Congresso Mundial
de Bioética e Direito Animal, realizado em Manaus, expõe uma lacuna da
legislação brasileira: embora o país avance no reconhecimento dos animais como
sujeitos de proteção, bilhões de animais submetidos aos sistemas de produção
continuam praticamente invisíveis na agenda política
Divulgação
Quando um país começa a reconhecer juridicamente
que animais sentem dor e sofrimento, uma pergunta inevitavelmente aparece: o que esse
reconhecimento muda na prática?
Muda alguma coisa na forma como o Estado formula
suas políticas públicas? No orçamento? Na legislação? Na fiscalização? Na
maneira como produzimos alimentos?
Ou estamos apenas ampliando o vocabulário da
proteção animal sem mudar, de fato, as estruturas que determinam a vida — e a
morte — de bilhões de animais?
Essa foi uma das questões que surgiram do X
Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal, realizado em Manaus entre 2 e 7
de setembro, sob o tema “Direito Animal Mundial Pós-COP30”. O encontro reuniu
pesquisadores, médicos veterinários, juristas e especialistas para discutir a
relação entre Direito Animal, clima, biodiversidade, políticas públicas e
justiça.
“O X Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal
é a concretização da construção de um espaço acadêmico para a discussão, a
difusão e a construção do Direito Animal. Renomados palestrantes do Brasil e do
exterior estiveram presentes e nos brindaram com importantes reflexões. Foi uma
grande responsabilidade e uma grande honra realizar o congresso em
Manaus", afirma Denison Melo de Aguiar, Professor da Universidade do
Estado do Amazonas (UEA) e Presidente do X Congresso Mundial de Bioética e
Direito Animal.
E um dado apresentado durante o congresso chamou a
atenção: das 35 proposições legislativas relacionadas à proteção animal
apresentadas no levantamento de Arthur Regis, especialista em Políticas
Públicas da Sinergia Animal, apenas três eram voltadas aos animais ditos de
produção. Ou seja: menos de 1 em cada 10 proposições.
“Esse dado é importante, pois demonstra a forma
como a matéria é percebida pelos congressistas, refletindo, posteriormente, o
quantitativo de projetos de lei em tramitação”, explica Arthur Regis,
Especialista em Políticas Públicas da Sinergia Animal.
O Brasil está avançando. Mas
está avançando para quem?
O levantamento apresentado por Arthur Regis
demonstra quatro aprovações legislativas recentes relacionadas à proteção
animal: a criação do Julho Dourado; a Política de Acolhimento e Manejo de
Animais Resgatados (AMAR); a regulamentação da custódia compartilhada de
animais de estimação após a dissolução de relacionamentos; e a proibição da
alimentação forçada de animais para produção de alimentos como foie gras.
A última, inclusive, tornou-se a Lei nº
15.475/2026, que proíbe a produção e comercialização de produtos alimentícios
obtidos por método de alimentação forçada de animais (que ficou popularmente
conhecida como a lei de proibição ao foie gras).
São avanços importantes.
Mas se já reconhecemos que a proteção animal
precisa chegar à legislação, por que ela ainda chega de forma tão desigual aos
animais submetidos aos sistemas de produção?
No levantamento apresentado no evento científico,
as proposições estavam distribuídas entre cinco grandes grupos: proteção geral
e mudanças jurídicas; maus-tratos e responsabilização penal; animais
comunitários, cães e gatos; educação; e animais ditos de produção.
Foram 15 projetos sobre maus-tratos e responsabilização
penal. Cinco sobre animais comunitários, cães e gatos. Sete sobre educação.
Cinco sobre mudanças jurídicas gerais. E apenas três sobre animais de produção.
Não se trata de estabelecer uma hierarquia, mas
reconhecer uma assimetria política.
E quem representa os
interesses desses animais?
Cães e gatos possuem tutores, organizações
dedicadas, forte vínculo afetivo com a população e crescente reconhecimento
jurídico.
Animais silvestres têm sua proteção associada à
conservação da biodiversidade.
Mas e os animais que nascem, vivem e morrem dentro
de sistemas de produção? Porcos. Galinhas. Vacas. Peixes. Perus. Patos.
Eles estão entre os animais mais numerosos e mais
diretamente afetados pelas decisões econômicas, regulatórias e ambientais do
Estado, mas continuam sendo frequentemente tratados, inclusive juridicamente,
antes como unidades de produção do que como indivíduos sencientes.
“É preciso refundar a relação dos seres humanos com
todos os outros animais, especialmente com os animais ditos de produção. Não
subsiste fundamento para a manutenção de inúmeras práticas utilizadas pelo
agronegócio” – Arthur Regis, Especialista em Políticas Públicas da Sinergia
Animal
Essa é uma das fronteiras que o debate
contemporâneo sobre Direito Animal começa a enfrentar. E ela não é apenas
ética, é também uma questão de política pública.
O próprio programa do congresso dedicou uma mesa à
relação entre carne, clima, constituição, pecuária e emergência climática,
colocando os sistemas de produção animal dentro de uma discussão que
tradicionalmente pertencia aos campos ambiental e econômico.
A crise climática também tem
vítimas animais, mas elas quase nunca aparecem na política climática
Esse talvez seja o ponto em que o debate de Manaus
ganha uma dimensão ainda maior.
Na abertura do congresso, o jurista Tagore Trajano
provocou justamente essa mudança de perspectiva: não basta falar de
biodiversidade ou de florestas de forma abstrata. É preciso olhar para o animal
como indivíduo.
“A pauta é integrar os elementos da natureza —
clima, biodiversidade, florestas, água, povos e justiça — e entender que há um
elo fundamental ainda negligenciado nesse grande arcabouço: o animal
individualizado.”
A pergunta seguinte é inevitável: como formular uma
política climática que reconheça a perda de florestas, a degradação dos
ecossistemas e as emissões de gases de efeito estufa, e considere adequadamente
os animais que sofrem as consequências dessas transformações?
Secas, incêndios, enchentes, ondas de calor, perda
de habitat, poluição e eventos climáticos extremos não atingem apenas “a
biodiversidade”. Atingem indivíduos.
E essa mudança de linguagem importa porque aquilo que
uma política pública consegue enxergar também é aquilo que ela consegue
proteger.
Reconhecer a senciência precisa
ter consequências
É aqui que o Direito Animal encontra a política
pública. Reconhecer que animais são seres sencientes não pode ser apenas uma
afirmação filosófica ou jurídica.
Se um animal é sujeito de experiências positivas e
negativas (sente dor, sofrimento e medo etc.), esse fato deveria produzir
consequências na formulação das políticas que determinam sua existência.
Na legislação. Na fiscalização. Nos protocolos de
emergência. Nos sistemas de produção. Nos critérios de financiamento público.
Na educação. Nas políticas ambientais e climáticas.
E eu me pergunto: onde estão as políticas públicas
capazes de enfrentar, em escala, as condições de vida dos animais dentro dos
sistemas alimentares?
A produção animal é atravessada por decisões
públicas relacionadas à agricultura, meio ambiente, crédito, comércio exterior,
segurança alimentar, fiscalização sanitária, pesquisa, inovação e
desenvolvimento econômico. O bem-estar dos animais muitas vezes aparece como
uma questão secundária, separada dessas agendas.
Isso precisa mudar. Porque a política de produção
de alimentos também é política animal. A política climática também é política
animal. A política de biodiversidade também é política animal.
Precisamos mudar o lugar dos
animais dentro do Estado
Esse talvez seja o principal legado político do
congresso de Manaus.
A construção de um debate que questiona um Estado
que produz políticas que ignoram sistematicamente os interesses dos animais.
Isso significa sair da lógica de respostas pontuais
para maus-tratos e começar a discutir estrutura, orçamento, governança, fiscalização,
representação política e desenho de políticas públicas.
É nesse ponto que o advocacy
animalista ganha relevância.
A apresentação de Arthur Regis no congresso tratou
o advocacy
como uma ferramenta de organizações da sociedade civil para influenciar a
formulação e implementação de políticas públicas, especialmente as que se
referem aos animais ditos de produção.
“O X Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal
foi um encontro de águas. Foi um centro de realidades diferentes que acabaram
se misturando e se tornando um único rio. A troca de experiências e
conhecimento, e mais importante, a troca de vivências. A Amazônia em sua
grandiosidade e os animais que estão em seu próprio habitat, mostram uma vida
pulsante, que rompe alguns conceitos. – Denison Melo de Aguiar, Professor da Universidade
do Estado do Amazonas e Presidente do X Congresso Mundial de Bioética e Direito
Animal.
Para a Sinergia Animal, essa agenda é especialmente
importante porque os animais ditos de produção estão justamente onde direito,
economia, política e sistemas alimentares se encontram.
A pergunta que fica depois de
Manaus
A Carta de Manaus, construída ao final do
congresso, aponta para uma ampliação dessa agenda ao defender a integração
entre Direito Animal, Direito Ambiental e Direito Climático e ao propor que o
sofrimento dos animais seja considerado nas políticas de adaptação às mudanças
climáticas.
“A Carta de Manaus traz elementos que necessitam de
atenção, desenvolvimento e implantação por parte do Estado e da sociedade,
visando a construção de um futuro mais ético, justo e sustentável para todos os
seres vivos”. – Nina Disconzi, Professora da Universidade Federal de Santa Maria
(UFSM) e Presidente do Instituto Abolicionista Animal (IAA).
Mas talvez a principal contribuição do encontro não
esteja em mais um documento, mas na pergunta que ele deixa para governos,
congresso, empresas e sociedade: se já sabemos que os animais são seres sencientes,
são sujeitos, por quanto tempo ainda vamos aceitar políticas públicas que
tratam seus interesses como exceção?
O Brasil já começou a reconhecer os animais na lei.
O próximo passo é reconhecer os animais na política.
E isso significa dar visibilidade a quem continua
invisível nas políticas que estamos criando.
Cristina Diniz - diretora-geral da Sinergia Animal
Brasil
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