O sinal de alerta está aceso, a saúde de seres
humanos tem gritado por socorro! Será que estamos sabendo ouvir? Segundo dados
de Relatórios do Observatório de Atenção Primária (Nações Unidas e Unicef),
somente no Brasil cerca de 26% da população adulta relata sofrer de ansiedade;
quase 13% possuem diagnóstico de depressão; somando-se a outros transtornos, no
ano passado nosso país registrou mais 500 mil afastamentos do trabalho formal,
um aumento de 134% em relação aos anos anteriores. Vale notar que não se trata
de um problema entre os adultos, pois 1 em cada 7 crianças e adolescentes no
país entre 10 e 19 anos convivem com alguma condição psicológica.
O cenário é preocupante e, justamente por isso,
exige de nós novas formas de olhar sobre o tema, se realmente estamos
comprometidos com soluções. Cultivamos uma sociedade esvaziada de valores
éticos básicos, endossando a competição e classificando desde muito cedo
vencedores e perdedores. O ponto é que esta lógica fracassou, e inclusive os
aclamados vencedores, estão abarrotando os consultórios em busca de ajuda. O
tratamento comum tem sido paliativo, pois nenhum remédio cura dor emocional e
isso não é novidade, tratar sintoma não é cura, é anestesia.
O que nomeamos como problema de Saúde Mental é o
reflexo de um adoecimento muito maior, há séculos seguimos a cartilha do
materialismo, exaltando quem é capaz de esconder seus sentimentos,
ridicularizando e infantilizando as dores da alma. A Era da Lógica sequestrou
nossa essência em nome da produtividade, do sucesso material, dos egos
envaidecidos e uma hora a conta iria chegar.
Se pais emocionalmente fragilizados podem
contribuir para o adoecimento dos filhos, o que esperar de uma sociedade que
enfrenta a mesma realidade? Estamos em meio ao colapso do paradigma da
racionalidade, a mente não suporta mais, o tecido humano não tem sido mais
capaz de sustentar esta trama. Cabe então a nós mudar o olhar, ir além da
mente, recolher todos os fragmentos que nos compõem para tornarmos a ser um.
Não é por acaso que diante à supervalorização da
lógica, da mente e da razão, surge desafios nos termos da Saúde Mental.
Transcender esta experiência não nega o valor de nenhuma conquista real, apenas
amplia o tema da saúde para o tamanho do ser humano integral que nós somos: do
corpo ao espírito, olhando a vida em sua inteireza, ampliando ao invés de
estreitar. Logo, a solução não está numa pílula mágica ou no próximo diagnóstico,
mas na compreensão e reconhecimento no emaranhado que nos colocou neste lugar e
como cada história registrou a ameaça sofrida.
Temos uma grande oportunidade em nossas mãos de
reescrevermos nossa própria história e encerrar séculos de dores. Detrás de
cada transtorno existe uma história. Não será fácil, mas, sem sombra de dúvidas,
é a tarefa que enquanto coletivo necessitamos realizar. Estamos sendo
praticamente forçados a expandir o nosso olhar à luz da consciência. Será que
seremos capazes de enxergar?
Kempes Macedo - terapeuta, Mestre em Educação no campo dos Direitos Humanos e Políticas Públicas e autor da obra A Ilusão, O Surto e a Verdade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário