As
mensagens enviadas por gestores fora do expediente mantêm o cérebro em estado
de alerta, aumentam a ansiedade e impedem a recuperação mental, mesmo quando
não há expectativa de resposta imediata
"Pode responder só
na segunda."- À primeira vista, a frase parece um gesto de consideração. Mas, para o
cérebro, ela pode representar exatamente o oposto.
Cada vez mais comum em grupos de trabalho, e-mails e aplicativos de mensagens, o hábito de gestores enviarem demandas durante noites, finais de semana ou férias, acompanhadas da observação de que "não é preciso responder agora", tem despertado a atenção de especialistas em saúde mental. O motivo é simples: o problema não é quando a mensagem será respondida, mas o fato de ela já ter chegado.
Segundo o psiquiatra Dr. Daniel Sócrates, especializado em saúde mental no ambiente corporativo, basta uma notificação de trabalho para que o cérebro comece a antecipar cenários, interrompendo o processo natural de descanso.
"Quando a pessoa vê
uma mensagem do chefe, mesmo sem abri-la, o cérebro imediatamente interpreta
que pode existir uma demanda importante. Essa antecipação já é suficiente para
ativar circuitos relacionados ao estresse e à vigilância. O organismo deixa de
estar em repouso porque passa a monitorar uma possível ameaça ou
obrigação", explica.
O cérebro não sabe que é
"só para segunda"
Imagine a situação: sábado
à tarde, almoço em família, uma viagem ou um momento de lazer. O celular vibra.
Na tela aparece o nome do gestor acompanhado da mensagem: "Pode
responder só na segunda. Estou mandando apenas para não esquecer."
Mesmo que o colaborador
escolha não abrir a conversa, dificilmente conseguirá ignorá-la completamente.
"Descanso não
significa apenas estar longe do computador. Significa também estar livre da
expectativa de trabalho. Quando essa expectativa aparece, mesmo sem uma tarefa
concreta, o cérebro permanece parcialmente conectado ao ambiente
profissional", afirma o médico.
Essa ativação contínua
dificulta o relaxamento, prejudica a qualidade do sono, aumenta a ansiedade e
reduz a capacidade de recuperação física e emocional entre uma jornada e outra.
O descanso também faz
parte da produtividade
Diversos estudos em
neurociência mostram que períodos de recuperação são fundamentais para
consolidar memória, restaurar a atenção, regular emoções e reduzir os níveis de
estresse.
Quando esse descanso é
interrompido repetidamente por estímulos relacionados ao trabalho, o cérebro
permanece em estado de hiperalerta, o que pode favorecer fadiga mental,
irritabilidade, dificuldade de concentração e, em casos prolongados, contribuir
para quadros de esgotamento profissional.
"O cérebro precisa de momentos em que ele realmente acredita que nada relacionado ao trabalho vai acontecer. Esse período de segurança psicológica é essencial para que a recuperação ocorra de forma completa", explica Daniel Sócrates.
Segundo ele, pequenas
mudanças de comportamento podem produzir grande impacto na saúde mental das
equipes. "A frase talvez precise ser reformulada. Em vez de 'pode
responder só na segunda', a melhor pergunta é: 'essa mensagem precisava mesmo
ser enviada antes de segunda?'. Respeitar o descanso não é permitir que a pessoa
ignore uma mensagem. É preservar o cérebro dela da necessidade de conviver com
essa preocupação durante todo o fim de semana."
Dr. Daniel Sócrates - Médico psiquiatra, doutor pela UNIFESP, com mais de duas décadas de atuação clínica. Dedica-se ao cuidado de profissionais que enfrentam altos níveis de exigência e responsabilidade, com abordagem focada em performance sustentável, saúde mental e qualidade de vida.
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