Sexta edição do TransCerrado, irá monitorar queimadas e desmatamento, além de acompanhar os efeitos das mudanças no clima na população local e avaliar os efeitos desta exposição no corpo humano.
A sexta edição da expedição científica TransCerrado percorrerá de
bicicleta 300 quilômetros de estradas e trilhas entre o norte de Goiás e o sul
do Tocantins para investigar os efeitos das queimadas e da seca em uma das
regiões do Cerrado mais afetadas pelo desmatamento. Com saída prevista para o
início de agosto, a equipe, formada por cientistas, navegadores e atletas,
também irá monitorar os impactos da exposição ao calor extremo e à fumaça sobre
o corpo humano.
O percurso inclui a Área de Proteção Ambiental das Nascentes do
Rio Vermelho, o Parque Estadual de Terra Ronca, que abriga um dos maiores
complexos de cavernas do Brasil, e a Reserva Extrativista Recanto das Araras de
Terra Ronca. Ao longo do trajeto, a equipe visitará comunidades tradicionais,
iniciativas de conservação e projetos de desenvolvimento sustentável
desenvolvidos na região.
"O TransCerrado é uma expedição científica que, por meio da
interação com as pessoas, busca construir um diálogo em defesa da preservação
do bioma. Poderíamos fazer esse trajeto de carro ou investigar as mudanças na
paisagem por imagens de satélite, mas percorrê-lo de bicicleta amplia nossa
percepção das transformações no território e facilita o contato com quem vive
nessas áreas. A ideia é produzir documentos que contribuam para a conservação
da região, baseados tanto na visão das populações locais quanto em uma imersão
profunda no território", explica Paulo Moutinho, pesquisador sênior do
IPAM e idealizador do projeto.
O TransCerrado é uma expedição científica realizada de bicicleta
em defesa da conservação do Cerrado, a savana mais biodiversa do mundo e o
segundo maior bioma brasileiro. Em 2025, o projeto percorreu a região da
Chapada dos Veadeiros, onde coletou dados e depoimentos da população local
sobre os impactos das mudanças climáticas sobre os rios e a vegetação nativa.
As informações subsidiaram a participação da equipe na COP30, em Belém, onde os
pesquisadores apresentaram os resultados da expedição e defenderam a
importância da conservação do bioma.
Fogo no Cerrado e o El Niño
Menos de 3 anos após a ocorrência do El Niño que provocou secas e
impulsionou queimadas entre 2023 e 2024, especialistas preveem um novo fenômeno
para o final de 2026. Essa nova ocorrência do El Niño promete testar pela
primeira vez as medidas tomadas pela Lei Nacional de Manejo Integrado do Fogo,
assinada há 2 anos, e os avanços nos planos estaduais de Gestão do Fogo
apresentados neste ano.
Segundo
dados produzidos por pesquisadores do IPAM para a nova coleção do MapBiomas
Fogo, o trajeto desta edição atravessa uma das regiões mais afetadas pelas
queimadas no Cerrado. Nos últimos 41 anos, os
nove municípios percorridos pela expedição, localizados em Goiás e no
Tocantins, registraram cerca de 609 mil hectares atingidos pelo fogo.
A região também tem sofrido com o agravamento da seca. Apesar de
abrigar importantes cursos d'água, como o Rio Vermelho, afluente do Rio São
Francisco, os municípios percorridos pela expedição perderam 45% de sua
superfície de água natural, como rios, lagos e lagoas, nas últimas duas
décadas.
"O Cerrado é um bioma fundamental para a manutenção de
diversos serviços ecossistêmicos no Brasil. Justamente por isso tem sido
pressionado por um modelo de desenvolvimento que já suprimiu mais da metade de
sua vegetação nativa e ameaça cada vez mais a estabilidade da savana e,
consequentemente, dos demais biomas brasileiros. No TransCerrado, podemos
identificar soluções para conciliar a proteção desse patrimônio natural com o
desenvolvimento sustentável da região", explica Ane Alencar, diretora de
Ciência do IPAM.
As informações reunidas durante a expedição serão apresentadas na
COP31, que será realizada na Turquia, em novembro, e poderão subsidiar debates
e políticas voltadas à conservação do Cerrado.
Lucas
Guaraldo
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