Psicanalista repercute pesquisa que traz dados
sobre as palmadas e provoca reflexão: o que queremos ensinar aos filhos?
Magnific
Uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) em parceria com a Quaest revelou que 91% dos brasileiros acreditam que o diálogo é o melhor caminho para educar os filhos. Ao mesmo tempo, cerca de metade dos pais admite já ter recorrido à palmadas em algum momento. Os números revelam o abismo entre a intenção e a prática.
“A maioria dos pais deseja educar sem recorrer a tapas e puxões de orelha. Mas, diante do cansaço, da pressão do dia a dia ou da sensação de impotência, acaba reagindo de uma forma diferente daquela que realmente gostaria”, avalia Yafit Laniado, psicanalista e criadora da Relacionamentoria, mentoria especializada na relação entre pais e filhos.
Segundo a abordagem de Alfred Adler, a questão que se deve colocar não é apenas se a palmada funciona ou não. A verdadeira pergunta é: o que queremos ensinar aos nossos filhos?
“Quando um adulto utiliza a força para conseguir obediência, a criança pode até interromper o comportamento indesejado naquele momento. Porém, ela não aprende autocontrole, responsabilidade ou cooperação. Ela aprende que quem tem mais força consegue impor sua vontade. Por isso, a pergunta que os pais devem fazer a si mesmos não é ‘como faço meu filho parar de agir assim?’; a pergunta capaz de abrir nossos olhos e transformar nossa forma de educar é ‘Que tipo de pessoa eu quero ajudar meu filho a se tornar?’”, reflete a psicanalista. “Ao mudar essa perspectiva, os pais deixam de buscar apenas uma solução imediata e passam a investir na formação do caráter”.
Yafit aprofunda: “queremos criar crianças que obedeçam apenas por medo? Ou adultos capazes de pensar, assumir responsabilidades, respeitar os outros e contribuir para a sociedade mesmo quando ninguém está olhando? Educar não significa controlar, mas desenvolver na criança a capacidade de fazer boas escolhas por convicção, e não apenas para evitar punições”.
A
especialista ressalta que esse tipo de ação exige dos pais algo muito mais
desafiador do que castigar. “Exige construir uma relação baseada em respeito
mútuo, firmeza, confiança e encorajamento. Limites continuam sendo
indispensáveis, mas podem ser estabelecidos sem humilhação, sem tapas e sem
gritos. A verdadeira autoridade não nasce do medo; nasce da consistência dos
pais, da qualidade do relacionamento e da confiança construída no dia a dia”.
Adler afirma que todo ser humano busca pertencimento. Quando a criança sente que faz parte da família, que é valorizada e que pode contribuir, ela tem muito mais disposição para cooperar do que quando age apenas para evitar punições.
Para Yafit, talvez
o dado mais esperançoso dessa pesquisa não seja quantos pais já bateram nos
filhos, mas o fato de que a imensa maioria acredita no diálogo. “Isso mostra
que existe um desejo coletivo de encontrar formas mais conscientes e eficazes
de educar. Educar é olhar além do comportamento de hoje e focar no adulto que
queremos que nossos filhos se tornem amanhã. Quando essa passa a ser nosso
principal objetivo, nossas atitudes também começam a mudar”, conclui.
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