Outro dia peguei o mesmo metrô lotado de sempre, passei pelas mesmas estações de sempre, olhei pela mesma janela e percebi que não tinha visto nada. Zero. Minha mente, mergulhada nas preocupações e neuroses, ignorava o cenário complexo e todos os personagens que desfilavam diante dos meus olhos.
Para um escritor, isso é a pior coisa que poderia acontecer!
Nosso cérebro é eficiente em economizar energia:
assim que entende que um percurso é "o caminho de sempre", liga o
piloto automático e vida que segue. Automatizar o trajeto, beleza. Mas, se você
não ficar atento, o cérebro automatiza o rosto de quem você ama, o gosto do
café, a cidade e até suas reações. Aí, um dia, você olha pra trás e... cadê a
vida?
Vejo muitos jovens escritores (e até colegas mais
experientes) buscando meios sofisticados de incrementar seus processos criativos.
Acho estranho que isso seja uma preocupação tão grande hoje em dia, mas
entendo. Afinal, o que não nos falta é distração.
Penso que criatividade tem a ver com interesse. Não
tem como ficar sem criatividade estando profundamente interessado, seja na
vida, em um objeto ou em algum tema. Esse é o problema da automatização e da
realidade cada vez mais competente em nos manter distraídos: ela destrói o
interesse nas pequenas coisas.
Mas como resolver isso? Simples: olhe para o mundo
pela primeira vez todos os dias, tal como uma criança pequena. Para ela, tudo é
novo. Se hipnotiza por uma poça d'água suja ou pelo voo de um mosquito.
Você se lembra de quando as coisas não tinham nome?
A gente passa por uma árvore e pensa: "Ah, isso é uma árvore." Mas,
se você não soubesse que árvores existem e se deparasse com uma, o que faria?
Que nome daria?
Faço isso o tempo todo, como uma brincadeira. Pego
uma coisa qualquer (um poste, uma caneca, um sentimento) e finjo que nunca vi
nada daquilo. Finjo que não sei que "poste é poste" e olho com mais
atenção. Vejo um mastro de concreto, com fios saindo feito tentáculos e da
ponta sai uma luz, que ora é laranja, ora é branca. Pensando bem, o poste é uma
das coisas mais estranhas que existem... A gente só não olhou com atenção.
A parte boa é que ninguém precisa ser escritor para
olhar o mundo com olhos de criança e despertar a própria criatividade. A
realidade está aí, aberta, gigante, complexa, contraditória. Tudo isso
disponível para você. Se quer saber por onde começar, te dou uma dica. Se olhe
no espelho e responda: e se você não soubesse que você é você?

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