Projeto apoiado pelo Instituto Serrapilheira abre inscrições para alunos do ensino fundamental investigarem a ave-símbolo do Brasil
![]() |
| Pesquisa busca descobrir por que sabiá-laranjeira canta em SP em horário diferente do habitual Foto: Leonardo Breder Divulgação Projeto Sabiá (USP) |
Resultados preliminares da fase piloto já chamaram a
atenção dos pesquisadores. Em áreas próximas a regiões de mata, o
sabiá-laranjeira costuma começar a cantar por volta das 5h da manhã, perto do
amanhecer. Já em regiões mais urbanizadas, esse horário é antecipado para as
primeiras horas da madrugada. Em um dos casos mais extremos registrados até
agora, em um ponto de coleta próximo à Avenida Paulista, um sabiá-laranjeira
foi ouvido cantando durante toda a noite, sem interrupções. A observação
reforça uma das hipóteses da pesquisa: o ruído urbano altera de forma
significativa os horários em que a espécie vocaliza.
“Em locais com muito ruído, o sabiá parece não ter mais uma janela
silenciosa para cantar”, afirma Ana Paula Assis. Na prática, ele precisa
competir com o barulho o tempo todo. Quando um pássaro que costumava cantar em
períodos específicos passa a cantar a noite inteira, isso sugere um nível
extremo de adaptação ao ambiente urbano.”
A pesquisa busca entender como fatores como poluição
sonora, iluminação artificial e cobertura vegetal influenciam esse
comportamento. Na fase piloto, no ano passado, participaram 17 escolas e mais
de 300 alunos. Para 2026, a equipe pretende ampliar a rede para pelo menos 30
escolas.
Podem participar escolas públicas e privadas da
cidade de São Paulo com turmas do Ensino Fundamental II. Cada escola participante
recebe gravadores programados para registrar sons entre 23h e 6h, além de
sonômetros para medir o nível de ruído nos pontos de coleta. Os estudantes
também participam de atividades de observação de aves em praças e parques da
cidade, contribuindo diretamente para a produção de dados científicos.
Durante o período reprodutivo, o sabiá-laranjeira
canta principalmente para atrair parceiros e defender território, com vocalizações
concentradas nas primeiras horas da manhã. Em ambientes urbanos, porém, o
barulho constante pode dificultar essa comunicação, levando a espécie a
antecipar seu canto para horários mais silenciosos, ainda durante a madrugada.
A iluminação artificial também pode interferir em seu relógio biológico e
alterar seus períodos de atividade.
Outro resultado preliminar também chamou a atenção da
equipe. Em um ponto de coleta em Paraisópolis, os gravadores não registraram o
canto de nenhuma espécie durante o período monitorado. O dado ainda será
investigado, mas pode indicar uma relação entre baixa cobertura vegetal e
redução da atividade de pássaros em determinadas áreas da cidade.
“São Paulo tem quase 500 espécies de aves descritas
dentro da cidade. Não ouvir nenhuma cantando pela manhã é algo que merece
atenção”, diz a pesquisadora.
A ideia do projeto surgiu a partir de uma observação
da própria pesquisadora. Enquanto cuidava da filha de seis meses, que
frequentemente acordava de madrugada, Ana Paula e o marido perceberam um padrão
curioso: sempre que ouviam um sabiá cantando, sabiam que a bebê havia
despertado depois da 1h da manhã. A observação chamou a atenção da
pesquisadora, que já estudava a adaptação de espécies ao ambiente urbano e
conhecia pesquisas sobre aves que alteram o horário do canto em resposta ao
ruído das cidades.
Embora o fenômeno seja frequentemente comentado por
moradores de São Paulo, ainda não havia sido investigado de forma mais profunda
na capital e com envolvimento de jovens estudantes.
“O projeto também tem um componente importante de
ciência cidadã. Além de investigar como a urbanização afeta o horário de canto
do sabiá-laranjeira, queremos aproximar os estudantes da prática científica e
fortalecer seu contato com a natureza no ambiente urbano. Eles não são apenas
observadores — participam ativamente da coleta de dados e ajudam a construir
conhecimento científico”, afirma a bióloga.

Nenhum comentário:
Postar um comentário