Neurocientista explica como o medo da rejeição, as redes sociais e a necessidade constante de aprovação podem levar à perda da própria identidade
Você fala diferente dependendo de quem
está por perto? Evita expor sua opinião para não criar conflitos? Ou sente que,
em determinados ambientes, precisa interpretar uma versão de si mesmo para ser
aceito? Esses comportamentos podem parecer naturais, mas, quando se tornam
constantes, podem indicar algo mais profundo: a perda gradual da própria
identidade.
Segundo o neurocientista, psicanalista
clínico e sexólogo Betto Alves, adaptar-se aos diferentes contextos faz
parte da convivência humana. O problema surge quando essa adaptação deixa de
ser uma escolha e passa a ser uma necessidade para conquistar aprovação.
"O ser humano precisa pertencer.
Desde cedo aprendemos que ser aceito aumenta nossas chances de conexão e
segurança. O risco é quando começamos a moldar nossa personalidade apenas para
atender às expectativas dos outros. Aos poucos, deixamos de saber quem
realmente somos", explica.
Esse conceito foi amplamente estudado
pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, que chamou de persona a
"máscara social" que usamos para desempenhar diferentes papéis ao longo
da vida. Para Betto, essa máscara é saudável quando ajuda na convivência, mas
se torna um problema quando passa a substituir a identidade.
"As personas não são o problema.
Todos nós exercemos diferentes papéis: profissional, pai, mãe, filho, amigo. A
questão é quando a pessoa acredita que precisa viver permanentemente dentro
desse personagem para continuar sendo amada, valorizada ou respeitada",
aponta.
A pressão para corresponder às
expectativas ganhou ainda mais força com as redes sociais. Perfis cuidadosamente
construídos, padrões de sucesso e estilos de vida idealizados criam uma
sensação constante de comparação e alimentam o medo de ficar de fora, fenômeno
conhecido como FOMO (Fear of Missing Out).
"Quando passamos tempo demais
olhando para a vida dos outros, corremos o risco de começar a copiar não apenas
comportamentos, mas também desejos, opiniões e até sonhos que talvez nunca
tenham sido nossos", levanta Betto.
No ambiente corporativo, esse movimento
também aparece com frequência. Profissionais sentem que precisam demonstrar
produtividade constante, esconder inseguranças e manter uma postura impecável
para serem reconhecidos.
"Existe uma crença de que
demonstrar vulnerabilidade é sinal de fraqueza. Assim, muitas pessoas vestem
uma armadura emocional para parecerem sempre fortes, competentes e inabaláveis.
O problema é que, quanto mais tempo usamos essa armadura, mais difícil fica
lembrar quem existe por baixo dela", afirma.
5 sinais de que você pode estar perdendo
sua identidade
1. Você muda de opinião dependendo de quem está por perto
Se você costuma concordar com tudo
apenas para evitar conflitos ou conquistar aprovação, vale a pena refletir.
Adaptar a forma de comunicar é diferente de abrir mão dos próprios valores.
"A adaptação é saudável. O problema começa quando você deixa de expressar
quem é apenas por medo da rejeição", explica Betto.
2. Sua autoestima depende da aprovação dos outros
Curtidas, elogios, reconhecimento
profissional ou validação do parceiro passam a determinar seu bem-estar. "Quando
a validação vem sempre de fora, a pessoa perde a referência interna sobre seu
próprio valor", aponta o especialista.
3. Você já não sabe mais do que realmente gosta
Após anos tentando agradar familiares,
parceiros ou colegas de trabalho, algumas pessoas têm dificuldade para
responder perguntas simples: qual é meu hobby? O que eu realmente gosto de
fazer? Quais sonhos ainda são meus?
"É muito comum atender pessoas
que, após o fim de um relacionamento ou uma grande mudança profissional,
percebem que viveram durante anos em função das expectativas do outro."
4. Você nunca demonstra fragilidade
No trabalho, nas redes sociais e até
dentro de casa, existe uma necessidade constante de parecer forte, bem-sucedido
e emocionalmente estável. "Quem acredita que precisa ser perfeito o tempo
todo acaba vivendo um personagem. E personagens não conseguem estabelecer
conexões verdadeiras."
5. Mesmo conquistando objetivos, você sente um vazio
constante
Esse costuma ser um dos sinais mais
importantes. A pessoa alcança metas, recebe reconhecimento e faz tudo o que
acreditava que deveria fazer, mas continua com a sensação de que algo está
faltando. "Quando a vida inteira é construída para atender expectativas
externas, até as conquistas podem parecer vazias, porque pertencem ao
personagem, não à pessoa."
Para Betto Alves, recuperar a própria
identidade não significa abandonar responsabilidades ou deixar de se adaptar
aos diferentes ambientes. Significa voltar a reconhecer os próprios valores,
limites e desejos antes que eles sejam completamente substituídos pelas
expectativas externas.
"O maior risco não é interpretar
diferentes papéis ao longo da vida. O maior risco é esquecer quem você é quando
o palco esvazia, as telas se desligam e não há mais ninguém para impressionar",
finaliza.
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