Especialista orienta pais a identificarem a linha tênue entre a introspecção típica da idade e o sofrimento psíquico silencioso, agravado pela falta de olho no olho e pelo refúgio excessivo no mundo virtual.
Passar mais tempo sozinho, fechar a porta do quarto e buscar
maior privacidade faz parte do desenvolvimento da maioria dos adolescentes.
Nessa fase, é natural que os jovens construam sua identidade, valorizem mais os
amigos e procurem momentos de introspecção. No entanto, quando o isolamento se
torna constante, acompanhado de perda de interesse pelas atividades que antes
davam prazer, alterações de humor e distanciamento da família, o comportamento
pode deixar de ser apenas uma característica da adolescência e passar a indicar
um quadro de sofrimento psíquico.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão
está entre os principais problemas de saúde que afetam adolescentes em todo o
mundo. O transtorno pode comprometer o desempenho escolar, os relacionamentos,
a autoestima e, nos casos mais graves, aumentar o risco de automutilação e
suicídio. Ainda assim, muitos sinais passam despercebidos porque costumam ser
confundidos com mudanças típicas da idade.
De acordo com a psicóloga especialista em ansiedade Eliane
Alves, um dos maiores desafios é justamente diferenciar a necessidade saudável
de privacidade de um isolamento motivado pelo sofrimento emocional. "O
adolescente naturalmente busca mais autonomia e pode querer ficar sozinho em
alguns momentos. O problema surge quando ele deixa de se conectar com a
família, abandona atividades que antes gostava, evita os amigos e transforma o
quarto em um refúgio permanente. Nesses casos, é importante olhar além da ideia
de que 'isso é apenas uma fase'."
Outro fator que merece atenção é a substituição quase
completa das relações presenciais pelo ambiente virtual. Embora a tecnologia
faça parte da rotina dos jovens, o excesso de tempo em frente às telas pode
intensificar o isolamento e dificultar a expressão das emoções. Em muitos
casos, o adolescente permanece conectado o dia inteiro, mas cada vez mais
distante das pessoas que convivem com ele.
"O mundo digital pode oferecer distração e sensação de
pertencimento, mas não substitui a qualidade das relações presenciais. O
contato olho no olho, o diálogo e a convivência familiar continuam sendo
fundamentais para o desenvolvimento emocional. Quando o adolescente se refugia
exclusivamente nas telas, pode estar tentando evitar emoções que não consegue
elaborar", explica Eliane.
Além do isolamento, mudanças bruscas no sono, no apetite,
queda no rendimento escolar, irritabilidade constante, falta de energia e
comentários frequentes sobre inutilidade ou desesperança também merecem
atenção. A especialista destaca que a depressão na adolescência nem sempre se
manifesta apenas por tristeza. Em muitos jovens, ela aparece por meio da
agressividade, do desinteresse ou de um aparente desânimo com tudo ao redor.
Para a psicóloga, a postura da família faz toda a diferença.
Em vez de interpretar o comportamento como rebeldia ou falta de interesse, os
pais precisam criar espaços seguros para o diálogo, demonstrando
disponibilidade para ouvir sem julgamentos. "Muitos adolescentes não
conseguem dizer claramente que estão sofrendo. Eles comunicam isso por meio do
comportamento. Quanto mais acolhimento existe dentro de casa, maiores são as
chances de esse jovem se sentir seguro para pedir ajuda."
Quando os sinais persistem por semanas ou começam a comprometer a rotina, a busca por acompanhamento psicológico torna-se fundamental. A intervenção precoce contribui para reduzir o sofrimento e fortalece os recursos emocionais necessários para enfrentar essa fase da vida. "A adolescência é um período de muitas transformações, mas sofrimento intenso nunca deve ser tratado como algo normal. Observar, acolher e buscar ajuda quando necessário pode fazer toda a diferença para que esse jovem atravesse esse momento com mais saúde emocional", conclui Eliane.
Fonte:
Eliane Alves -Psicóloga – especialista em ansiedade.
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