Especialista analisa a crise emocional dos jovens de 20 e poucos anos que enfrentam o choque entre a expectativa da faculdade e a realidade do desemprego, gerando um sentimento precoce de fracasso e invalidação profissional.
Concluir a faculdade costuma representar, para muitos
jovens, o início de uma nova etapa: conquistar o primeiro emprego na área de
formação, construir independência financeira e começar a colocar em prática os
planos feitos ao longo da graduação. Na realidade, porém, muitos recém-formados
encontram um cenário diferente do esperado, marcado pela dificuldade de
conseguir uma oportunidade e pela sensação de que, apesar do diploma, a vida
profissional não consegue começar.
A distância entre expectativa e realidade pode provocar
impactos emocionais importantes. Ao enviar currículos sem receber respostas,
participar de processos seletivos que não avançam ou aceitar trabalhos fora da
área de formação, jovens de 20 e poucos anos podem começar a questionar a
própria capacidade e interpretar uma dificuldade do mercado como uma falha
pessoal.
Segundo a psicóloga e especialista em ansiedade Eliane
Alves, esse processo pode favorecer o surgimento de sentimentos como frustração,
insegurança, ansiedade e até uma sensação precoce de fracasso. "Existe uma
expectativa de que, depois da faculdade, a pessoa finalmente vai conseguir
construir sua carreira. Quando isso não acontece, é comum que ela pense que não
é boa o suficiente ou que fez escolhas erradas. O problema é que uma
dificuldade profissional passa a ser interpretada como uma invalidação de quem
ela é", explica.
A pressão também pode ser intensificada pela comparação com
outras pessoas da mesma idade. Enquanto alguns conseguem uma oportunidade
rapidamente, outros ainda estão procurando emprego ou enfrentando dificuldades
para se inserir no mercado. Nas redes sociais, essa diferença pode parecer
ainda maior, já que são compartilhados resultados e conquistas, mas raramente
os períodos de incerteza que existem por trás dessas trajetórias.
"É muito difícil não se comparar quando parece que todo
mundo está avançando. O jovem olha para os colegas que conseguiram emprego,
estão ganhando dinheiro ou construindo uma carreira e sente que ficou para
trás. Essa comparação constante aumenta a ansiedade e pode fazer com que ele
deixe de enxergar o próprio processo", afirma Eliane.
Outro impacto está na dificuldade de planejar o futuro. Sem
estabilidade profissional ou financeira, muitos jovens adiam projetos pessoais,
como morar sozinhos, viajar ou construir uma família, criando a sensação de que
a vida está em pausa. A frustração acumulada pode levar ao isolamento, à perda
de motivação e à dificuldade de tomar decisões sobre os próximos passos.
Para a especialista, é importante compreender que a entrada
no mercado de trabalho não acontece no mesmo ritmo para todos e que o primeiro
emprego não precisa definir toda a trajetória profissional. "O início da
carreira é um período de construção e descoberta. Não conseguir uma
oportunidade imediatamente não significa que o jovem fracassou ou que seu
diploma perdeu valor. É preciso separar o momento profissional da identidade e
da autoestima", destaca.
A psicoterapia pode ser uma aliada para lidar com a ansiedade
e com as cobranças dessa fase, ajudando o jovem a reconhecer expectativas
irreais, trabalhar a comparação e desenvolver recursos emocionais para
enfrentar as incertezas. "O diploma representa uma conquista, mas não
determina sozinho o caminho profissional. O mais importante é não transformar
uma fase de dificuldade em uma sentença sobre o próprio futuro", conclui a
psicóloga.
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