Na semana de aniversário do ECA, especialista chama atenção para os riscos da superexposição de menores, dos antigos programas de TV às redes sociais
Na
semana em que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa mais um
aniversário como principal marco legal de proteção à infância e à adolescência
no Brasil, o debate sobre os direitos de crianças e adolescentes ganha ainda
mais espaço. Entre os temas que seguem atuais está a exposição precoce de
menores na mídia e nas redes sociais, um fenômeno que pode trazer impactos para
a saúde mental que se estendem até a vida adulta.
Antes
das redes sociais, a imagem de crianças e adolescentes já era explorada em
programas de televisão, concursos, comerciais, novelas e produções voltadas ao
entretenimento. Hoje, com a presença digital cada vez mais forte, esse fenômeno
se ampliou para perfis familiares, vídeos de rotina, publicidade infantil,
influenciadores mirins e conteúdos compartilhados por pais e responsáveis.
O
problema, segundo especialistas, é que a exposição precoce pode atravessar a
infância e deixar marcas na autoestima, na percepção de identidade, na relação
com o corpo e até na vida adulta. A criança, muitas vezes, passa a ser vista
como personagem, produto ou fonte de engajamento antes mesmo de ter maturidade
para compreender o alcance da própria imagem.
Para
a psicóloga clínica Soraya Oliveira, que atende no centro clínico Órion
Complex, em Goiânia, proteger crianças e adolescentes também significa cuidar
da saúde mental e da privacidade no ambiente digital. “A exposição precoce pode
gerar ansiedade, insegurança, necessidade constante de aprovação, medo de
críticas e perda da privacidade. Além disso, aumenta o risco de cyberbullying e
pode comprometer o desenvolvimento emocional”, explica.
Casos que ampliam o debate
Experiências
de artistas que começaram a trabalhar ainda na infância ajudaram a ampliar o
debate sobre os efeitos da exposição precoce. Um dos casos mais conhecidos é o
da atriz norte-americana Jennette McCurdy que, entre outros papéis, interpretou
Sam Puckett nas séries iCarly e Sam & Cat, da Nickelodeon. No livro de
memórias “Estou feliz que minha mãe morreu”, ela conta que iniciou a carreira
ainda criança por incentivo da mãe e que, mesmo quando demonstrou não querer
mais atuar, sentiu-se pressionada a continuar.
Na
obra, Jennette relata uma rotina marcada pelo controle da vida pessoal e
profissional, pela preocupação constante com a aparência e por transtornos
alimentares. A atriz deixou a atuação em 2017 e passou a se dedicar à escrita e
à direção. Sua trajetória mostra como o sucesso e o reconhecimento público
podem esconder sofrimento emocional, perda de autonomia e dificuldades para
construir uma identidade desvinculada da imagem criada para o entretenimento.
No
Brasil, a atriz Larissa Manoela também ampliou a discussão sobre os limites da gestão
familiar na carreira de artistas mirins. A atriz começou a trabalhar aos 4 anos
e ganhou projeção nacional ao interpretar a personagem Maria Joaquina no remake
da novela “Carrossel”, do SBT.
Durante
anos, sua carreira e seus negócios foram administrados pelos pais. Em 2023, já
adulta, Larissa afirmou que decidiu assumir o controle da própria vida
financeira e profissional após divergências sobre a gestão das empresas e do
patrimônio construído ao longo de 18 anos de trabalho. As declarações foram contestadas
pelos pais.
Sem
permitir generalizações sobre outras famílias ou diagnósticos sobre as pessoas
envolvidas, o episódio trouxe para o debate questões como autonomia, acesso às
informações financeiras e participação de crianças e adolescentes nas decisões
relacionadas ao próprio trabalho e à própria imagem. Também mostrou que os
efeitos desse tipo de relação podem se prolongar até a vida adulta.
A
preocupação, no entanto, não está apenas na fama. Também envolve crianças
anônimas que têm fotos, vídeos, intimidade, rotina escolar, momentos de choro,
broncas ou situações constrangedoras compartilhados nas redes sociais. Mesmo
quando a intenção da família é afetuosa, esse conteúdo pode permanecer
disponível por anos e afetar a forma como a criança será vista por colegas,
familiares, escolas e, no futuro, até no ambiente profissional.
“Fazer
registros de momentos especiais pode fazer parte da história da família. O
excesso acontece quando a vida da criança é compartilhada de forma constante, inapropriada,
sem respeitar sua privacidade, seus limites ou seu direito de não querer
aparecer ou mesmo de se expor”, afirma Soraya.
Uso da internet começa cada
vez mais cedo
Em
uma semana dedicada à reflexão sobre os direitos de crianças e adolescentes,
dados da TIC Kids Online Brasil 2025 mostram que 92% dos brasileiros de 9 a 17
anos são usuários de internet, o que representa cerca de 24 milhões de crianças
e adolescentes. A pesquisa também aponta que o primeiro acesso à rede tem
ocorrido cada vez mais cedo: 28% dos entrevistados relataram ter acessado a
internet pela primeira vez até os 6 anos de idade.
Para
a psicóloga, esse cenário exige mais atenção dos adultos. A discussão não deve
ser apenas sobre proibir o uso de telas, mas sobre proteger a privacidade,
respeitar o tempo de desenvolvimento e evitar que a criança seja transformada
em conteúdo. “Quando a criança cresce buscando validação por curtidas e
comentários, pode desenvolver uma autoestima frágil e dificuldade para
construir sua própria identidade. Na vida adulta, isso pode gerar insegurança,
dependência da aprovação e dificuldades nos relacionamentos”, explica.
Segundo
Soraya, alguns sinais de alerta podem indicar que a exposição ou o uso das
redes está afetando o bem-estar emocional de crianças e adolescentes.
“Mudanças
de humor, ansiedade, tristeza, frustração, isolamento, preocupação exagerada
com aparência, número de seguidores ou curtidas, além de irritação quando não
consegue acessar as redes, merecem atenção”, orienta.
Para
a psicóloga, a proteção da infância começa nas escolhas cotidianas dos adultos,
inclusive nas redes sociais. “Priorize a segurança, respeite a privacidade. Nem
tudo que é vivido em família precisa ser publicado. Algumas das memórias mais
importantes são aquelas que permanecem protegidas no coração. O vínculo afetivo
é mais importante do que qualquer postagem. A proteção da infância começa nas
pequenas escolhas que fazemos todos os dias, inclusive nas redes sociais”,
conclui.

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