Médico veterinário da WeVets comenta os impactos do abandono na saúde dos pets; animais em situação de rua têm chance 35% maior de apresentar doenças
Animais em situação de rua apresentaram chance 35% maior de
receber um diagnóstico de doença do que aqueles que viviam com tutores, segundo
um estudo brasileiro publicado em 2025 na revista científica Scientific
Reports. Entre os animais doentes, os quadros infecciosos responderam por
43,9% dos diagnósticos em gatos e 34,3% em cães.
Os dados ganham novo contexto após a Câmara dos Deputados aprovar,
na quarta-feira (12), o Projeto de Lei 25/2024, que cria punições específicas
para o abandono de animais com uso de veículos. O texto prevê a suspensão da
Carteira Nacional de Habilitação (CNH) por 18 meses quando a vítima for cão ou
gato e multa de R$ 2.934,70. Se o abandono resultar em morte, atropelamento ou
lesão, o valor poderá dobrar e chegar a R$ 5.869,40. A proposta segue para o
Senado e ainda não está em vigor.
O levantamento retrata um recorte marcado por uma crise
socioambiental que deslocou famílias e deixou animais para trás. Ainda assim,
ajuda a dimensionar os efeitos clínicos da perda de abrigo, alimentação,
proteção e acompanhamento veterinário. Entre os gatos, os diagnósticos mais
recorrentes incluíram o vírus da imunodeficiência felina (FIV) e o complexo
respiratório felino. Nos cães, destacaram-se a erliquiose e as doenças
parasitárias. Problemas dermatológicos, como infestações por ectoparasitas e
infecções de pele, apareceram nas duas espécies.
“O animal perde o acesso regular a água, alimento, abrigo,
vacinação, controle de parasitas e supervisão. Nas ruas, fica exposto a agentes
infecciosos, pulgas, carrapatos, intoxicações, brigas e atropelamentos.
Filhotes, idosos e pacientes com doenças crônicas podem descompensar mais
rapidamente porque têm menor capacidade de enfrentar essas mudanças”, explica o
médico veterinário Gustavo Jorge Gonçalves da WeVets.
O impacto também aparece nos indicadores de estresse. Em outro
estudo, publicado na revista Psychological Science, cães recém-admitidos em um
abrigo apresentaram, nos primeiros três dias, níveis de cortisol quase três
vezes superiores aos observados em animais avaliados dentro de casa. A pesquisa
não analisou cães abandonados nas ruas, mas registra a resposta fisiológica
provocada pela separação e pela entrada abrupta em um ambiente desconhecido.
“O estresse pode alterar o apetite, o sono e o comportamento, além
de dificultar o resgate, porque o animal assustado tende a fugir, se esconder
ou reagir por medo. O cortisol isoladamente não fecha um diagnóstico, mas ajuda
a mostrar que a retirada repentina do ambiente familiar e os desafios encontrados
na rua produzem uma resposta orgânica real”, afirma o especialista da WeVets.
Sinais
que exigem atendimento imediato
Mesmo sem ferimentos aparentes, um animal resgatado deve passar
por avaliação veterinária. Alguns traumas internos, quadros de desidratação e
doenças infecciosas não são identificados apenas pela observação. Dificuldade
para respirar, sangramento, apatia intensa, vômitos, diarreia, incapacidade de
ficar em pé, dor, convulsões ou outras alterações neurológicas exigem
atendimento imediato.
Ao encontrar um cão ou gato sozinho, a aproximação deve ser lenta,
sem correr, gritar ou tentar agarrá-lo bruscamente. Água pode ser oferecida,
mas não se deve forçar a ingestão nem administrar medicamentos. Se o resgate
puder ser feito com segurança, o transporte deve usar guia, caixa apropriada ou
uma contenção que reduza o risco de fuga.
A avaliação clínica também permite verificar a presença de
microchip. Coleira, plaqueta ou identificação eletrônica podem revelar que o
animal está perdido, situação que deve ser investigada antes da busca por um
novo lar.
Quem presenciar um abandono deve registrar, sem se colocar em risco, a placa e as características do veículo, o local, a data e o horário, além de preservar fotos ou vídeos. A denúncia pode ser apresentada à polícia e aos órgãos municipais ou estaduais de proteção animal.
Pelo projeto aprovado na Câmara, a suspensão será de 12 meses para
o abandono de animais em geral e de 18 meses para cães e gatos. Em caso de
reincidência dentro de 24 meses, a proposta prevê a cassação da habilitação. As
mesmas regras alcançam o uso de embarcações. O texto ainda precisa passar pelo
Senado e, depois da aprovação definitiva pelo Congresso, dependerá de sanção
presidencial e publicação para entrar em vigor.

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