Experimentos com diferentes espécies comprovam que a capacidade de acumular alcaloides a partir de suas presas não surgiu de um salto evolutivo, mas em estágios distintos de adaptação fisiológica
A capacidade das
rãs venenosas de acumular toxinas a partir dos pequenos invertebrados que
ingerem não surgiu de forma repentina na história evolutiva, mas sim por meio
de um processo de adaptação gradual e contínuo. É o que demonstra um
estudo publicado em março na revista Proceedings of
the Royal Society B.
Ao administrar dietas
controladas a diferentes espécies de anfíbios, os cientistas comprovaram a
existência de "estágios intermediários" na natureza, ou seja,
espécies que conseguem reter apenas traços de alcaloides – toxinas de origem
natural presentes em insetos e aracnídeos – sem sofrer intoxicação. O achado
ajuda a desvendar de que maneira a evolução moldou uma das estratégias de
sobrevivência mais fascinantes do mundo animal, revelando como esses anfíbios
deixaram de apenas tolerar o veneno na digestão para transformá-lo em uma
verdadeira arma de defesa.
Há tempos, a
biologia tenta entender como essas pequenas rãs coloridas da família
Dendrobatidae adquiriram esse "superpoder". Na natureza, elas se
alimentam de formigas e ácaros repletos de alcaloides, que seriam letais para a
maioria dos animais. Para transformar a própria refeição em um escudo contra
predadores, a rã precisa de um mecanismo biológico triplo: ingerir o veneno sem
adoecer, transportá-lo intacto do sistema digestivo para a pele e, por fim,
armazená-lo em suas glândulas.
“A grande pergunta
do nosso trabalho foi como essa capacidade evoluiu. Para sequestrar os
alcaloides é preciso um mecanismo de resistência para ingerir sem se intoxicar.
Além disso, são necessários mecanismos de transporte, para levar as toxinas do
sistema digestório para a pele. E ainda algum mecanismo para não degradar os
alcaloides, mantê-los intactos na pele”, conta Adriana Jeckel, primeira autora do artigo. “Deve ter havido
vários passos para a evolução de um fenótipo que não sequestra para o que
sequestra e mesmo modifica os alcaloides.”
Para mapear como
essa engenharia fisiológica se formou, os pesquisadores levaram o cardápio
tóxico para o laboratório. Eles forneceram doses controladas de alcaloides
sintéticos para diferentes espécies de rãs – desde aquelas conhecidas por sua
toxicidade letal até parentes mais distantes que não possuem essa defesa. O
objetivo era rastrear qual seria o destino das toxinas no fígado, na pele e nas
fezes dos animais após semanas de testes.
A investigação foi conduzida durante o doutorado de Jeckel no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) com bolsa da FAPESP. O trabalho integra dois outros projetos (12/10000-5 e 18/15425-0) apoiados pela Fundação e coordenados por Taran Grant, professor do IB-USP que também assina o trabalho. Também participaram cientistas do Instituto Butantan e de universidades dos Estados Unidos e do Japão.
Os resultados
revelaram que a evolução dessas defesas ocorreu em pelo menos quatro grandes
etapas. O primeiro estágio é o de animais como a rã Dryophytes cinereus,
que não acumula toxinas. O organismo dessa espécie atua como um excelente
filtro: ele metaboliza e elimina o veneno de forma tão eficiente que quase
nenhum traço da substância chega a ser retido na pele.
Em seguida, surge o
estágio intermediário, ilustrado pela rã Allobates femoralis. Essa
espécie consegue ingerir os alcaloides em segurança e chega a armazenar uma
quantidade mínima na pele, embora ainda degrade ativamente a maior parte do
composto ingerido. A ausência de toxinas intactas nas fezes ou nos órgãos
internos comprova que o organismo dessas rãs consegue neutralizar a ameaça.
“A ausência de
alcaloides nos tecidos de Allobates e nas fezes de todas as
espécies mostra que, de alguma forma, elas estão metabolizando essas toxinas.
Mesmo quando não acumulam, possuem mecanismos muito eficientes do ponto de
vista evolutivo para não se intoxicar”, diz Jeckel.
O grande salto
biológico acontece com as verdadeiras rãs-de-veneno, como as espécies Adelphobates
galactonotus e Dendrobates tinctorius. Elas representam o
terceiro estágio evolutivo (o fenótipo sequestrador). Em vez de apenas se
protegerem do veneno, elas o capturam, acumulando na pele de 10 a 100 vezes
mais alcaloides do que as espécies dos grupos anteriores.
Mas o requinte da
natureza vai ainda mais longe. O estudo comprovou que algumas espécies,
como Dendrobates auratus e Ranitomeya ventrimaculata,
não apenas sequestram as toxinas, mas atuam como verdadeiras engenheiras
químicas. Classificadas no quarto estágio evolutivo (fenótipo sequestrador e
modificador), elas alteram a estrutura molecular dos alcaloides ingeridos – por
meio de reações como hidroxilação e metilação. Essa "reciclagem"
bioquímica pode tornar as substâncias ainda mais ativas ou facilitar seu
armazenamento seguro nas glândulas da pele.
“Essas modificações
podem ser necessárias para que acumulem os alcaloides. Do contrário, as
substâncias originais ingeridas poderiam ser tóxicas ou se degradar no
organismo”, diz Grant.
Essas descobertas
trazem uma nova perspectiva para a biologia evolutiva. Elas indicam que o
sequestro de veneno não foi fruto de um "salto evolutivo" acidental.
Aos poucos, a evolução reescreveu a fisiologia metabólica das rãs,
transformando um mecanismo básico de desintoxicação em uma das estratégias de
sobrevivência mais sofisticadas das florestas tropicais.
O artigo Experimental
evidence supports gradual evolution of alkaloid sequestration in poison frogs pode
ser lido em: royalsocietypublishing.org/rspb/article/293/2067/20253144/480951/.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/estudo-detalha-evolucao-gradual-das-defesas-quimicas-em-ras-venenosas/59124


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