Apesar das regras internas da plataforma e das exigências do ECA Digital, vídeos pornográficos seguem circulando no Reels e alcançando até contas simuladas como de menores de idade.
Perfis com conteúdo pornográfico continuam ativos
no Instagram, acumulando milhões de visualizações e driblando sistemas de
moderação da plataforma, apesar das regras internas que proíbem esse tipo de
material e de legislações mais rígidas voltadas à proteção de menores.
Os conteúdos circulam principalmente pelo Reels,
área de vídeos curtos impulsionada por algoritmos de recomendação. Em muitos
casos, aparecem para usuários que não seguem os perfis, ampliando o alcance
mesmo sem interação direta com as contas de origem.
Além da pornografia explícita, parte das
publicações inclui links externos suspeitos, com risco de direcionamento a
páginas maliciosas. Testes indicam que alguns desses conteúdos também chegam a
contas simuladas como menores de idade, o que contraria normas de proteção
infantil — num cenário em que 73% dos menores brasileiros já mantêm perfis
ativos em redes sociais, índice que chega a 91% entre adolescentes, segundo
levantamento do Projeto Brief com a plataforma Swayable, realizado com 1.800
pais e responsáveis de todo o país.
A Meta afirma que remove 92% dos conteúdos com
nudez antes de denúncias de usuários e que utiliza sistemas automatizados para
identificar violações. Em nota, a empresa diz não ter interesse na manutenção
de conteúdos que infrinjam suas políticas e reforça o uso de tecnologia para
moderação.
No Brasil, o ECA Digital obriga plataformas a
adotarem mecanismos para impedir o acesso de crianças e adolescentes a
conteúdos pornográficos. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados afirma que
há infração quando medidas razoáveis não são aplicadas de forma eficaz. Ainda
assim, o desconhecimento é alto: apenas 36% dos pais já ouviram falar do ECA
Digital.
O impacto emocional já aparece nos
lares: 46% dos pais percebem nos filhos problemas ligados ao uso das redes. “Estamos
falando de uma geração que cresce em ambientes digitais altamente estimulantes,
com pouca mediação e grande capacidade de impactar autoestima, comportamento e
relações. O risco não está apenas no conteúdo extremo, mas no uso cotidiano,
que pode afetar o desenvolvimento emocional”, diz Karen Scavacini, psicóloga,
especialista em saúde mental e fundadora do Instituto Vita Alere.
Karen Scavacini - psicóloga e pesquisadora, mestre em Saúde Pública pelo Karolinska Institutet (Suécia) e doutora em Psicologia pela USP. Fundou em 2013 o Instituto Vita Alere, pioneiro em posvenção e saúde mental digital no Brasil. Representa o país na International Association for Suicide Prevention (IASP) e é membro fundadora da ABEPS. Sua atuação combina ambientes digitais, educação emocional e pesquisa aplicada em saúde mental.
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