Deficiências de vitaminas e minerais podem contribuir para sintomas como cansaço, desânimo e falta de energia; endocrinologista explica como nutrientes participam da produção de neurotransmissores e por que a investigação deve considerar todo o organismo.
Cansaço persistente, desânimo, dificuldade de concentração, irritabilidade e falta de energia costumam ser associados imediatamente à depressão ou ao excesso de estresse. Embora esses sintomas mereçam atenção à saúde mental, eles também podem aparecer quando o organismo enfrenta carências de vitaminas, minerais e aminoácidos envolvidos no metabolismo energético e no funcionamento do sistema nervoso.
A depressão é uma condição complexa que atinge cerca de 5,7% dos adultos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Fatores genéticos, sociais, emocionais, ambientais e biológicos podem participar do quadro. Por isso, a expressão “depressão nutricional” não corresponde a um diagnóstico médico, mas pode chamar atenção para alterações nutricionais e metabólicas capazes de provocar ou agravar manifestações semelhantes.
Segundo o endocrinologista e metabologista Dr. Rafael Fantin, os nutrientes atuam na síntese, na liberação e no metabolismo dos neurotransmissores, substâncias relacionadas à regulação do humor, da energia, da motivação, da concentração e do sono. “Isso não significa substituir o tratamento psiquiátrico, mas ampliar a avaliação. Se investigamos apenas os neurotransmissores e desconsideramos o ambiente metabólico e nutricional necessário para seu funcionamento, podemos estar observando somente uma parte do problema”, explica.
Entre os neurotransmissores relacionados à disposição estão a dopamina, associada à motivação e à energia, e a noradrenalina, que participa dos mecanismos de foco e atenção. A produção dessas substâncias depende de aminoácidos obtidos pela alimentação e de diferentes nutrientes que auxiliam as reações do organismo.
Ferro e vitaminas B6, B9 e B12 estão entre os nutrientes que participam dessas vias. A vitamina D também exerce funções no sistema nervoso. Quando existem deficiências reais, podem surgir fadiga, fraqueza, alterações cognitivas e queda da disposição. A falta de ferro, por exemplo, pode comprometer o transporte de oxigênio e provocar anemia, enquanto a deficiência de vitamina B12 pode estar associada a cansaço, formigamentos, problemas de memória e outras alterações neurológicas.
A diferenciação entre uma carência nutricional, depressão e outras condições começa por uma avaliação clínica detalhada. Alterações da tireoide, distúrbios do sono, anemia, processos inflamatórios, problemas intestinais e outras disfunções endócrinas ou metabólicas podem compartilhar sintomas. Acontecimentos como luto, demissão, separação e períodos de estresse intenso também podem afetar o estado emocional.
“Na maioria das vezes, não encontramos uma única causa. O paciente pode apresentar fatores nutricionais, hormonais, metabólicos, emocionais e ambientais atuando simultaneamente. Precisamos identificar essas alterações, corrigi-las quando necessário e acompanhar a resposta antes de ampliar a investigação”, afirma Rafael Fantin.
Conforme o histórico e os sintomas, podem ser avaliados níveis de ferro, zinco, magnésio e vitaminas D, C e do complexo B. Em situações específicas, o médico também pode solicitar um aminograma para observar aminoácidos circulantes, como triptofano, fenilalanina, tirosina e glutamina, que funcionam como matérias-primas para diferentes vias do organismo.
O especialista ressalta, entretanto, que nenhum desses resultados revela isoladamente quanto neurotransmissor está sendo produzido no cérebro. “O exame precisa ser interpretado em conjunto com os sintomas, a alimentação, a absorção intestinal, as medicações utilizadas e as demais condições clínicas. Um resultado fora da referência não explica sozinho o estado emocional de uma pessoa”, esclarece.
A suplementação por conta própria também pode provocar novos desequilíbrios. Doses elevadas de zinco por períodos prolongados podem reduzir a absorção de cobre. O excesso de ferro pode se acumular nos tecidos, enquanto a utilização inadequada de vitamina D pode causar complicações relacionadas ao aumento do cálcio no sangue. Mesmo vitaminas do complexo B devem ser avaliadas de maneira conjunta, de acordo com a necessidade individual.
“Não é verdade que, quanto maior a quantidade de nutrientes, melhor será o resultado. Precisamos identificar o que realmente está em falta, escolher a dose adequada e definir por quanto tempo a reposição será necessária. Misturar várias substâncias indiscriminadamente pode resultar em alto custo, baixa resposta e risco de novos problemas”, alerta.
Além da suplementação, quando indicada, o tratamento deve investigar a qualidade da alimentação e possíveis dificuldades de absorção. Cirurgias bariátricas, doenças intestinais, dietas muito restritivas e o uso prolongado de alguns medicamentos podem interferir no aproveitamento dos nutrientes. A saúde intestinal também participa dessa avaliação por sua relação com a absorção, a microbiota, a inflamação e a comunicação entre intestino e cérebro.
Para Rafael Fantin, o cuidado precisa incluir ainda sono adequado, atividade física, controle do estresse e da ansiedade, alimentação variada e acompanhamento da saúde metabólica e emocional. “Corrigir uma carência pode melhorar a disposição quando ela faz parte da origem dos sintomas, mas vitaminas não substituem o tratamento da depressão. O objetivo é compreender todos os fatores envolvidos e oferecer um cuidado completo, individualizado e seguro”, conclui.
Fonte: Dr. Rafael Fantin — Endocrinologista e Metabologista, especialista em saúde integrada, performance metabólica e nutrigenômica.
@dr.rafaelfantin
Nenhum comentário:
Postar um comentário