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domingo, 26 de julho de 2026

Por que o sabiá-laranjeira canta de madrugada em SP? Pesquisa da USP busca resposta com ajuda de escolas da cidade

Projeto apoiado pelo Instituto Serrapilheira abre inscrições para alunos do ensino fundamental investigarem a ave-símbolo do Brasil 

Pesquisa busca descobrir por que sabiá-laranjeira canta em SP
em horário diferente do habitual 
Foto: Leonardo Breder
 Divulgação 
 Projeto Sabiá (USP)
Escolas públicas e privadas da cidade de São Paulo podem se inscrever para participar do projeto “A que horas o sabiá-laranjeira canta?”, coordenado pela bióloga Ana Paula Assis, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), com apoio do Instituto Serrapilheira. A iniciativa envolve estudantes do Ensino Fundamental II na coleta de dados sobre o horário de canto do sabiá-laranjeira em diferentes regiões da capital. As escolas interessadas em participar do próximo ciclo do projeto precisam preencher um formulário no site do Projeto Sabiá:
www.projetosabia.ib.usp.br.


Resultados preliminares da fase piloto já chamaram a atenção dos pesquisadores. Em áreas próximas a regiões de mata, o sabiá-laranjeira costuma começar a cantar por volta das 5h da manhã, perto do amanhecer. Já em regiões mais urbanizadas, esse horário é antecipado para as primeiras horas da madrugada. Em um dos casos mais extremos registrados até agora, em um ponto de coleta próximo à Avenida Paulista, um sabiá-laranjeira foi ouvido cantando durante toda a noite, sem interrupções. A observação reforça uma das hipóteses da pesquisa: o ruído urbano altera de forma significativa os horários em que a espécie vocaliza. 

“Em locais com muito ruído, o sabiá parece não ter mais uma janela silenciosa para cantar”, afirma Ana Paula Assis. Na prática, ele precisa competir com o barulho o tempo todo. Quando um pássaro que costumava cantar em períodos específicos passa a cantar a noite inteira, isso sugere um nível extremo de adaptação ao ambiente urbano.”

A pesquisa busca entender como fatores como poluição sonora, iluminação artificial e cobertura vegetal influenciam esse comportamento. Na fase piloto, no ano passado, participaram 17 escolas e mais de 300 alunos. Para 2026, a equipe pretende ampliar a rede para pelo menos 30 escolas.

Podem participar escolas públicas e privadas da cidade de São Paulo com turmas do Ensino Fundamental II. Cada escola participante recebe gravadores programados para registrar sons entre 23h e 6h, além de sonômetros para medir o nível de ruído nos pontos de coleta. Os estudantes também participam de atividades de observação de aves em praças e parques da cidade, contribuindo diretamente para a produção de dados científicos.

Durante o período reprodutivo, o sabiá-laranjeira canta principalmente para atrair parceiros e defender território, com vocalizações concentradas nas primeiras horas da manhã. Em ambientes urbanos, porém, o barulho constante pode dificultar essa comunicação, levando a espécie a antecipar seu canto para horários mais silenciosos, ainda durante a madrugada. A iluminação artificial também pode interferir em seu relógio biológico e alterar seus períodos de atividade.

Outro resultado preliminar também chamou a atenção da equipe. Em um ponto de coleta em Paraisópolis, os gravadores não registraram o canto de nenhuma espécie durante o período monitorado. O dado ainda será investigado, mas pode indicar uma relação entre baixa cobertura vegetal e redução da atividade de pássaros em determinadas áreas da cidade.

“São Paulo tem quase 500 espécies de aves descritas dentro da cidade. Não ouvir nenhuma cantando pela manhã é algo que merece atenção”, diz a pesquisadora.

A ideia do projeto surgiu a partir de uma observação da própria pesquisadora. Enquanto cuidava da filha de seis meses, que frequentemente acordava de madrugada, Ana Paula e o marido perceberam um padrão curioso: sempre que ouviam um sabiá cantando, sabiam que a bebê havia despertado depois da 1h da manhã. A observação chamou a atenção da pesquisadora, que já estudava a adaptação de espécies ao ambiente urbano e conhecia pesquisas sobre aves que alteram o horário do canto em resposta ao ruído das cidades.

Embora o fenômeno seja frequentemente comentado por moradores de São Paulo, ainda não havia sido investigado de forma mais profunda na capital e com envolvimento de jovens estudantes.

“O projeto também tem um componente importante de ciência cidadã. Além de investigar como a urbanização afeta o horário de canto do sabiá-laranjeira, queremos aproximar os estudantes da prática científica e fortalecer seu contato com a natureza no ambiente urbano. Eles não são apenas observadores — participam ativamente da coleta de dados e ajudam a construir conhecimento científico”, afirma a bióloga.


Instituto Serrapilheira


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