Influenciadores associam sintomas como inchaço, fadiga e dificuldade para perder peso ao desequilíbrio da microbiota intestinal, mas especialistas afirmam que o autodiagnóstico pode atrasar o tratamento correto
Barriga estufada, gases, fadiga constante, acne,
dificuldade para perder peso, alterações de humor e até compulsão alimentar.
Nos últimos meses, a palavra "disbiose" passou a aparecer diariamente
nas redes sociais como uma possível explicação para uma série de sintomas. O
aumento do interesse pela saúde intestinal acompanha o avanço das pesquisas
sobre a microbiota humana, mas também preocupa especialistas, que observam uma
onda crescente de autodiagnósticos baseados em vídeos curtos e recomendações
sem respaldo científico.
Bruna Makluf, nutricionista e diretora de Nutrição da WeFit, explica que a microbiota realmente exerce papel importante em diversas
funções do organismo, mas alerta que o conceito de disbiose vem sendo
simplificado de maneira equivocada nas redes sociais.
A WeFit é uma healthtech especializada em saúde
personalizada que integra avaliação nutricional, testes genéticos, análise da
microbiota intestinal e inteligência artificial para desenvolver protocolos
individualizados. O acompanhamento é realizado de forma remota pela equipe de
nutrição, que interpreta os resultados de forma integrada para construir
estratégias personalizadas de acordo com as características biológicas e os
hábitos de cada paciente.
"Muitas pessoas chegam ao consultório dizendo
que descobriram que têm disbiose porque sentiram inchaço ou porque viram um
vídeo que descrevia exatamente os mesmos sintomas. O problema é que alterações
intestinais podem ter inúmeras causas. Nem todo desconforto está relacionado à
microbiota e nem toda microbiota diferente representa uma doença."
O intestino abriga trilhões de microrganismos,
entre bactérias, fungos e vírus, que participam da digestão, da produção de
metabólitos importantes, do funcionamento do sistema imunológico e da
comunicação entre intestino e cérebro. Alterações nesse ecossistema podem
ocorrer ao longo da vida por influência da alimentação, do uso de medicamentos,
do estresse, da qualidade do sono e de diversos outros fatores. Entretanto,
pesquisadores reforçam que ainda não existe uma composição considerada ideal
para todas as pessoas e que a avaliação deve ser individualizada.
Estudos publicados nos últimos anos mostram que a
microbiota está relacionada à saúde metabólica, digestiva e imunológica, mas
também reforçam que o conceito de disbiose não deve ser utilizado como
diagnóstico isolado para explicar sintomas inespecíficos, especialmente sem
avaliação clínica.
Segundo Bruna, o maior risco do excesso de
informações disponíveis na internet é levar pessoas a iniciar dietas
extremamente restritivas, consumir probióticos indiscriminadamente ou eliminar
grupos alimentares inteiros sem necessidade. "Não existe um suplemento
capaz de resolver sozinho alterações da microbiota. Em muitos casos, o problema
nem está nela. Quando alguém inicia um tratamento baseado apenas em conteúdos
das redes sociais, pode acabar mascarando outras condições que precisam ser
investigadas."
Quando vale a pena procurar
ajuda?
Embora desconfortos digestivos ocasionais sejam
comuns, alguns sinais merecem avaliação profissional quando persistem por
semanas ou passam a comprometer a qualidade de vida. Nem toda alteração
intestinal exige exames complexos, tampouco o uso indiscriminado de
probióticos.
Segundo Bruna Makluf, alguns sinais merecem investigação quando permanecem por
semanas, principalmente se vier acompanhados de perda de peso involuntária, dor
abdominal frequente, alterações importantes do funcionamento intestinal ou
histórico familiar de doenças gastrointestinais. "Outro ponto importante é
observar quando esses sintomas começam a interferir na rotina. Se a pessoa
passa a evitar alimentos por medo, convive diariamente com desconforto ou faz
sucessivas tentativas de tratamento sem melhora, é hora de investigar. O
intestino pode estar sinalizando diversas condições diferentes, e não apenas
alterações da microbiota."
Entre os principais sinais de
alerta estão:
- distensão
abdominal frequente;
- alterações
persistentes do funcionamento intestinal;
- dor
abdominal recorrente;
- perda
de peso sem explicação;
- presença
de sangue nas fezes;
- sintomas
que permanecem mesmo após mudanças na alimentação.
"A investigação não acontece apenas porque
existe um exame disponível. Ela deve fazer sentido dentro da história clínica
daquela pessoa. O exame é uma ferramenta para complementar a avaliação, nunca
para substituir o acompanhamento profissional."
O que realmente ajuda a cuidar
da microbiota
Apesar da popularização dos probióticos nas redes
sociais, os especialistas afirmam que os hábitos cotidianos continuam sendo os
principais fatores associados à saúde intestinal.
Uma alimentação rica em frutas, verduras, legumes,
grãos integrais e fibras, associada à prática regular de atividade física, sono
adequado e menor consumo de alimentos ultraprocessados, permanece entre as
estratégias mais recomendadas para favorecer a diversidade da microbiota.
"A expectativa de encontrar um único alimento
ou um suplemento capaz de 'curar a microbiota' não corresponde ao que a ciência
mostra hoje. O intestino responde ao conjunto dos hábitos, não a soluções
isoladas."
Essa individualidade é justamente um dos fatores
que impulsionam o crescimento da medicina personalizada. Pessoas com sintomas
semelhantes podem apresentar causas completamente diferentes para seus
desconfortos, o que exige avaliações mais abrangentes do histórico clínico, dos
hábitos e das características biológicas de cada organismo.
Para ampliar essa compreensão, exames específicos
podem ser utilizados quando existe indicação clínica. A análise da microbiota
permite identificar a composição e a diversidade dos microrganismos presentes
no intestino, enquanto testes genéticos ajudam a compreender predisposições
relacionadas ao metabolismo, resposta aos alimentos e outros fatores que
influenciam a saúde. A interpretação integrada dessas informações permite que o
acompanhamento nutricional seja construído de forma individualizada, em vez de
seguir protocolos generalistas.
Para Bruna, o interesse crescente pela microbiota
representa uma oportunidade importante de ampliar a educação em saúde, desde
que a informação seja baseada em evidências e não em tendências das redes
sociais.
"É positivo que as pessoas estejam mais
curiosas sobre o funcionamento do próprio organismo. O desafio é entender que
saúde intestinal não pode ser resumida a um vídeo de um minuto. Quanto mais a
ciência avança, mais percebemos que cada organismo responde de maneira
diferente e que protocolos padronizados tendem a perder espaço para abordagens
realmente individualizadas."
Cinco cuidados antes de
concluir que você tem disbiose
- Evite
fazer autodiagnóstico com base apenas em conteúdos das redes sociais.
- Não
utilize probióticos ou suplementos sem orientação profissional.
- Observe
se os sintomas são persistentes ou apenas ocasionais.
- Procure
avaliação quando houver dor intensa, perda de peso involuntária, sangue
nas fezes ou alterações intestinais recorrentes.
- Lembre-se
de que alimentação, sono, estresse, medicamentos, genética e estilo de
vida influenciam a microbiota e precisam ser analisados em conjunto.
Bruna Makluf - nutricionista, diretora de Nutrição da WeFit e especialista em emagrecimento, saúde metabólica, composição corporal, saúde intestinal, doenças crônicas e longevidade. Graduada em Nutrição pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal) em 2008, possui especializações em Nutrição Clínica, Fitoterapia e Nutrição Comportamental, formação em Saúde Intestinal e mestrado em Saúde pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Com mais de 15 anos de experiência, atuou por nove anos na saúde pública, onde participou da implantação de equipes e políticas públicas voltadas à assistência nutricional. Posteriormente, integrou por seis anos a Clínica Seven, exercendo as funções de nutricionista e gestora da equipe de nutrição. Atualmente, lidera a área de Nutrição da WeFit, sendo responsável pelo desenvolvimento dos protocolos nutricionais personalizados da empresa. Sua atuação é baseada na individualização do cuidado, integrando evidências científicas, genética, saúde intestinal, exames laboratoriais e hábitos de vida para construir estratégias nutricionais adaptadas às necessidades de cada paciente. É fonte para temas relacionados ao emagrecimento, saúde intestinal, prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares, saúde metabólica e longevidade.
Para mais informações, acesse: Linkedin e Instagram.
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