Durante muito tempo, cuidar da saúde esteve
associado, principalmente, a tratar doenças depois que elas apareciam. Fazer
uma consulta quando algo incomodava, procurar um médico diante de um sintoma ou
mudar hábitos somente depois de receber um diagnóstico. Aos poucos, essa lógica
vem mudando, e ainda bem. A saúde preventiva começa a ocupar um espaço maior na
rotina dos brasileiros e, mais do que uma tendência de comportamento,
representa uma mudança importante na forma como nos relacionamos com o próprio
bem-estar.
Prevenir não significa viver em alerta permanente
ou transformar cada escolha em uma preocupação. Significa compreender que
pequenas decisões tomadas hoje podem contribuir para uma vida mais saudável no
futuro. Alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado, vacinação,
uso de suplementos adequados, acompanhamento médico e atenção aos sinais do organismo
fazem parte dessa construção.
Os números ajudam a dimensionar a importância dessa
mudança. Pesquisa Estilos de Vida 2024, da NielsenIQ, mostra que 86% dos
consumidores brasileiros entrevistados afirmam já ter adotado pelo menos um
hábito mais saudável em sua rotina. Além disso, 51% dizem procurar produtos com
fibras e vitaminas em suas compras frequentes, e 45% afirmam ter reduzido o
consumo de produtos industrializados. Esse é, para mim, o melhor dado, porque
traduz exatamente a ideia de prevenção entrando no cotidiano.
Outro dado recente apontou que 82% dos brasileiros
têm interesse em melhorar seus cuidados com a saúde e consumir mais conteúdos
educativos sobre bem-estar. E 69% afirmam realizar consultas de check-up
periodicamente, percentual que chega a 77% entre pessoas com 45 anos ou mais.
É importante observar que prevenção não se resume a
exames médicos. Ela começa muito antes, nas escolhas que fazemos diariamente. O
que colocamos no prato, por exemplo, tem relação direta com esse movimento.
O Guia Alimentar para a População Brasileira,
elaborado pelo Ministério da Saúde, recomenda que a alimentação tenha como base
alimentos in natura, frutas, verduras, legumes, feijão, cereais, carnes, ovos e
leite. A orientação também é evitar o consumo de alimentos ultraprocessados,
que tendem a apresentar composição nutricional desequilibrada e podem estimular
o consumo excessivo.
Como defensora de uma boa alimentação, acompanho de
perto essa transformação no comportamento do consumidor. Existe hoje uma busca
maior por informação e por produtos que possam fazer parte de uma rotina de
cuidados. O consumidor quer entender o que está consumindo, procura
ingredientes, compara rótulos e demonstra interesse crescente por alimentos
relacionados a uma alimentação mais equilibrada.
Esse movimento, porém, precisa vir acompanhado de
responsabilidade. Saúde preventiva não combina com promessas milagrosas. Também
não significa que suplementos alimentares ou determinados produtos sejam
capazes, isoladamente, de prevenir ou tratar doenças. A Anvisa é clara ao
explicar que suplementos têm a função de complementar a alimentação e não
substituem uma dieta saudável, equilibrada e variada. A indicação de uso deve
considerar as necessidades individuais e, quando necessário, contar com
orientação de um profissional de saúde.
Essa é uma distinção fundamental, especialmente em
um momento em que informações sobre saúde circulam em velocidade cada vez
maior. O desejo de cuidar melhor de si é positivo, mas precisa caminhar junto
com conhecimento e senso crítico.
Outro ponto que considero importante é que
prevenção não pode ser confundida com perfeição. Não precisamos transformar a
alimentação em uma lista interminável de restrições nem acreditar que uma única
escolha será capaz de determinar nossa saúde. O que importa é a consistência.
É possível começar com mudanças simples: aumentar a
presença de frutas, verduras e legumes nas refeições, beber mais água, reduzir
o consumo de produtos ultraprocessados, movimentar o corpo, dormir melhor e reservar
espaço na agenda para consultas e exames preventivos. São atitudes
aparentemente pequenas, mas que, incorporadas à rotina, podem fazer uma
diferença significativa.
Acredito que estamos diante de uma mudança
cultural. O brasileiro está começando a perceber que cuidar da saúde não deve
ser uma reação a uma doença, mas uma prática permanente. E essa mudança cria
também uma responsabilidade para empresas que atuam no segmento de alimentação,
bem-estar e saúde: oferecer produtos seguros, informação de qualidade e
transparência, sem estimular expectativas que a ciência não sustenta.
A prevenção ganha espaço justamente quando deixa de
ser encarada como uma obrigação e passa a fazer parte das escolhas cotidianas.
Mais do que viver mais, estamos falando de viver melhor e com mais autonomia.
Se a saúde é construída todos os dias, cada escolha
importa. E talvez esse seja o maior avanço: entender que cuidar de si não
precisa começar amanhã, depois da próxima consulta ou quando surgir algum
problema. Pode começar hoje, na próxima refeição, na próxima caminhada e na
decisão de olhar para a própria saúde com mais atenção.
Bruna Mothe
- co-fundadora da Bio Mundo
Referências
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Noncommunicable
diseases. 2025. Dados sobre mortalidade, fatores de risco e prevenção de
doenças crônicas não transmissíveis. urlOMS – Noncommunicable diseaseshttps://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/noncommunicable-diseases
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia Alimentar para a População Brasileira.
2. ed. Brasília: Ministério da Saúde. urlGuia Alimentar para a População
Brasileirahttps://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/publicacoes-para-promocao-a-saude/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf
ANVISA. Entenda os suplementos alimentares: o que você
precisa saber para usar com segurança. Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
urlAnvisa – Suplementos alimentareshttps://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/alimentos/suplementos-alimentares/suplemento-alimentar-o-que-voce-precisa-saber-para-usar-com-seguranca-1
IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019. Rio de Janeiro:
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. urlIBGE – Pesquisa Nacional
de Saúdehttps://www.ibge.gov.br/biblioteca/visualizacao/livros/liv101846.pdf
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Processamento dos alimentos. Saúde
Brasil. urlMinistério da Saúde – Processamento dos alimentoshttps://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/glossario/processamento-dos-alimentos
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