Estudo
publicado em 2026 mostra que ferramentas de inteligência artificial podem
oferecer respostas sobre saúde auditiva superiores às encontradas no Google,
mas ainda apresentam lacunas e reforçam a importância da avaliação de
especialistas
Imagem criada por IA
O paciente mudou e a forma de buscar
informações sobre saúde também. Quem nunca sentiu alguma coisa e antes mesmo de
pensar em procurar ajuda de um profissional, utilizou a internet para pesquisar
sobre o que estava sentindo, que atire a primeira pedra. Seja uma dor
específica em alguma parte do corpo, algum tipo de incômodo, a busca por
informações em sites de pesquisas e ferramentas de inteligência artificial,
além de ser muito comum, muitas vezes é determinante para definir se a pessoa
irá ou não agendar uma consulta.
No caso do zumbido, um
dos sintomas auditivos mais comuns, essa realidade acende um novo alerta: quem
garante que a resposta fornecida está correta, completa e adequada para aquele
paciente? Um estudo publicado em 2026 na revista Otology
& Neurotology comparou a qualidade das informações sobre
zumbido oferecidas por seis sistemas de inteligência artificial
generativa com aquelas encontradas em uma busca tradicional no Google.
Os pesquisadores utilizaram 30 perguntas
relacionadas ao zumbido e submeteram as respostas à avaliação de seis
especialistas, considerando critérios como precisão, clareza, relevância,
completude e utilidade. O resultado mostra que a inteligência artificial já
começa a superar os mecanismos tradicionais de busca quando o assunto é
informação sobre saúde. Entre as plataformas analisadas, o OpenEvidence
apresentou a maior pontuação média, seguido por Claude, DeepSeek,
GPT-4, Gemini e GPT-5.
O Google Search apresentou a menor pontuação entre as
opções avaliadas.
No entanto, vale reforçar que apesar do
desempenho superior das ferramentas de IA, o estudo também identificou uma
fragilidade importante: a completude das respostas. Ou
seja, uma informação pode estar correta, ser bem estruturada e parecer
convincente, mas ainda assim deixar de abordar aspectos relevantes para a
compreensão do quadro.
“Esse é um ponto de atenção muito importante.
A inteligência artificial consegue organizar uma grande quantidade de
informações e responder de maneira cada vez mais convincente, mas isso não
significa que ela compreenda o contexto clínico daquele paciente. No caso do
zumbido, por exemplo, existem diferentes causas, manifestações e possibilidades
de tratamento. A mesma queixa pode ter origens muito distintas”, explica a fonoaudióloga
e diretora de Marketing e Produtos Latam da WSA, Gisele Munhoes dos Santos.
Outro ponto relevante do estudo foi a relação
entre qualidade técnica e facilidade de compreensão. A ferramenta que recebeu a
melhor avaliação dos especialistas, também apresentou respostas com maior nível
de complexidade de leitura, equivalente ao de uma pessoa com formação de
pós-graduação. O resultado revela um desafio que vai além da precisão:
informação de saúde precisa ser correta, mas também precisa ser compreensível
para quem está recebendo aquela informação.
No caso do zumbido, isso ganha ainda mais
importância. A percepção de sons como chiados, apitos ou ruídos sem uma
fonte externa, pode ter diferentes características e estar associada a
múltiplos fatores. Uma resposta genérica encontrada na internet ou produzida
por uma IA pode ajudar o paciente a formular perguntas, mas não substitui uma
investigação individualizada.
“Existe
uma diferença enorme entre informar e diagnosticar. A IA pode ser uma
ferramenta interessante para ampliar o acesso à informação e ajudar o paciente
a entender melhor o tema, mas ela não consegue substituir a escuta clínica, a
avaliação auditiva e a análise individual de cada caso”,
reforça a fonoaudióloga.
O
novo desafio da saúde auditiva na era da IA
A popularização da inteligência artificial
transforma também a relação entre pacientes e profissionais de saúde. Se antes
o desafio era combater informações incorretas encontradas em buscas na
internet, agora os especialistas passam a lidar com respostas produzidas por
sistemas capazes de apresentar conteúdos de maneira extremamente articulada e
aparentemente confiável. Esse cenário reforça a importância de combinar tecnologia,
informação de qualidade e acompanhamento profissional.
A inteligência artificial pode contribuir para a educação do paciente, facilitar o acesso a conteúdos e estimular a busca por ajuda especializada. O cuidado está em não transformar uma resposta automatizada em uma conclusão clínica. O estudo não aponta para uma disputa entre inteligência artificial e profissionais de saúde. Pelo contrário: seus resultados sugerem que as novas tecnologias podem ser ferramentas úteis para ampliar o acesso à informação, desde que utilizadas com senso crítico.
“Estamos
entrando em uma fase em que o paciente chega ao consultório não apenas com
sintomas, mas também com informações que encontrou, ou recebeu de uma
inteligência artificial. O papel do profissional passa a ser também ajudar a
interpretar essas informações, separar o que é evidência do que é generalização
e colocar tudo isso dentro da realidade daquele indivíduo”,
confirma Gisele.
Para quem apresenta zumbido, a recomendação é
simples: usar a IA para perguntar, não para concluir. A tecnologia pode ajudar
o paciente a entender o que é zumbido, conhecer termos relacionados ao tema e
preparar perguntas para uma consulta. Mas a identificação das possíveis causas
e a definição da melhor conduta dependem de avaliação individualizada.
WSA
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