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domingo, 26 de julho de 2026

Cães influenciam comportamento de onças-pardas em áreas de proteção no interior paulista

 

A onça-parda está amplamente distribuída no continente americano
crédito: Wikimedia

Utilizando armadilhas fotográficas instaladas em duas unidades de conservação, pesquisadores enxergam padrão de comportamento surpreendente de grandes felinos, predadores de topo de cadeia, para evitar contato com os cães, possivelmente para evitar matilha ou por associação à presença humana

 

Cães e seres humanos compartilham uma das relações mais antigas da história da domesticação. Descendentes dos lobos, eles foram os primeiros animais domesticados, em um processo que teve início entre 15 mil e 50 mil anos atrás. Hoje, a população mundial de cães ultrapassa 1 bilhão de indivíduos, distribuídos em praticamente todos os ambientes ocupados pelo homem.

Grande parte deles vive dentro de casas e apartamentos, especialmente em áreas urbanas. Outros, menos comuns no Brasil, são cães selvagens, que vivem sem vínculo com pessoas. Entre esses extremos existe um grupo muito mais numeroso do que costuma aparecer no debate público: os cães rurais de vida livre. São animais que têm tutor, alimento e um local para retornar ao fim do dia, mas permanecem soltos, percorrendo fazendas, estradas, plantações e áreas de vegetação nativa. Nesses deslocamentos, muitos acabam entrando em Unidades de Conservação e passam a interagir com a fauna silvestre.

É justamente esse tipo de interação que motivou um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp, e que rendeu o artigo Puma in check: How domestic dogs influence the behavior of a top predator, publicado na revista Biological Conservation. A pesquisa investigou como a presença de cães influencia o comportamento da onça-parda, o maior predador terrestre remanescente em grande parte do estado de São Paulo. O resultado surpreendeu até mesmo os pesquisadores: em vez de ser temida pelos cães, como era esperado de um predador de topo de cadeia, é a onça quem modifica seu comportamento para evitar locais onde os cachorros passaram.

Utilizando 67 armadilhas fotográficas instaladas em duas unidades de conservação no interior paulista, Estação Ecológica de Santa Bárbara e Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara, os pesquisadores verificaram que, após a passagem de um cão, a onça-parda demora, em média, 74 horas para voltar ao mesmo local. Além disso, ela só retoma o uso rotineiro daquela área aproximadamente cinco ou seis dias depois. O padrão indica uma estratégia consistente de evitar o contato com os cães, mesmo sem haver confronto direto.

Segundo a bióloga Rita Bianchi, professora da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, no câmpus de Jaboticabal, a ideia de analisar grandes felinos surgiu a partir do registro crescente de cães circulando dentro de áreas protegidas, que já eram monitoradas pelo grupo de pesquisa. “Em algumas unidades de conservação percebemos que, a cada nova amostragem, aumentava o número de registros de cães. Isso despertou nossa preocupação. Queríamos entender por que eles estavam ocupando essas áreas e quais consequências isso poderia trazer para a fauna nativa”, conta.

Além de ser um predador de topo, a onça-parda também foi escolhida como um dos focos do estudo por ser considerada uma espécie relativamente adaptável a diferentes habitats e por manter uma dieta bastante generalista. Os registros obtidos pelas armadilhas fotográficas revelaram que cães e onças podem utilizar as mesmas áreas, mas em momentos diferentes. Em vez de abandonar completamente determinados ambientes, a onça reorganiza seu uso do espaço no tempo, reduzindo as chances de encontro com os cães.

“Como um amante de grandes felinos, eu achava que a onça parda ia impor respeito e controlar a área. Os cães poderiam ser uma ameaça para animais pequenos, mas quando chegasse um animal maior o cenário ia mudar. Então foi uma surpresa quando rodamos a análise e vimos que as onças demoravam para voltar a uma determinada área depois da passagem dos cães”, diz Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp.

Leia a reportagem completa no Jornal da Unesp.

 

Flagrantes feitos por armadilhas fotográficas
Crédito: Rodolpho Gonçalves da Silva, Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp


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