Pesquisa do Pandapé revela que, apesar
do peso crescente das competências comportamentais, a maioria das empresas
ainda avalia esse aspecto de forma subjetiva
Formação, experiência e domínio técnico já não garantem a
contratação de um profissional. Pesquisa realizada pelo Pandapé em 2025 mostra
que 88% dos profissionais de Recursos Humanos já deixaram de contratar
candidatos considerados tecnicamente qualificados por falta de compatibilidade
comportamental com a vaga ou com a empresa.
Do total de entrevistados, 31% afirmaram que isso acontece com
frequência, enquanto 57% disseram já ter tomado essa decisão algumas vezes.
Apenas 12% responderam que nunca ou raramente recusaram um candidato por esse
motivo.
Os resultados mostram que o conhecimento técnico continua essencial,
mas passou a dividir espaço com competências como adaptabilidade, comunicação,
autonomia, ética profissional e capacidade de resolver problemas, fatores cada
vez mais determinantes para o sucesso no ambiente de trabalho.
Para Patricia Suzuki, Diretora de Recursos Humanos da Redarbor
Brasil, detentora do Pandapé, as transformações tecnológicas e as mudanças nos
modelos de trabalho tornaram o comportamento um fator decisivo durante a
seleção.
"As competências técnicas continuam indispensáveis, mas deixaram
de ser suficientes para prever o desempenho do profissional dentro da empresa.
É necessário também demonstrar capacidade de aprender, se adaptar, colaborar,
comunicar-se e tomar decisões em contextos que mudam rapidamente."
Adaptabilidade,
proatividade e ética estão entre os atributos mais valorizados
Quando perguntados sobre quais competências comportamentais mais
valorizam nos candidatos, 63% dos profissionais citaram a adaptabilidade. Na
sequência aparecem proatividade e ética profissional (61% cada),
responsabilidade e autonomia (60%), comunicação clara (59%), resolução de
problemas (58%) e inteligência emocional (53%). Como a pergunta permitia múltiplas
respostas, os percentuais não somam 100%.
Segundo Patricia, esse movimento acompanha a necessidade das
empresas de formar equipes capazes de responder rapidamente às mudanças do
mercado.
"Conhecimento técnico pode ser atualizado por meio de cursos
e treinamentos. Já comportamentos relacionados à responsabilidade, à abertura
para aprender e à capacidade de trabalhar com outras pessoas exigem uma análise
mais profunda durante a seleção e também um trabalho contínuo de
desenvolvimento."
Ao mesmo tempo, essas competências estão entre as mais difíceis de
encontrar. A comunicação clara foi apontada por 53% dos entrevistados como o
comportamento que mais faz falta nos candidatos. Em seguida aparecem
responsabilidade e autonomia (42%), pensamento crítico (41%), resolução de
problemas (35%) e inteligência emocional (34%).
Para Patricia, a comunicação vai muito além da capacidade de falar
bem durante uma entrevista.
"Comunicação envolve saber organizar ideias, fazer perguntas,
compreender orientações, adaptar a linguagem a diferentes públicos e vender as
ideias. É uma competência diretamente ligada à colaboração, à produtividade e à
redução de ruídos dentro das equipes."
Avaliação
ainda depende da percepção do entrevistador
Embora as competências comportamentais tenham peso crescente na
contratação, a forma de avaliá-las ainda é pouco estruturada em boa parte das
empresas.
A pesquisa mostra que 55% avaliam o perfil comportamental de
maneira subjetiva, por meio de entrevistas, dinâmicas e observação. Outros 30%
utilizam testes estruturados, 9% estão implementando algum modelo de avaliação
e apenas 6% afirmam não considerar esse aspecto no processo seletivo.
Além disso, somente 39% das empresas possuem uma metodologia
estruturada para mapear as competências comportamentais esperadas para cada
função. Em 36% esse mapeamento acontece de maneira informal e 25% não possuem
qualquer definição.
Segundo Patricia, a ausência de critérios claros aumenta o risco de decisões baseadas apenas em percepções individuais.
"Quando a empresa procura alguém proativo, adaptável ou com boa comunicação, precisa definir como essas características serão observadas e quais evidências serão consideradas. Sem critérios comuns, cada entrevistador pode entender essas competências de uma maneira diferente."
Ela afirma que entrevistas estruturadas, perguntas
baseadas em situações reais, critérios previamente definidos e avaliações
compatíveis com cada função tornam a seleção mais consistente e reduzem a
subjetividade.
IA deve aumentar a importância das competências humanas
Para 72% dos entrevistados, o avanço da inteligência artificial e da automação tornará as competências comportamentais ainda mais importantes nos processos seletivos. Outros 20% acreditam que o peso permanecerá igual, enquanto apenas 8% esperam uma redução.
Na avaliação de Patricia, à medida que atividades repetitivas passam a ser automatizadas, habilidades humanas tendem a ganhar ainda mais relevância.
"A inteligência artificial pode apoiar a triagem e tornar algumas etapas mais eficientes, mas não elimina a necessidade de avaliar julgamento, ética, colaboração, empatia e capacidade de lidar com situações inesperadas. Na prática, a tecnologia aumenta a necessidade de combinar conhecimento técnico com competências que não podem ser automatizadas."
O levantamento também investigou quais comportamentos
seriam considerados inaceitáveis, mesmo em candidatos com excelente currículo
técnico. A falta de ética lidera as respostas, mencionada por 37% dos
profissionais de RH. Em seguida aparecem comunicação agressiva (18%),
arrogância (15%), falta de responsabilidade (13%), dificuldade para trabalhar
em equipe (6%) e resistência à mudança (6%).
"A empresa pode oferecer treinamento, desenvolver
conhecimentos e ensinar processos, mas comportamentos como confiança, respeito
e convivência podem afetar toda a equipe. Por isso, a avaliação precisa
considerar não apenas se o candidato consegue executar uma atividade, mas
também como ele tende a agir no ambiente de trabalho."

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