Vivemos em uma cultura que valoriza o "aguente firme".
Resistir ao sofrimento é frequentemente visto como sinal de força, enquanto
pedir ajuda pode ser interpretado como fragilidade. Esse modo de pensar atrasa
a prevenção e o tratamento da dor crônica. Muitas pessoas convivem com a dor
por anos até buscar ajuda, e, quando ignorada, ela pode deixar de ser apenas um
sintoma para se tornar uma doença. Segundo pesquisa da Vital Strategies e
Umane, em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), 62% da
população deixa de procurar atendimento médico quando precisa. A reflexão aqui
é procurar entender por que isso acontece?
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O ser humano, frequentemente busca soluções rápidas
sem necessariamente refletir sobre por que chegou a adoecer e se por algum
motivo, sabe a resposta, normaliza o contexto. Diz a si mesmo: “Estou
assim, porque trabalho muito, estou assado, porque fiquei muito em pé ou minha
cadeira no trabalho é ruim”. O desconforto vem e as pessoas querem eliminar a
dor o mais rápido possível para voltar a fazer exatamente o que as adoeceu.
A dor é um alerta do organismo de que algo precisa
de atenção. No entanto, aprendemos desde cedo a atribuir significados
diferentes a ela. Em alguns contextos, a dor representa coragem, superação ou
mérito; em outros, é motivo de vergonha ou fraqueza. Nossa forma de sentir e
reagir à dor é influenciada pelas experiências de vida, pelas crenças
familiares, pela cultura e pela sociedade.
Hoje sabemos que a dor é um fenômeno
biopsicossocial. Ela resulta da interação entre fatores biológicos,
psicológicos e sociais. Não é apenas uma resposta do corpo, mas também da
maneira como interpretamos nossas experiências e do ambiente em que vivemos.
Quantas vezes você já sentiu dor nas costas e
pensou: "É normal, fiquei muito tempo sentado" ou "Carreguei
peso demais"? Em vez de refletirmos sobre o que precisa mudar, costumamos
aceitar a dor como parte inevitável da rotina. Repetimos os mesmos hábitos e,
com eles, o sofrimento.
O contexto também modifica nossa resposta à dor.
Muitas pessoas escondem o desconforto no trabalho para não parecerem frágeis,
mas em casa expressam livremente o que sentem. Outras fazem exatamente o
contrário. Isso mostra que a dor não depende apenas do corpo, mas também dos
significados que atribuímos a ela e das relações que construímos ao longo da
vida.
Isso não significa que toda dor deva ser evitada.
Existem dores associadas ao crescimento, ao aprendizado e à superação. O
problema é transformar o sofrimento persistente em algo "normal" e
deixar de escutar os sinais do corpo.
Divulgação
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Mudar essa relação exige consciência. Nosso cérebro tende a repetir comportamentos familiares, mesmo quando eles nos fazem mal. Mas ele também é capaz de aprender novos caminhos. Ao questionarmos crenças, modificarmos hábitos e buscarmos ajuda quando necessário, criamos novas conexões neurais e ampliamos nossa capacidade de cuidar de nós mesmos.Talvez a verdadeira força não esteja em suportar a dor em silêncio, mas em reconhecer quando ela deixou de ser um desafio passageiro e passou a ser um convite para a mudança.
Mariana Schamas -
cinesiologista, especialista em dor crônica, Coordenadora do curso Dor e
Movimento HCX USP, Professora e autora do Livro “ A Dor é um Convite para a
Mudança” Editora Latitude
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