A nova nomenclatura reconhece que a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendrócrina (SOMP) vai muito além dos ovários e pode mudar o caminho até o diagnóstico
Uma das condições ginecológicas mais prevalentes do mundo ganhou um novo nome e, com ele, uma compreensão muito mais ampla e precisa do que ela realmente é. Desde maio de 2026, a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) passou a se chamar oficialmente Síndrome Ovariana Metabólica Poliendrócrina (SOMP), correspondência em português do termo internacional Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome (PMOS).
A mudança foi consolidada em consenso global publicado na revista The Lancet, resultado de um processo que durou 14 anos, reuniu 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes e contou com mais de 14 mil respostas de profissionais e pessoas diagnosticadas.
Para o Dr. Alexandre Rossi, ginecologista responsável
pelo Ambulatório de Ginecologia Geral do Hospital e Maternidade Leonor Mendes
de Barros, em São Paulo, a atualização é muito mais do que uma troca de sigla.
“A mudança de SOP para SOMP é um marco. Durante décadas, o nome antigo induzia
médicos e pacientes à ideia de que a síndrome era um problema de ovários e de
cistos. Na prática, estamos falando de uma condição metabólica e endócrina
complexa, que exige um olhar muito mais abrangente no diagnóstico e no
tratamento”, afirma.
Por que o problema?
A Síndrome dos Ovários Policísticos afeta entre 8% e 13% das mulheres em idade reprodutiva, o equivalente a mais de 170 milhões de pessoas no mundo. Apesar da prevalência expressiva, estima-se que até 70% das mulheres com a condição permaneçam sem diagnóstico. E o nome da síndrome era parte do problema.
O termo “ovários policísticos” criava duas distorções importantes. A primeira: sugeria que a condição estava restrita aos ovários, quando na realidade envolve alterações endocrinológicas e metabólicas de amplo espectro, como hiperandrogenismo, resistência à insulina, dislipidemia, risco cardiovascular aumentado e alterações neuroendrócrinas. A segunda: implicava a presença de cistos ovarianos patológicos, quando o que se observa ao ultrassom são pequenos folículos antrais acumulados, e não cistos. Isso gerava tanto sobrediagnóstico quanto subdiagnóstico, além de um impacto psicossocial negativo nas pacientes.
“Muitas pacientes chegavam ao consultório convictas de
que não podiam ter a síndrome porque o ultrassom não mostrava cistos. Outras,
recebiam um diagnóstico equivocado baseado apenas no aspecto ovariano, sem
investigar os critérios clínicos e laboratoriais necessários. O novo nome
resolve essa ambiguidade e isso tem impacto real na vida das mulheres”, explica
o Dr. Alexandre.
O que muda com a SOMP?
A nova nomenclatura, Síndrome Ovariana Metabólica Poliendrócrina, foi escolhida após um processo rigoroso, que avaliou acurácia clínica, aceitabilidade cultural e clareza de comunicação para diferentes públicos. O nome carrega três conceitos fundamentais: a origem ovariana da condição, o componente metabólico central e o envolvimento de múltiplos eixos endocrinológicos.
Além da nomenclatura, o consenso trouxe atualizações clínicas relevantes. Uma das mais significativas diz respeito ao diagnóstico: o hormônio antimulleriano (AMH), dosado por exame de sangue, passa a ser reconhecido como alternativa válida ao ultrassom para confirmação diagnóstica em mulheres adultas. Essa mudança tem impacto prático real: a coleta de sangue é mais acessível, menos invasiva e reduz o risco de sobrediagnóstico baseado apenas em imagem.
O consenso também reforça que a SOMP deve ser compreendida como uma condição crônica e multissistêmica, com impactos que vão da saúde reprodutiva ao risco cardiovascular e metabólico de longo prazo, passando pela saúde mental.
“A SOMP não é apenas um problema de irregularidade
menstrual ou de dificuldade para engravidar. É uma condição que, sem
diagnóstico e acompanhamento adequados, pode evoluir para diabetes tipo 2,
doenças cardiovasculares e outras complicações metabólicas. Reconhecer isso no
próprio nome da síndrome é um passo fundamental”, afirma o Dr. Alexandre Rossi.
Quem tem SOMP e como reconhecer
A SOMP afeta mulheres em idade reprodutiva, com prevalência estimada entre 8% e 13% e de 6,3% a 8,5% entre adolescentes. Os sinais mais comuns incluem irregularidade menstrual persistente, acne resistente a tratamentos, aumento de pelos em regiões corporais típicas de padrão masculino, queda de cabelo com distribuição central, dificuldade para engravidar, ganho de peso, especialmente abdominal, e alterações de humor e ansiedade.
O diagnóstico segue baseado nos critérios de Rotterdam, que exigem a presença de pelo menos dois dos três achados: hiperandrogenismo clínico ou laboratorial, disfunção ovulatória e morfologia ovariana policística ao ultrassom ou AMH elevado.
O Dr. Alexandre Rossi reforça que o diagnóstico é clínico e laboratorial, não se resumindo a um exame de imagem.
“Não ter cistos no ultrassom não descarta a SOMP, assim como ter ovários com aspecto policístico no ultrassom não confirma o diagnóstico sozinho. A avaliação precisa ser clínica, laboratorial e individualizada”.
A nova perspectiva reforça a centralidade das mudanças de estilo de vida, alimentação anti-inflamatória, atividade física regular, gestão do estresse e sono adequado como pilares do tratamento.
“A SOMP não tem cura, mas tem controle. O controle
efetivo passa por um plano terapêutico que vai além da prescrição do
anticoncepcional, que é uma ferramenta importante, mas não é a única nem sempre
a mais adequada para cada paciente. O acompanhamento ginecológico regular, com
avaliação metabólica periódica, é indispensável”, conclui o Dr. Alexandre
Rossi.
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