pode acreditar que uma nova aposta será suficiente para
recuperar o dinheiro. Quando essa lógica começa a se repetir, o comportamento
pode se tornar cada vez mais difícil de interromper”, afirma o especialista.
Sinais de
alerta vão além do jogo
Familiares
e pessoas próximas podem identificar mudanças antes mesmo que o apostador
reconheça o problema. Esconder gastos, recorrer frequentemente a empréstimos,
comprometer contas essenciais, mentir sobre as apostas ou demonstrar irritação
quando não consegue jogar são alguns dos indícios. Também merecem atenção as
alterações no sono e no humor, o afastamento de amigos e familiares, a queda no
desempenho profissional ou nos estudos e a perda de interesse por outras
atividades.
Segundo o especialista, esses sinais precisam ser avaliados em conjunto. “Um comportamento isolado não necessariamente indica dependência. O alerta aumenta quando existe perda de controle e as apostas começam a comprometer diferentes áreas da vida”, destaca.
Diante dessas mudanças, a recomendação é abordar o assunto com acolhimento, sem acusações. Conversar sobre a frequência das apostas, os valores gastos e os impactos na rotina podem ajudar a compreender a situação e incentivar a busca por acompanhamento profissional.
O
tratamento pode envolver acompanhamento psicológico e psiquiátrico, conforme as
necessidades de cada pessoa. “Não é preciso esperar que a pessoa perca tudo ou
chegue a uma situação extrema. Se as apostas já estão causando sofrimento
emocional, conflitos ou prejuízos financeiros, esse é um motivo suficiente para
procurar ajuda”, conclui Patitucci.
ViV Saúde Mental e Emocional
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