Monitoramento de quase um milhão de publicações
revela rejeição suprapartidária aos penduricalhos. Mas o consenso termina aí.
Oposição associa benefícios ao governo atual, enquanto esquerda propõe
redistribuir recursos
Os supersalários e os chamados penduricalhos do alto
funcionalismo público brasileiro tornaram-se um dos poucos temas capazes de
unir diferentes posições ideológicas nas redes sociais. É o que mostra um
estudo produzido pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência
Lupa, para a República.org, que monitorou aproximadamente 935 mil
publicações em redes sociais e aplicativos de mensagens durante
um ano. Desse universo, 442 mil menções trataram
especificamente dos penduricalhos, sendo 439 mil em redes sociais abertas e outras 3.500 em
grupos públicos de WhatsApp e Telegram.
O estudo, apresentado durante as programações da Casa República na
Flip (Festa Literária de Paraty), no painel "Penduricalhosgate: o
raio-X do 1% que queima o filme de 99%", também revela que
esse consenso não se traduz em concordância sobre as soluções. A análise
identifica que já começou uma disputa política crescente pelo tema, que tende a
ganhar importância na campanha eleitoral.
Diferentemente de outros temas da agenda pública, no levantamento
praticamente não foram identificadas manifestações em defesa dos benefícios
adicionais pagos a servidores que já recebem remunerações elevadas. A percepção
predominante é de que esses pagamentos são privilégios incompatíveis com a
realidade da maior parte da população.
Segundo o relatório, representantes da esquerda defendem que o
combate aos supersalários seja associado à redistribuição dos recursos para
áreas como saúde, educação e segurança, mas esse discurso não consegue ocupar o
centro do debate digital. Já partidos e influenciadores de direita e de
centro-direita têm transformado os penduricalhos em um instrumento de ataque
político, atribuindo ao Governo Federal e à esquerda a responsabilidade pela
manutenção dos privilégios.
A narrativa suprapartidária de consenso contra os supersalários
prevalece nas redes sociais abertas. O estudo identificou mais de 8,9
mil publicações contrastando os gastos com penduricalhos com os
investimentos destinados à população de baixa renda, como o Bolsa Família e o
Vale-Gás. Segundo os pesquisadores, essas mensagens foram produzidas de forma
espontânea por usuários de diferentes espectros ideológicos, indicando que a
crítica aos privilégios da elite do funcionalismo ultrapassa divisões políticas
tradicionais.
Já nos grupos públicos de WhatsApp e Telegram, o tema vem sendo
apropriado principalmente por setores da direita como instrumento de crítica
política. Das cerca de 3.500 mensagens analisadas nesses
aplicativos, 128 associavam explicitamente os penduricalhos ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, ao PT ou à esquerda, sem que essas publicações tragam
evidências para sustentar essa relação. Os pesquisadores também
identificaram sinais de coordenação na circulação desse conteúdo: uma mesma
mensagem afirmando que o Governo atual teria ampliado os penduricalhos foi
publicada simultaneamente em cinco grupos públicos monitorados.
Outro resultado relevante é que as reprovações de ambos os lados
se direcionam ao topo da máquina pública, especialmente ao Poder Judiciário e
ao Ministério Público, frequentemente retratados como beneficiários de
privilégios. O Congresso Nacional aparece em seguida entre os principais alvos.
Em contrapartida, professores, enfermeiros e demais servidores da linha de
frente do serviço público são vistos como essenciais e ficam praticamente fora
das manifestações negativas.
Metodologia
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