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sábado, 1 de agosto de 2026

"Pode ler só na segunda": a frase que está acabando com o descanso de milhares de trabalhadores

As mensagens enviadas por gestores fora do expediente mantêm o cérebro em estado de alerta, aumentam a ansiedade e impedem a recuperação mental, mesmo quando não há expectativa de resposta imediata 

 

"Pode responder só na segunda."- À primeira vista, a frase parece um gesto de consideração. Mas, para o cérebro, ela pode representar exatamente o oposto.

Cada vez mais comum em grupos de trabalho, e-mails e aplicativos de mensagens, o hábito de gestores enviarem demandas durante noites, finais de semana ou férias, acompanhadas da observação de que "não é preciso responder agora", tem despertado a atenção de especialistas em saúde mental. O motivo é simples: o problema não é quando a mensagem será respondida, mas o fato de ela já ter chegado. 

Segundo o psiquiatra Dr. Daniel Sócrates, especializado em saúde mental no ambiente corporativo, basta uma notificação de trabalho para que o cérebro comece a antecipar cenários, interrompendo o processo natural de descanso. 

"Quando a pessoa vê uma mensagem do chefe, mesmo sem abri-la, o cérebro imediatamente interpreta que pode existir uma demanda importante. Essa antecipação já é suficiente para ativar circuitos relacionados ao estresse e à vigilância. O organismo deixa de estar em repouso porque passa a monitorar uma possível ameaça ou obrigação", explica.

 

O cérebro não sabe que é "só para segunda"

Imagine a situação: sábado à tarde, almoço em família, uma viagem ou um momento de lazer. O celular vibra. Na tela aparece o nome do gestor acompanhado da mensagem: "Pode responder só na segunda. Estou mandando apenas para não esquecer."

Mesmo que o colaborador escolha não abrir a conversa, dificilmente conseguirá ignorá-la completamente.

"Descanso não significa apenas estar longe do computador. Significa também estar livre da expectativa de trabalho. Quando essa expectativa aparece, mesmo sem uma tarefa concreta, o cérebro permanece parcialmente conectado ao ambiente profissional", afirma o médico.

Essa ativação contínua dificulta o relaxamento, prejudica a qualidade do sono, aumenta a ansiedade e reduz a capacidade de recuperação física e emocional entre uma jornada e outra.

 

O descanso também faz parte da produtividade

Diversos estudos em neurociência mostram que períodos de recuperação são fundamentais para consolidar memória, restaurar a atenção, regular emoções e reduzir os níveis de estresse.

Quando esse descanso é interrompido repetidamente por estímulos relacionados ao trabalho, o cérebro permanece em estado de hiperalerta, o que pode favorecer fadiga mental, irritabilidade, dificuldade de concentração e, em casos prolongados, contribuir para quadros de esgotamento profissional.

"O cérebro precisa de momentos em que ele realmente acredita que nada relacionado ao trabalho vai acontecer. Esse período de segurança psicológica é essencial para que a recuperação ocorra de forma completa", explica Daniel Sócrates. 

Segundo ele, pequenas mudanças de comportamento podem produzir grande impacto na saúde mental das equipes. "A frase talvez precise ser reformulada. Em vez de 'pode responder só na segunda', a melhor pergunta é: 'essa mensagem precisava mesmo ser enviada antes de segunda?'. Respeitar o descanso não é permitir que a pessoa ignore uma mensagem. É preservar o cérebro dela da necessidade de conviver com essa preocupação durante todo o fim de semana."

 


Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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