Em evento na Semana do Clima da Amazônia, atores envolvidos no combate às queimadas no Brasil destacaram avanços na integração como chave para o enfrentamento da temporada de fogo de 2026.
Com a previsão de um forte El Niño, que pode provocar secas e
temperaturas recordes na Amazônia, cientistas destacam a importância de uma
gestão integrada do fogo, capaz de coordenar ações e fortalecer o apoio técnico
entre todas as esferas de governo. O tema foi debatido no painel “Incêndios
florestais e mudanças climáticas na Amazônia: políticas públicas e ações de
prevenção, controle e capacidade de resposta", organizado pelo IPAM
(Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) durante a II Semana do Clima da
Amazônia, realizada em Belém, em 1º de julho. O encontro reuniu cientistas,
representantes da sociedade civil, bombeiros e gestores públicos para discutir
os desafios do combate aos incêndios florestais e os avanços técnicos na área.
"A política de fogo no Brasil, historicamente, foi muito
reativa, agindo quando ocorriam grandes queimadas. Mas ter políticas
preventivas para o fogo é fundamental porque é um tema que envolve muitos
setores e afeta diretamente a vida de todos nós. É um assunto ligado à própria
história da humanidade, mas sem a devida atenção, a vida de milhões de pessoas
está em risco e é só entendendo de onde vem o fogo e trabalhando junto com
várias organizações que conseguiremos mitigar seus riscos”, destaca Ane
Alencar, diretora de Ciência do IPAM.
Apesar da redução significativa da área queimada em 2025, 58%
menor do que a registrada no ano anterior, o Brasil ainda registrou mais de 12
milhões de hectares queimados ao longo do ano. Em 2024, quando os efeitos do fenômeno climático
foram mais intensos, mais de 30 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo,
cobrindo cidades amazônicas com fumaça tóxica, ameaçando comunidades
tradicionais e populações do interior e afetando, sobretudo, áreas nativas e
conservadas da floresta.
"Eventos como esse são muito importantes porque conseguem
unir boa parte dos atores envolvidos na gestão do fogo para discutir os vários
aspectos desse tema complexo", afirma Jarlene Gomes, pesquisadora e
coordenadora técnica do IPAM.
Nesse contexto, a Lei do Manejo Integrado do Fogo (MIF), aprovada em 2024 após a
temporada histórica de incêndios, estabelece diretrizes para o uso planejado e
controlado do fogo como ferramenta de manejo e prevenção. Além de prever a
realização de queimas prescritas para reduzir o acúmulo de material combustível,
a legislação fortalece a coordenação entre órgãos públicos e incorpora
conhecimentos e práticas tradicionais às políticas de gestão do fogo.
"O foco agora deve ser na parte da integração do MIF. Cada
grupo tem sua contribuição, seja no combate efetivo, na pesquisa, nas políticas
públicas, e só conseguiremos fazer funcionar se todos estivermos empenhados e
trocando informações. Não tem como a política de MIF funcionar se não
estivermos integrados e cooperando", pontua Lawrence Nóbrega, coordenador
de Monitoramento e Combate aos Incêndios Florestais do IBAMA (Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
Linha de frente
Segundo o diagnóstico Gestão do Fogo na Amazônia, que mapeou a estrutura de governança,
os recursos disponíveis e as estratégias de manejo do fogo nos nove estados da
Amazônia Legal, a resposta aos incêndios deve priorizar a integração entre
diferentes níveis de governo e setores da sociedade. As pesquisadoras
responsáveis pelo estudo também destacaram a necessidade de ampliar o efetivo de
brigadistas e bombeiros militares na região, além de investir em equipamentos e
infraestrutura para que áreas cada vez maiores possam ser monitoradas e
protegidas.
"Temos criado sistemas que forneçam equipamentos para todos
os níveis de governo. Essa coordenação de atividades em diferentes esferas
regionais é muito difícil, mas muito importante. Porque se conseguimos combater
esse fogo efetivamente em todas as frentes, quem tem mais a ganhar é a
sociedade", explica Jusciery Marques, tenente-coronel do Conselho Nacional
de Comandantes-Gerais dos Bombeiros Militares e especialista em operações de
combate ao fogo.
Na Amazônia, os Corpos de Bombeiros Militares utilizam sistemas de
monitoramento e gestão para detectar focos de calor, acompanhar o risco de incêndios
e coordenar as operações em campo. Essas ferramentas integram imagens de
satélite, dados meteorológicos e informações geográficas, mas sua efetividade
depende da integração com bases de dados produzidas por outros órgãos e
instituições. Para os especialistas, fortalecer essa articulação e ampliar os
investimentos em equipamentos, aeronaves, veículos e tecnologias adaptadas às
grandes distâncias da Amazônia é fundamental para tornar as ações de combate
mais rápidas e eficientes.
"Um exemplo de como a integração tem mudado a gestão do fogo
é que temos aumentado o número de ações interestaduais de combate às queimadas.
Quando um Estado não tem capacidade para lidar com uma situação, agora temos
mecanismos que aceleram a capacidade de outras regiões atuarem conjuntamente
nesse combate com mais velocidade", completa Marques.
Cooperação entre Estados
Também participaram do painel representantes do Consórcio
da Amazônia Legal, organização que reúne os nove estados da Amazônia Legal para
promover ações conjuntas de desenvolvimento sustentável, conservação ambiental
e enfrentamento das mudanças climáticas. O grupo tem atuado na elaboração dos planos estaduais de Manejo
Integrado do Fogo, articulando a captação de recursos e a cooperação técnica
entre secretarias estaduais e organizações da sociedade civil, como o IPAM.
Para Beatriz Casado, assessora técnica da Coordenação de Parcerias
e Câmaras Setoriais do Consórcio da Amazônia Legal, a construção de espaços
interestaduais de cooperação é fundamental para lidar com as diferentes
capacidades institucionais e necessidades de manejo de cada estado.
"Ouvir essa variedade de pessoas e territórios é sempre muito
rico porque ventila nossas ideias e permite a troca de informações e que a
gente conheça as dificuldades e forças de cada região, conseguindo ajustar da
melhor forma as ações de gestão do fogo", ressalta Casado.
A discussão ganha ainda mais relevância diante das previsões de um novo episódio de El Niño entre o fim de 2026 e o início de 2027. Menos de três anos após o último evento, o fenômeno, potencializado pelo aquecimento dos oceanos, pode provocar secas prolongadas e temperaturas recordes na Amazônia, reduzindo a umidade da floresta e aumentando o risco de incêndios de grandes proporções.
“A gente tem oficializado caminhos para que todos os atores envolvidos com a gestão do fogo possam enviar informações diretamente para o Governo Federal. Isso faz com que a resposta nesses momentos de crise seja ainda mais rápida e pode agir de forma mais acertiva”, completa João Paulo Sotero, analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Nenhum comentário:
Postar um comentário