Cada vez mais presente nas rotinas de autocuidado, a raspagem da língua é uma prática milenar do Ayurveda; Nina Habib, terapeuta ayurvédica e fundadora da Taila Veda, explica por que o primeiro olhar do dia pode ser para a própria língua
A raspagem da língua tem ganhado cada vez mais
espaço nas rotinas de autocuidado. O hábito parece simples: acordar, observar a
língua e passar delicadamente um raspador sobre sua superfície antes de comer
ou beber. Mas, no Ayurveda, essa prática existe há milhares de anos e faz parte
de uma compreensão mais ampla sobre digestão, rotina e observação do corpo.
Para entender por que o Ayurveda recomenda raspar a
língua pela manhã, é preciso voltar algumas horas.
Enquanto dormimos, o corpo continua trabalhando. Na
visão do Ayurveda, a noite também é um período em que seguem acontecendo
processos de digestão, transformação e eliminação relacionados ao que foi
consumido e vivido ao longo do dia. Ao acordar, um dos lugares tradicionalmente
observados é justamente a língua.
“Eu sempre explico que a língua pela manhã conta uma
parte da história daquilo que aconteceu durante a noite. Por isso, antes de
tomar água, café, chá ou comer qualquer coisa, eu gosto de olhar para ela”,
explica Nina Habib.
Durante esse período, também pode se formar sobre a
língua uma camada conhecida como saburra. Na odontologia, ela é explicada pelo
acúmulo de células descamadas, resíduos e microrganismos. No Ayurveda, a
presença e as características dessa camada são observadas dentro de uma leitura
mais ampla dos processos digestivos e de transformação do organismo.
É aqui que entra um conceito
importante da tradição: Ama
Na visão do Ayurveda, quando aquilo que recebemos
não é adequadamente digerido e transformado, podem permanecer resíduos desse
processo. Ama é o conceito utilizado pela tradição para falar desse material
não adequadamente processado. A língua é um dos lugares observados pelo
Ayurveda quando se investiga a presença dessas características.
Isso não significa que toda saburra seja Ama ou que
os dois termos sejam sinônimos. São explicações pertencentes a sistemas
diferentes. O que o Ayurveda propõe é observar a língua como uma das pistas disponíveis
para compreender como os processos de digestão e transformação estão
acontecendo.
“Por isso eu não ensino apenas a raspar. Eu ensino
primeiro a olhar. Como está a língua hoje? Tem camada? Quanto? Qual é a
aparência? Está diferente de ontem? Quando você observa todos os dias, começa a
conhecer aquilo que é habitual no seu próprio corpo”, afirma Nina.
Por que raspar antes de comer
ou beber?
Depois de observar, vem a raspagem. A lógica é
retirar delicadamente o material que se acumulou sobre a língua durante a noite
antes de começar um novo dia de alimentação.
A prática é conhecida como Jihwa Prakshalana, ou
raspagem da língua, e tradicionalmente é realizada pela manhã. O raspador deve
ser passado da região posterior em direção à ponta da língua, de maneira suave,
repetindo o movimento algumas vezes. Não é necessário pressionar com força.
Dor, ferimentos ou sangramento não fazem parte de uma raspagem adequada.
Depois, o raspador deve ser lavado e a rotina de
higiene bucal continua normalmente.
Do ponto de vista da saúde bucal, a raspagem pode
auxiliar na remoção da saburra e complementar a limpeza da língua. Na rotina
ayurvédica, ela ganha ainda outro significado: observar e remover aquilo que se
acumulou antes de começar novamente a receber alimentos.
Por que cobre?
O Ayurveda descreve diferentes materiais para a
higiene da língua, e o cobre é um dos metais tradicionalmente utilizados.
Além de sua presença histórica nessas práticas, o
cobre é um material resistente, reutilizável e apresenta propriedades
antimicrobianas em sua superfície. Quando higienizado e conservado
adequadamente, um raspador de cobre pode ser utilizado por muitos anos.
Essa durabilidade também foi um dos motivos para a
escolha da Taila Veda. Em vez de transformar uma prática diária em mais um
objeto plástico que precisa ser substituído e descartado periodicamente, a
proposta é utilizar uma peça simples, lavável e de longa duração.
“Se eu estou falando de um hábito para a vida
inteira, faz sentido para mim pensar também no objeto que vai acompanhar esse
hábito. O cobre atravessa essa prática há muito tempo e, quando bem cuidado, é
uma peça que pode permanecer com você por anos”, explica Nina.
A raspagem não substitui a
higiene bucal
Depois da língua, a rotina continua. No Ayurveda,
os cuidados com a boca integram o Dinacharya, conjunto de práticas realizadas
diariamente. A higiene dos dentes e das gengivas também aparece nessa rotina e
tradicionalmente pode envolver diferentes plantas e especiarias.
Foi a partir dessa referência que a Taila Veda
desenvolveu seu Pó Dental Ayurvédico, o Dashan Sanskar Choorana, inspirado no
uso tradicional de ingredientes vegetais para o cuidado da boca. A fórmula
reúne amalaki, yashinadhu, gengibre, canela, neem, pimenta do reino e juá.
O neem, um dos ingredientes presentes na
formulação, é uma árvore originária do subcontinente indiano, de nome
científico Azadirachta indica, cujas diferentes partes são utilizadas
há séculos em práticas tradicionais na Índia.
A prática ayurvédica, porém, não substitui os cuidados
estabelecidos pela odontologia. Escovação adequada, uso de fio dental e
acompanhamento periódico com dentista continuam fundamentais. Dor, sangramento,
feridas, mau hálito persistente ou alterações na língua e nas gengivas precisam
ser avaliados por um profissional.
Para Nina, o ensinamento mais importante da
raspagem talvez aconteça antes mesmo de o raspador tocar a língua.
“Você acorda e, antes de receber qualquer coisa de fora, olha para o que
o seu corpo está mostrando. Depois limpa, escova os dentes e começa o dia.
Parece pequeno, mas é exatamente essa repetição que transforma um gesto em
cuidado”.
No Ayurveda, Dinacharya não precisa significar uma
manhã cheia de etapas. Muitas vezes, começa com poucos segundos diante do
espelho: olhar a língua, perceber o que mudou e cuidar daquilo que o corpo
apresenta naquele dia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário