Voz, perfume, jeito de falar e até o ambiente da sala de aula podem permanecer associados às lembranças escolares por décadas; neurocientista explica como o cérebro constrói essas memórias
Você
talvez não se lembre de todas as matérias que aprendeu na escola, das notas que
tirou ou do que estava escrito no quadro em determinada aula. Mas pode se
lembrar perfeitamente da voz de um professor, de uma frase que ele repetia, do
perfume que usava ou até da sensação de entrar naquela sala. Essas lembranças
ajudam a mostrar que a passagem de um educador pela vida de um aluno pode
deixar registros que vão muito além do conteúdo ensinado.
Segundo
Daiana Petry, neurocientista e aromaterapeuta isso
acontece porque nossas memórias não são formadas apenas pelas informações
objetivas de uma experiência. O cérebro também registra elementos sensoriais e
emocionais daquele momento.
“Quando
pensamos na escola, muitas vezes não recuperamos uma lembrança como se
estivéssemos lendo um arquivo. Podemos lembrar da voz do professor, do cheiro
da sala, do som do sinal, da textura dos materiais e, principalmente, de como
nos sentíamos naquele ambiente. Todos esses elementos podem participar da
construção daquela memória”, explica.
Por que ainda conseguimos “ouvir” a voz de um professor?
Há
pessoas que, décadas depois de deixar a escola, conseguem imaginar com clareza
um antigo professor dizendo determinada frase ou chamando seu nome.
Daiana
explica que sons e características da fala também podem ficar associados às
experiências vividas. A repetição tem papel importante: durante meses ou anos,
o aluno escuta aquela mesma voz, com determinado ritmo, entonação e expressões.
“Uma
frase repetida muitas vezes pode ficar tão associada àquela pessoa que, quando
lembramos dela, quase conseguimos reproduzir mentalmente a maneira como era
dita. Não significa que exista uma gravação perfeita armazenada no cérebro. A
memória é reconstruída, mas determinados elementos sensoriais podem funcionar
como pistas muito poderosas para essa reconstrução”, afirma.
Cheiros também podem nos levar de volta à escola
O
olfato é outro caminho capaz de despertar recordações antigas. O cheiro de
livros, lápis, madeira, merenda, produtos usados na limpeza da escola ou o
perfume de um professor pode, anos mais tarde, trazer uma lembrança
aparentemente esquecida.
“O
olfato mantém relações muito próximas com sistemas cerebrais envolvidos na
emoção e na memória. Por isso, às vezes sentimos um cheiro e a lembrança
aparece antes mesmo de conseguirmos explicar conscientemente de onde conhecemos
aquele aroma”, explica Daiana.
É
o famoso momento em que alguém sente determinado cheiro e pensa imediatamente:
“Isso tem cheiro da minha escola” ou “Minha professora usava esse perfume”.
Emoção ajuda a explicar por que alguns professores nunca são esquecidos
Mas
não são apenas os estímulos sensoriais que fazem determinados educadores
permanecerem na memória.
Um
professor pode estar associado ao momento em que uma criança finalmente
conseguiu aprender algo que parecia impossível, recebeu um elogio importante,
sentiu-se acolhida diante de uma dificuldade ou descobriu uma habilidade que
nem sabia que possuía.
Da
mesma maneira, experiências negativas também podem permanecer por muito tempo.
“Quando
uma experiência tem significado emocional, ela tende a ganhar relevância para o
cérebro. Por isso, muitas vezes não lembramos apenas do professor, mas da
sensação que tínhamos perto dele: segurança, admiração, curiosidade, medo,
vergonha, pertencimento ou confiança”, explica a neurocientista.
É
por isso que duas pessoas que estudaram na mesma escola e tiveram os mesmos
professores podem guardar lembranças completamente diferentes daquele período.
Ao
ensinar, o professor não transmite apenas informações. Sua voz, expressões,
gestos, maneira de acolher uma dúvida e até pequenos hábitos cotidianos passam
a fazer parte de um ambiente que acompanha etapas importantes do
desenvolvimento.
“Podemos
esquecer uma fórmula, uma data ou uma página inteira do livro, mas lembrar por
décadas de um professor que nos fez sentir capazes. Isso mostra como
aprendizagem, sentidos e emoção podem caminhar juntos na construção das nossas
memórias”, conclui Daiana Petry.
Daiana Petry - Aromaterapeuta, perfumista botânica, naturóloga e especialista em neurociência. Professora dos cursos de formação em aromaterapia, perfumaria botânica e psicoaromaterapia. Autora dos livros: Psicoaromaterapia, Cosméticos sólidos e Maquiagem ecoessencial. Fundadora da Harmonie Aromaterapia.
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@daianagpetry
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